Como são bonitos os Sambas do Absurdo

Conhece o projecto de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis inspirado em Albert Camus.

Sambas do Absurdo projecto
Foto de: Luan Cardoso
 
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Sabes aqueles livros que enquanto lês, imaginas a história à tua frente, conseguindo ouvir os sons ambiente e até uma hipotética banda sonora?… Que música ouves quando lês Samuel Beckett, Albert Camus ou Franz Kafka? Sendo autores da escola do absurdo, do existencialismo e surrealismo, talvez te levem a imaginação para algo meio psicadélico, ou por outra, para algo mais calmo, para prestar total atenção às suas teorias nem sempre fáceis de compreender.

Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis ouvem samba e decidiram imortalizá-lo nos Sambas do Absurdo. Os músicos brasileiros, que são dos nomes mais influentes da emergente música popular brasileira contemporânea, idealizaram o projecto como uma tentativa de expressar as dúvidas e intrigas que cercam o ser humano.

Exploram as indagações com a melodia de Rodrigo, a voz incrível de Juçara e os elementos eletrónicos de Gui para deixar o samba ainda mais absurdo. Nuno Ramos escreveu as letras.

 

Foi a obra “Mito de Sísifo”, do escritor francês Albert Camus (da qual te falámos aqui), que impulsionou Rodrigo Campos a avançar com o projecto: “Acho que encontrei o ‘Absurdo’. Estava me sentindo desconectado, apático em relação às coisas, quando li o livro e percebi que não era uma coisa só minha, mas que todos, em diferentes níveis, deveriam se sentir da mesma forma,” contou à Folha de São Paulo.

“O livro me botou de novo no jogo. Quis fazer as músicas para homenagear esse acolhimento que ele me ofereceu”, diz.

O projecto tem um disco com oito canções, que saiu no Brasil no final de Abril. As músicas versam sobre a temática existencialista do absurdo como o divórcio do indivíduo com a própria vida – e já podem ser ouvidas nas plataformas de streaming.
Todas as faixas se chamam “Absurdo” e distinguem-se pelo número que têm à frente. Duas delas estão disponíveis em vídeo no YouTube e mostram as performances dos artistas, que evidenciam o tom inusitado da tropicália em letras com temas tão pesados. O cavaquinho de Rodrigo Campos e a voz precisa de Juçara tornam-nos leves, aos temas e a nós, que acabamos a viajar, acompanhados também pelos arranjos tortos de Gui.

O projecto representa uma espécie de encontro com o absurdo, expressado na desconstrução do samba enquanto canção. E porquê sambas – ainda que “não tradicionais” – para falar de existencialismo? Porque “como género, o samba também é esteticamente existencial, explica Rodrigo.

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