Esmiuçámos o trailer da nova temporada de ‘House of Cards’

Ao de-ta-lhe.

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Antes de dissecarmos o trailer da nova temporada de House of Cards, temos de dar mérito à Netflix e destacar a forma como o decidiram comunicar. Para além dos típicos vídeos lançados nas redes sociais, a Netflix decidiu personificar Frank Underwood, avisando os seus subscritores, por intermédio de uma notificação na plataforma, que o “POTUS” teria uma mensagem para eles onde requisitava o seu apoio.


Ao abrir esta notificação os clientes são redireccionados para um link que contém o trailer da nova temporada. Mas a abordagem não parou por aqui, sendo que a surpresa maior ficou reservada para aqueles que subscreveram a newsletter da plataforma de streaming. Quem o fez teve a sorte de receber um e-mail “escrito e assinado” pelo próprio Presidente Underwood.

No e-mail lê-se:

“Caros cidadãos, 

Toda a minha vida me dediquei ao nosso país. Proteger as vossas liberdades é a minha maior honra. Em tempos negros como este temos de estar alerta e de nos proteger mutuamente. O dia 30 de Maio aproxima-se, preciso da vossa lealdade mais do que nunca. Podemos, a Clarie e eu, contar convosco?

A minha equipa não acredita em propaganda, mas nós acreditamos que irão gostar deste trailer.”

No resto do e-mail pode-se ver ainda uma hiperligação para o vídeo e a assinatura do Presidente Francis J. Underwood, e, diga-se, fosse este e-mail uma carta escrita pelo próprio, na sua fiel máquina de escrever, com toda a certeza Frank ganharia não só o Colégio Eleitoral como também o Voto Popular. Agora, vamos ao vídeo.

A análise a este trailer tem de ser feita em dois momentos, um que concerne todas as cenas e outro que concerne o preocupante monólogo de Frank. É certo que algumas imagens se enquadram perfeitamente no monólogo, mas este por si só é já forte o suficiente para se lhe atribuir ainda mais conteúdo.

“The American people don’t know what’s best for them. I do. I know exactly what they need. They’re like little children, Claire. We have to hold their sticky fingers and wipe their filthy mouths, teach them right from wrong. Tell them what to think and how to feel and what to want. They even need help writing their wildest dreams, crafting their worst fears. Lucky for them they have me. They have you. Underwood, 2016, 2020, 2024, 2028, 2036. One nation, Underwood.”

Todos os fãs da série sabem que a personagem interpretada por Kevin Spacey é arrogante e controladora, mas este monólogo leva-nos a crer que tal arrogância transcende até os limites morais. Frank afirma que sabe exactamente aquilo que o povo americano necessita e que estes não passam de crianças indefesas e inconscientes que precisam de ser moldadas e controladas. Mas, apesar de dizer que ele – e apenas ele – sabe o que realmente é necessário, de certo modo admite que não o consegue fazer sozinho e para tal precisa da ajuda de Claire. Na altura de afirmar quem deve pensar nas acções, Frank fala sempre no singular, mas na altura de as levar a cabo pluraliza o seu discurso, trocando o “eu” pelo “nós”.
O presságio que posteriormente se instala torna ainda mais alarmante todo este discurso que Frank profere. Partindo do pressuposto que ele até sabe aquilo que é necessário fazer, a aceitação disso cabe sempre ao povo americano, sendo que assim a sua liberdade nunca é posta em causa. Todavia ele enumera todas as datas de eleições posteriores àquela que estará prestes a enfrentar e, das duas uma, ou Frank intenta romper com a Constituição que impede a sua permanência, por mais de dois mandatos consecutivos, no cargo de POTUS, ou então planeia uma troca sucessiva entre si e Claire. De qualquer das formas, aquilo que Underwood procura será sempre um sistema político muito similar a uma ditadura, ou como ele chama, “Uma Nação Underwood”. Assim exposto até pode parecer simples, mas experimentem fechar os olhos e ouvir apenas as palavras que Frank dirige à sua mulher. Preocupante, senão assustador.

No que concerne as imagens, a primeira que se destaca não é a de Frank e Claire dentro da Sala Oval, mas sim dos protestantes nas imediações daquilo que parece ser a Casa Branca. A grande maioria dos protestantes são jovens e acartam cartazes que dizem “never Underwood” ou “Not my president”, mas é o cartaz azul, que diz “Abolish the Electoral College” que merece destaque pois dá indícios que as eleições já tomaram lugar e que Frank Underwood terá ganho graças ao sistema do Colégio Eleitoral, podendo Will Conway ter ganho o Voto Popular – uma irónica e invertida analogia às eleições que opuseram Donald Trump a Hillary Clinton.

Posteriormente é o grande plano do cabelo de Frank que prende a atenção. Enquanto este enfrenta os jornalistas na sala de conferências de imprensa, é transmitido implicitamente que ser presidente de um país é sem dúvida uma tarefa exaustiva e o facto de vermos Underwood com todo o seu cabelo grisalho só demonstra que ele é tão humano como todos os outros e que esta será sempre uma batalha que nunca irá ganhar. Nesta cena ele parece concentrar a sua atenção no (seu) lado esquerdo da sala, procurando talvez fugir às perguntas de Kate Baldwin, uma jornalista do The Wall Street Telegraph com quem já teve atritos na temporada anterior.

A sequência seguinte mostra a chegada do casal Underwood ao que parece ser uma instalação militar. Recorde-se que no final da quarta temporada Frank e Claire confessaram directamente ao espectador que eles próprios provocam o terror, com a finalidade de controlar a população através do medo. Isto acontece após Frank não ceder às exigências de terroristas islâmicos que operam em solo americano, levando à decapitação do cidadão James Miller. A especulação é que os EUA de Underwood irão agora partir para a guerra e o restante vídeo vai dando mais indícios de que isso poderá ser uma realidade já nesta temporada.

No decorrer do trailer vemos Frank no Senado, numa visita que parece criar algum alarido. Numa das imagens um senador abana o que parece ser um jornal do The Telegraph, que Frank arranca da sua mão. Mais à frente Frank discursa perante os presentes e atira uma resma de folhas ao ar, instalando-se a total desordem na sala. Aqui pode-se apenas especular que em ambas as cenas se trata do mesmo papel, ou seja de uma edição do The Telegraph, e que nessa edição conste um artigo a denegrir a acção de Underwood enquanto presidente, o que poderia levar a esta abordagem um pouco mais incisiva da sua parte.

Uma sequência que suscita alguma curiosidade é a da relação entre Tom Yates e Claire. Das vezes que aparecem juntos, sente-se um desenrolar gradual na sua dinâmica, como se de uma metáfora se tratasse. Primeiro temos Claire a assumir o protagonismo, ao entrar num auditório para discursar sobre a candidatura de Frank, enquanto Tom fica no escuro dos bastidores, conformado com o afastamento dela. Mais à frente vemos Tom e Claire, dentro de um dos quartos da Casa Branca, aparentemente a discutir a relação – e aqui Tom procura algum controlo na relação, quando agarra Claire, visivelmente incomodada com algo, pela mão. Já no fim do vídeo os papéis invertem-se e vemos Claire ser subjugada por Tom, que finalmente parece assumir as rédeas. Pode parecer um assunto bastante secundário, contudo não nos podemos esquecer se trata de um assunto delicado – que é este caso extra conjugal – e que poderá abalar todas as ambições políticas do casal Underwood, caso se torne público.

A próxima imagem em destaque permite especulações um pouco ambíguas. Trata-se daquilo que parece ser o planeamento eleitoral de Frank ou então de uma intervenção militar em solo americano, pois o mapa em questão é de Kentucky, Virgínia e Carolina do Norte e a presidência tem ainda em mãos a questão dos terroristas interinos. Esta segunda pode não ser tão verosímil pois tal situação seria sempre tratada no Gabinete de Crise (Situation Room) e a sala em questão é claramente diferente.

Mas garantidamente que o terrorismo será um assunto muito em voga nesta temporada, pois ao longo do trailer é possível ver uma acção policial levada a cabo pelo FBI, possivelmente para capturar os terroristas. A missão parece contudo ser bem-sucedida pois já no fim vê-se Frank a confrontar o que parece ser um dos terroristas que estavam no vídeo mostrado no último episódio da quarta temporada.

A sequência que se segue imediatamente é possivelmente a mais poderosa, não só pelas imagens mas também pelo discurso de Frank que as acompanha. A cena aparenta ser a de um funeral e pela desolação de Claire poderá bem ser o da sua mãe, que havia sucumbido na batalha contra o cancro. É um dos raros momentos em que vemos Claire numa situação de vulnerabilidade. Contudo poderá também ser o de outra personagem que não aparece, Jackie Sharp, e isto pode também ter impacto em Claire, na medida em que ambas estariam a trabalhar num projecto de lei contra a violação – o qual Claire foi alvo no passado. A ideia de ser o funeral de Jackie ganha alguma força também devido à forte presença de membros do corpo militar, do qual Sharp fez parte antes de ingressar na política.

A esta cena acrescenta-se ainda a perfeita sincronização do discurso de Frank com o enquadramento das personagens. Quando Frank diz que é preciso mostrar ao povo americano a distinção entre o que é certo e o que é errado, na tela temos Frank e Conway respectivamente. Posteriormente é possível ver que tanto para Underwood como para Conway o funeral não passa de um veiculo de angariação de votos, pois quando se confrontam directamente tudo o resto à sua volta parece não existir.

Algumas cenas mais à frente, temos a possível confirmação de que Underwood ganhou as eleições contra Conway. Nesta sequência, Will foca perplexo o mapa eleitoral, mas mais do que a sua possível derrota, o que é mais intrigante é o facto de ambos os candidatos terem perdido os seus estados para o adversário. Frank vê a sua terra natal votar no partido republicano enquanto Conway perde Nova Iorque, o estado do qual é governador.

Tom Hammerschmidt aparece também neste trailer e pelo que parece, continua focado em interligar todas as pontas soltas entre as misteriosas mortes de Zoe Barnes e Peter Russo e o desaparecimento de Rachel Posner. Aqui ele está a rever o que deve ser ficheiros da morte de uma jovem, cuja identificação se torna um pouco difícil. Apesar de se ver nitidamente a cara, ficamos na dúvida se poderá ser Zoe, Rachel ou até mesmo Lisa Williams, o interesse amoroso de Rachel, que aparece na sequência final numa casa de banho, possivelmente morta devido a uma overdose. Contudo Zoe pode ser aqui descartada, pois ao ter sido colhida por um comboio dificilmente os restos mortais estariam em tal estado de conservação. Mais à frente voltamos a ver Tom a remexer uns ficheiros num armazém, onde segura uma mugshot de Rachel. Todos nós sabemos quem está por trás de tudo isto, contudo quer parecer que Tom não estará muito longe da verdade.

Claire é possivelmente a personagem que mais desenvolvimento teve desde a terceira temporada. Passou de uma versão feminina de Frank para uma personagem algo mais independente e até humana, e este trailer parece dar a entender que tal desenvolvimento é para continuar. Se já antes falamos que Claire estaria a chorar no funeral, que quer seja da sua mãe quer seja de Jackie – onde ambas têm relativo valor sentimental para Claire – e como isso seria uma maior “humanização” de Claire, então com o medo estampado no seu rosto, naquela que parece ser uma cena de ataque à sua pessoa, quaisquer dúvidas sobre este desenvolvimento são dissipadas. Nesta cena vemos Claire a ser escoltada, pelos seus guarda-costas, para dentro de um carro e no seu casaco pode-se ver aquilo que pode ser ou tinta ou sangue. Devido à cor relativamente escura da mancha, talvez a segunda opção faça menos sentido, mas no caso de ser mesmo sangue é bastante provável que não seja o de Claire pois em todo o desenrolar da cena (apesar de curta), Claire não dá mostras de sofrimento mas sim de pânico. Entre cenas, vemos aquele que poderá ser o autor desse ataque, porém a sua identificação é bastante difícil.

Outra cena que também gera alguma intriga é a de Frank deitado no chão enquanto uma senhora – possivelmente Claire – se afasta dele. A cara de Frank revela alguma serenidade, contudo ele poderá não estar apenas a dormir. Se a pessoa que está a sair de ao pé dele for mesmo Claire, e tendo em conta algumas imagens seguintes, podemos especular se esta voltou a desafiar Frank e se desta vez chegou a fazer algum tipo de dano físico àquele, deixando-o estendido na sala. Já vimos em temporadas anteriores que Frank enfrentou imensos desafios e adversários, mas somente Claire foi capaz de ombrear com a sua crueldade. Talvez a cena em que Claire está a mexer numa mala, na sala oval, durante a noite, possa dar algum alento a esta teoria, mas neste caso em particular teremos mesmo de esperar por respostas concretas.

Até ao final as cenas tornam-se mais fugazes e muitas delas são vagas demais para tentar tirar quaisquer conclusões, todavia existe uma cena que poderá significar um novo desafio político internacional para Frank. Trata-se do aperto de mão entre Viktor Petrov, presidente da Rússia, e Catherine Durant, Secretária de Estado do presidente Underwood. O que pode partir daqui é muito simples: duas pessoas que têm um inimigo comum põem de parte as suas divergências e criam uma aliança para o derrotar. Contudo pode ser apenas uma simples reunião de política externa, mas para um maior entretenimento dos espectadores e futuro desenvolvimento da série, esperemos que seja mesmo uma aliança anti-Underwood.

A quinta temporada de House of Cards tem já data de lançamento para 30 de Maio, na plataforma da Netflix, onde serão disponibilizados todos os episódios.

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