82 anos de Mujica: o que diz sobre a actualidade o “Presidente mais pobre do mundo”

Mesmo afastado dos circuitos mediáticos, Mujica continua a lutar pelas causas que personaliza desde a sua juventude.

Mujica Presidente do Uruguai
 

Embora tenha ficado conhecido como o presidente mais pobre do mundo, José Alberto Mujica Cordano não deixará na humildade o seu maior legado. Aos 3,5 milhões de uruguaios, Pepe, como é popularmente conhecido, deixa lutas findadas e cinco anos de um governo que não suprimiu valores em benefício do poder. A popularidade das suas medidas não é consensual, mas é inegável que estas tenham transformado o Uruguai numa sociedade digna dos tempos em que vivemos: legalizou o casamento homossexual, descriminalizou o aborto e tornou legal a produção, distribuição, venda e consumo de marijuana e contribuiu para a redução da pobreza no país.

O ícone, no entanto, nasceu da terra, dos trajes modestos e do ordenado de presidente que Mujica doou na sua quase totalidade (90%) às causas solidárias. O seu exemplo é, por isso, raro – senão único – e espelha um carácter que dificilmente se encontrará em qualquer outro círculo político, em 2017.

Mesmo afastado dos circuitos mediáticos, Mujica continua a lutar pelas causas que personaliza desde a sua juventude. E sobre alguns dos assuntos mais atuais, “o presidente mais pobre do mundo” também tem algo a dizer. Desde a eleição de Donald Trump até ao feminismo, o uruguaio continua atento ao que se passa à sua volta. Afinal, a horta que cultiva a 30 minutos de Montevideu, só o isola no espaço.

Donald Trump

As posições políticas de Trump colocam-no no quadrante oposto ao de Mujica. E não será por isso surpreendente que, quando questionado acerca do que achava sobre a vitória do agora presidente norte-americano, o uruguaio tenha optado por responder com a palavra “Socorro.”

Ainda a propósito desta eleição, Pepe lamentou que o poder político esteja ao serviço da minoria que beneficia com a concentração de recursos económico-financeiros. Disse que existe “uma globalização que estimula a concentração do lucro em muito pouca gente e que estagna as expectativas de vastíssimos sectores da classe média que se vê na incerteza”. É esse fenómeno, na sua opinião, que tem propiciado o aparecimento dos movimentos populistas.

“A imagem de Trump é tão grotesca que faz até com que se sinta uma certa afinidade com a Hillary Clinton, que é uma mulher bastante conservadora”, comentou, em Roma, aquando do III Encontro Mundial de Movimentos Populares. O republicano, no entanto, não o assusta, ao contrário das pessoas que o apoiam. “O mandato dele vai acabar, mas essa gente vai continuar ali”.

Papa Francisco

Embora seja declaradamente ateu, Mujica não se considera indiferente à influência que o Papa Francisco está a ter na sociedade. O ex-presidente é da opinião de que o sumo pontífice está a dar um novo sentido à concepção de cristianismo e declarou publicamente que, com os seus discursos a favor dos pobres, o Papa está a “honrar a sua igreja, mas também toda a humanidade”.

“Há quem diga que são apenas discursos, mas tem importância que estejam a ser proferidos por alguém como o Papa”.

Tecnologia

A humildade é uma das características que o tornam num dos ídolos políticos do século XXI. Protagonista de uma vida regrada e com fortes ligações à terra – que nunca deixou de cultivar – Mujica, o político agricultor, tem, naturalmente, algo a dizer sobre a tecnologia e a forma como esta molda o quotidiano dos cidadãos.

Já no início deste mês, Mujica afirmou que a “digitalização é uma nova forma de domínio que não requer qualquer militarização da sociedade”. “É uma ditadura que entra na tua vida sem que dês conta e que acaba por tomar conta das tuas decisões”, disse na cerimónia de abertura de um congresso regional do PT, em São Paulo.

O problema, contudo, é apontado por ele à ganância que move a utilização destes instrumentos. Se por um lado o uruguaio reconhece o potencial das ferramentas, por outro considera que as intenções dos homens as desvirtuaram de um propósito idílico. “O homem nunca teve os meios que tem hoje. Se pensarmos, tecnicamente, pela acumulação de capital e conhecimento, o homem poderia lidar com as misérias mais fundamentais, reverter muitos desastres. Vivemos numa civilização que inventou as mais incríveis tecnologias, mas hoje é dominada por elas, e não o contrário. E isso porque o motor dessa energia formidável é a ganância. Já passaram mais de 30 anos desde que os homens da ciência nos disseram o que tínhamos que fazer, e por incompetência política não fizemos”, comentou por altura da II Feira Nacional da Reforma Agrária, organizada em São Paulo pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra.

Feminismo

Uma das obras que Mujica deixou ao Uruguai foi a descriminalização do aborto. Implementada em 2014, a medida vai ao encontro daqueles que têm sido os seus contributos para a causa feminista, sempre provenientes de uma análise económica da sociedade. Para o atual senador, esta era uma necessidade essencial de satisfazer. “Tive que lutar no meu país para reconhecer o aborto, não porque eu esteja a favor do aborto, mas porque há mulheres que abortam, gostem ou não, e as condenadas são as mais pobres”.

Questionado acerca da importância do aumento dos movimentos feministas, Mujica defende que o fenómeno é fundamental para combater o machismo e diminuir a desigualdade de género. No entanto, ressalva: “se há algo desamparado no mundo são as mulheres pobres, sobretudo as mães solteiras. Creio que a agenda de reivindicações das mulheres não se pode esquecer disso”, disse durante uma palestra na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo no início de maio. “Esta agenda de direitos tão justos pode esconder a grande agenda que é a diferença de classes”.

O uruguaio afirma ainda que foram as condições das mulheres pobres com intenções de abortar que despoletaram os debates sobre o aborto. “As ricas têm sempre forma de resolver os seus problemas”, defendeu, “as mais condicionadas são as pobres”.

Brasil

A geografia aproximou Mujica do Brasil e a ideologia aproximou-o do PT.

Em análise à atual situação política do país, o senador acredita que se não conseguirem prender Lula da Silva, o ex-líder trabalhista, a oposição perde. E prova disso, defende, é o facto de “existir uma intensa campanha para tirar de Lula a possibilidade de disputar as próximas eleições no Brasil”.

“Já dizia o ministro da propaganda (Joseph Goebbels) de Hilter que uma mentira repetida mil vezes acaba por se transformar em verdade. E isso ainda é uma técnica bastante comum, sobretudo na América Latina”, declarou o ex-presidente uruguaio.

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