A importância de “desperdiçar” tempo

Pára de trabalhar e pensa em ti.

importância de desperdiçar tempo
Foto de: Brooke Cagle

Vivemos em dias de correria, em que desperdiçar tempo é um drama diário. Corremos para apanhar o metro, passamos sinais vermelhos para chegarmos mais rápido e fazemos tudo isto quase sem pensar. Queremos fazer render as 24 horas diárias ao máximo e esquecemo-nos constatemente de parar e praticar o dolce far niente (a arte de não fazer nada) de vez em quando. Se por acaso guardamos meia hora para fazermos aquilo que mais nos apetecer, passamos o tempo a pensar nos e-mails que devíamos estar a enviar, na casa que devíamos estar a arrumar, no jantar que devíamos estar a fazer, no ginásio onde devíamos estar. Relacionas-te com isto? Os exemplos são inúmeros.

Este artigo do quartz surge precisamente para tocar na ferida, para descontruir a ideia de que desperdiçar tempo está errado e para nos mostrar que a própria expressão que usamos para nos referir a esta temática não é adequada. Em inglês, existe um lema conhecido e que alguns de nós já começámos a adotar: “Time you enjoy wasting, is not wasting time.” O caminho é precisamente por aqui.

“Há uma ideia de que devemos sempre estar disponíveis, trabalhar o tempo todo”, diz Michael Guttridge, um psicólogo que estuda o comportamento no local de trabalho, citado pela publicação norte-americana. “É difícil romper com isso e ir para o parque.” Mas as desvantagens são óbvias: Acabamos a procurar distração no computador e nas redes sociais, no Facebook e Instagram, o que não contribui nem para a nossa felicidade nem para a nossa produtividade. Dizemos a nós mesmos que estamos a fazer multitasking e gastamos muito mais do que o tempo necessário nas tarefas mais básicas. Além disso, diz Guttridge, estamos a perder os benefícios físicos e mentais do tempo gasto focado em nós mesmos. “As pessoas recebem comida ao computador – é repugnante. Deviam fazer uma caminhada, ir ao café, fugir “, diz ele. “Até as fábricas da era vitoriana tinham pausas para descanso.”

No artigo pode ler-se que os grandes génios como Dickens ou Darwin dedicavam apenas cerca de 5 horas por dia ao trabalho, um cenário completamente diferente do que vivemos hoje. Isto porque não planeamos. E quando não planeamos, o trabalho não tem fim, porque há sempre mais e mais coisas que temos de fazer.

A verdade é que, hoje em dia, concebemos a ideia de que temos de estar sempre ocupados. É por isso que muitas pessoas entram em pânico quando se vêem sem nada para fazer. No fundo, a culpa e a falta de organização são o problema central, diz Guttridge: sentimo-nos culpados por termos momentos de puro lazer e consequentemente não os incluímos na nossa agenda.

Dedicar tempo a nós mesmos é também um trabalho, para que consigamos manter o equilíbrio e levar uma vida leve e feliz. Ao escrever este texto, parei para cantar uma música de que gosto muito. E sabem que mais? Não páro de pensar que não estou concentrada. Até que parei. E apreciei. Faz o mesmo.