50 anos depois… ‘Are You Experienced’?

O aniversário do álbum de estreia de Jimmi Hendrix.

1967. Os clássicos psicadélicos sucedem-se a ritmo mensal. Estreias dos Doors, Jefferson Airplane e Velvet Underground e Country Joe and the Fish só para mencionar os primeiros cinco meses do ano. Are You Experienced sai a 12 de maio, fusão de todo o então existente género: jazz, blues, rythm & blues, soul e psicadelismo. Traz ainda pedais de distorção e feedback. Mas se é verdade que o disco se distingue essencialmente pela forma como Hendrix toca guitarra (eventualmente, a par de Eric Clapton e de Frank Zappa, o primeiro guitar hero da história), o disco acaba por funcionar como um todo, em que as canções são mais importantes que os solos de guitarra.

Tornar-se num dos mais influentes músicos de todos os tempos não foi natural, até porque a ascensão surge em tempos em que não era natural um negro ser bem sucedido. Basta recordar que no arranque da década, Chuck Berry só consegue furar a América racista porque a sua voz “soa à de um branco” na rádio e, como é do conhecimento geral, com a rádio é a imaginação que funciona. Mas não é apenas devido à tenção racial maximizada pelo Movimento dos Direitos Civis que esta história é tão pouco provável e por isso atraente: até aos 11 anos, o miúdo não tinha demonstrado particular interesse em música. Durante uma infância pobre e vivida com constantes problemas familiares, com pai e mãe a separarem-se várias vezes, Flash Gordon e Prince Valiant tomam-lhe as preferências. Só mais tarde, na adolescência, Muddy Waters, Lightnin’ Hopkins, Robert Johnson, Bessie Smith, B.B. King e Howlin’ Wolf fazem parte do cardápio blues.

A guitarra que o pai comprou com 5 dólares e a outra que o próprio adquiriu um ano depois servem para conhecer o instrumento, uma relação que se tornou íntima com Hendrix a transportar a guitarra para todo o lado e a carregá-la como Sterling Hayden em Johnny Guitar, o clássico de Nicholas Ray. Mau aluno, destro, tímido, distante, principalmente após a morte da sua mãe. É tão improvável tornar-se na maior estrela de rock dos anos 60… Se na escola a produtividade é proporcional à vontade (mesmo a Música chegou a ter um “F” e foi aconselhado pelo professor a seguir outro caminho), na guitarra torna-se autodidata e melhor aluno aprendendo a ver os outros fazer. Se o facto de ser destro torna a sua carreira enquanto músico pouco provável, personaliza a guitarra e torna a diferença em algo natural. A cada obstáculo ultrapassado coloca-se outro: é despedido da sua 1ª banda na sequência do 1º concerto por tocar demasiado rápido. Em 62 já toca vendado, de cabeça para baixo e com a guitarra atrás das costas. No mesmo ano cria os King Casuals, banda que ajuda o jovem reservado a comunicar com uma plateia. Enquanto muitos dos seus pares assumem outro tipo de trabalho, Hendrix quer dedicar-se cada vez mais à música, embora não saiba ler uma pauta.

Até 1966, bem perto deste Are You Experienced, Jimi não bebe, não fuma, nem se droga. Mas sejamos coerentes: não tem dinheiro para alimentar vícios. As namoradas fartam-se dos passeios no parque e, invariavelmente, relegam-no à condição de solteiro. Nesta altura, já tocou com uma data de grandes nomes, pertenceu à banda dos Isley Brothers e Little Richard (um dos seus heróis), mas o reconhecimento generalizado teimava em não aparecer. Seattle, onde fica até 64, era demasiado pequena, o Harlem de Nova Iorque maravilha-o enquanto epicentro negro da América dos anos 60, mas o conselho é sempre o mesmo: arranja um trabalho ou morres à fome! Pensa desistir várias vezes, penhora a guitarra outras tantas e até aceita ofertas de trabalho em que dura apenas uma semana. Em 1966, portanto, dão-se vários momentos que se dizem essenciais para a tardia ascensão de Hendrix: a introdução ao LSD por Linda Keith, namorada de Keith Richards, a edição de um disco essencial para o mundo no geral, e para Hendrix no particular: Blonde on Blonde.

O 7º de Dylan é importantíssimo na forma como encoraja Hendrix a cantar. Afinal, o homem de “Like a Rolling Stone” não é celebrado pelos seus dotes vocais. Mas é quando Chas Chandler, baixista dos Animals, o leva para Inglaterra (mera curiosidade: Lemmy, o eterno Motorhead, foi roadie de Hendrix) que o plano de expansão global começa finalmente a mostrar resultados. E não fosse Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, o oitavo disco dos Treegulls, alcunha que segundo o livro Room Full of Mirrors a Biography of Jimi Hendrix, de Charles Cross, aplica aos Beatles, e teria escalado totalmente a montanha das tabelas britânicas. Ficou-se pelo 2º posto. Um mês depois. A atuação icónica no Monterey Pop Festival, já na Califórnia, leva-o ao famoso episódio da guitarra incendiada. Pete Townshend dos The Who, conhecido por destruir guitarras em palco e que estaria a planear um demolidor final de concerto, na plateia terá dito que Hendrix lhe roubou a atuação.

Estava feito, em Junho de 1967 Jimi Hendrix finalmente ganha a América. Existem várias teorias que apontam para o começo do rock, mas nenhum desses “rocks” é como este, tão personalizado. Haveria de dizer: I don’t want to be a clown anymore. I don’t want to be a ‘rock and roll star. É verdade que, infelizmente, não haveria de por lá ficar muito mais tempo. A este Are You Experienced, bastaria o riff de “Purple Haze” para ser uma pedrada no charco. Mas é ainda muito mais: o riff, bateria e solo de “Manic Depression”, a forma como reclama o standard “Hey Joe” para si… e aquela sensação de história a acontecer a cada canção, a cada minuto, a cada nota.