O rescaldo musical da primeira metade de 2017

São 15 discos, mas podiam ser 60.

rescaldo musical 2017

Esta lista não visa escolher os melhores dos melhores, mas sim partilhar alguns dos melhores álbuns do primeiro semestre de 2017. A subjectividade é por isso um ponto a ter em conta na interpretação destas recomendações; por entre o que aqui se apresenta há muitos outros discos que poderão ou não representar o mesmo nível de qualidade, mas que não representaram um vício nem uma necessidade de repetição. Este critério é um desvio às regras da crítica musical, mas seria escusado falar de mais de 60 álbuns escutados.

Persefone – Aathma

Dentro do Metal, os gostos tendem a desviar-se para sub-categorias mais melódicas ou mais técnicas. Persefone combina os dois e de que maneira. O grupo de Andorra lançou um dos melhores discos de Metal Progressivo deste ano. Nota-se que Mastodon estão numa fase confortável da carreira, com o estatuto de melhor banda de Metal Progressivo do século XXI, não arriscaram novas praias com o Emperor of Sand, oferecendo aos fãs um trabalho sólido mas expectável. Por outro lado, Persefone com este seu quinto álbum, Aathma, combinam Death Metal com Prog e melodias vocais, tudo isto dentro de um disco com uma sequência de músicas peculiar, mas altamente funcional.

Bedwetter – Volume 1: Flick Your Tongue Against Your Teeth and Describe the Present

O LIL UGLY MANE não nasceu para ser um rapper mainstream. Nasceu e cresceu para o obscuro e abstracto e este volume 1 do seu pseudónimo, Bedwetter, é isso e muito mais. O LP caminha entre sentimentos e sensações desconfortáveis, stress, trauma, ansiedade e insanidade mental. Não é bonito, não é facilmente compreensível, é daquele tipo de música feito para quem se atreve a aceitar uma estética sonora aberrante. Se fosse um jogo seria o Depression Simulator 2017.

Arca – Arca

Alejandro Ghersi tem vindo a cultivar o seu nome no meio da electrónica, estreando-se nos discos de longa duração com Xen. Agora Arca lança o melhor da sua carreira. Numa viagem à volta de texturas e um ambiente surrealista, o produtor Venezuelano de 27 anos mistura Glitch com Art Pop, alcançando um resultado digno de o colocar ao lado de nomes como Nicolas Jaar ou Jon Hopkins.

Sun Kil Moon – Common As Light and Love Are Red Valleys of Blood

O humor poético de Mark Kozelek é de alguém que caminha descalço sobre vidro partido e ainda tem tempo para dar umas gargalhadas. Seja a cantar ou a rappar, Mark arrasta a sua voz de canção em canção, com letras fora da caixa e com uma música pelo meio intitulada “I Love Portugal”. Por momentos pensei que a paixão por Portugal se reduziria a uma música, mas quando descobri que a label que o vocalista fundou se chama Caldo Verde Records percebi que ele deve gostar mesmo é da nossa comida. Aliás, toda a letra da música que nos é dedicada é sobre um povo que sabe aproveitar o dia-a-dia e que tem uma oferta gastronómica fantástica.

Kendrick Lamar – DAMN

Ao entrarmos em 2017, já toda a gente sabia qual era o artista mais ouvido e respeitado do momento. Kendrick Lamar alcançou o nível Godlike com To Pimp a Butterfly e com DAMN. colhe os frutos da fama. Se o analisarmos enquanto um disco de Hip-Hop e comparando-o com o standard, DAMN. é mesmo damn! Mas para os parâmetros de Kendrick Lamar, apesar de sólido, não representa nada de irreverente. A poesia do disco é negra e introspectiva, os beats ficam-se pelo Trap que, ainda que bem produzido, não passa de uma tendência.

Paul White – Everything You’ve Forgotten [mixtape]

Sem consultar o Google, vão directamente ao Bandcamp e oiçam esta mixtape, disponível em streaming ou para download gratuito. Depois de ouvirem, tentem adivinhar que rapper é que Paul produziu o ano passado. Pista: é bizarro e lançou um dos melhores discos de 2016.

King Gizzard and the Lizard Wizard – Flying Microtonal Banana

Cada vez mais a atirar para o psicadélico, esta quase Big Band de Rock, que há muito que defendo que são merecedores de mais atenção que Tame Impala, lançou este ano dois álbuns, mas até agora só escutei com atenção Flying Microtonal Banana. King Gizzard and the Lizard Wizard também vêm da Austrália, sem se render ao revivalismo. Pegam no conceito do psicadelismo e vestem-no com distorção e uma sensação de drogas pesadas. Para já, enquanto a escuta de Murder of the Universe não se der fica anotado que Flying Microtonal Banana é o melhor trabalho do septeto até à data.

Kneebody – Anti-Hero

Se és um fã de Jazz de Fusão e estás a ler isto, então Kneebody é imperativo. O grupo liderado por Ben Wendell lança agora Anti-Hero, numa versão frenética e mais pesada que os seus discos parentes. Fiquem de olho também no baterista da banda, Nate Wood, que colocou este ano vídeos de novas músicas, onde aparece a tocar bateria, baixo e teclados como quem tem 6 braços e tempo para beber um café.

Jonwayne – Rap Album Two

Este não é um rapper convencional. A primeira coisa em que pensei quando me deparei com a figura de Jonwayne foi “Qual será o seu nível do World of Warcraft?”. Assim que mergulhei em Rap Album Two, a pergunta persistiu mas logo surgiram outras. É um artista contra-natura, os beats têm um cheirinho a caseiro, declama histórias peculiares em que o seu meio é um flow arrastado, como quem rappa enquanto está sentado na cadeira a jogar computador. Apesar deste mini Bullying, é o disco de Hip-Hop que mais ouvi este ano.

Nova Collective – The Further Side

Com membros de Between Buried and Me e Haken, este supergrupo de Metal Progressivo é uma espécie de Snarky Puppy do Metal. Tudo delineado ao pormenor e tocado com a máxima eficácia. Nova Collective é uma novidade de 2017, daquelas que aceleram abruptamente o batimento cardíaco e não te deixam sentar.

Xiu Xiu – FORGET

Podia perder tempo a tentar descrever Xiu Xiu, aliás podia fazer uma tese. A forma como mudam de álbum para álbum faz deles um dos grupos mais eclécticos do experimentalismo americano. A máscara que escolheram para FORGET vai de encontro à Art Pop. Em certos momentos traz à memória o Reflektor dos Arcade Fire. Não é de todo o melhor disco de Xiu Xiu, mas é possivelmente o mais acessível.

Tinariwen – Elwan

Os Tinariwen são uma banda que por si só merecia um artigo. Tuaregues do Mali, influenciados pelo Blues Rock Americano, são hoje um dos mais conhecidos grupos da World Music. Em Elwan elevam a fasquia, colaborando com Kurt Vile, Mark Lannegan, entre outros instrumentistas para criar um dos mais belos álbuns de Tishoumaren.

Group Doueh & Cheveu – Dakhla Sahara Session

Não queria ser persistente com isto da música do Sahara, mas o Group Doueh é outro intrigante. É na verdade uma família. A primeira vez que os vi foi num vídeo da Vice da rubrica Guitar Moves. Em Dakhla Sahara Session juntam-se ao trio Francês, Cheveu, numa espécie de Jam Mediterrânica.

Omar Rodriguez Lopez – Roman Lips

Será o músico de Mars Volta e At The Drive-In extremamente criativo ou estará só a tentar bater algum recorde? É que lançar 12 discos num ano pode ser considerado demais, diria que 10 é o limite mas se Omar discorda… O primeiro do ano foi Roman Lips e é muito melhor que o novo de At The Drive-In. Gostava sinceramente que a preocupação dedicada ao grupo Post-Hardcore tivesse sido tanta quanto a ideia de fazer 12 discos a solo.

Harry Styles – Harry Styles

Vá, um disco Pop aqui para o meio só para equilibrar o status quo desta lista. E sim, de um dos membros dos One Direction. Não, não é um erro, nem estou a escrever este texto às 4 da manhã. É a prova viva de que a Pop está a ganhar alguma classe, ou então está menos Pop daquilo a que estavamos acostumados. Confesso que os primeiros 15 anos do século XXI me pareceram tão maus ou piores que a década de 80. Não digo que o disco seja inovador, a própria Pop também não pede inovação, porém, através de inúmeras influências do Rock dos anos 60, Harry construiu um disco muito agradável e catchy.

Outras recomendações

Se preferes viajar sozinho, aqui ficam as coordenadas para o que podes encontrar no Spotify: