Porque é que ‘Boxer’ foi tão importante para tanta gente?

10 anos do disco mais icónico de The National.

 
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Tiptoe through our shiny city
With our diamond slippers on
Do our gay ballet on ice, bluebirds on our shoulders
We’re half awake in a fake empire
We’re half awake in a fake empire

É irónico que um disco tão real e em que tanta gente se reviu arranque com uma canção de cenário tão surreal como “Fake Empire”. A partir daqui, as dores de crescimento, as relações falhadas, os empregos medíocres, as amizades esquecidas e outros assuntos tristes tomam conta da agenda. É como diz o top comment no vídeo de “Apartment Story” no YouTube: Sometimes I get a bit scared by the National. It’s like they decided to make a whole lot of songs based on my life.

Boxer é intrinsecamente honesto na forma como debate a vida. O emprego, eventualmente o primeiro, no single “Mistaken for Strangers”, as responsabilidades que chegam, os amigos que perdemos em “Green Gloves”, a idade adulta, a perda da inocência e o culto das aparências em “Slow Show”, o casamento, a rotina, em “Apartment Story”, a dificuldade de viver a dois e o fim da paixão em “Start a War”, o fim da brincadeira, o início do período mais aborrecido das vossas vidas. As metáforas e alguns apontamentos mais absurdos tentam atenuar a melancolia, a nostalgia, a dor. O vocalista dos National haveria de resumir ao Guardian: “Our songs are about death, but in really fun ways.”

É contido, sem momentos testosterona tipo “Abel” e “Mr. November”, e dominado pela bateria de Bryan Devendorf e a voz de Matt Berninger. O resto, a guitarra e o piano na maior parte do tempo, acomodam-se lá atrás. Não há egos, nem canibalização de instrumentos. A música como as letras é essencial para estabelecer o elo emocional que este disco conquistou entre banda e fãs. Ainda esta semana, a banda divulgou uma nova canção e as partilhas multiplicaram-se, à imagem de poucos, como James Blake, Arcade Fire ou Kendrick Lamar. Num mundo tão descartável a relação de fidelidade entre National e adeptos é rara, assim como parece inquebrável o (vamos chamar-lhe) ódio de quem não entende o culto. A maior parte diz que são uma seca e altamente depressivos. É a tal vida de aparências, de rotinas, de inevitável decadência. Não são os National que são uma seca ou depressivos, mas a vida. Os National, tal como as pessoas, a Bíblia, uma promoção no emprego, um disco, um livro ou uma coisa mais corriqueira como uma bola só ajudam-nos a ir aguentando.

Perguntei a uma amiga o porquê de Boxer ser tão importante na vida dela. Resposta: Boxer saiu no ano em que o meu pai morreu, havia muita coisa que não percebia e fui obrigada a perceber. Fez-me aguentar-me sã no meio dessa coisa toda. E depois era aquilo. Era simples, um banda de gajos meio esquisitos, na sombra, com umas coisas corriqueiras pelo meio, mas ao mesmo tempo profundas. É isto. 

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