Samuel Úria: “Quando nós temos respeito pela língua, a língua também nos respeita”

Em preparação para o concerto de dia 27 de Maio no Tivoli, estivemos a falar com Samuel Úria, na Avenida da Liberdade.

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Cantautor de uma geração que não investiu muito nesta área, Samuel Úria destaca-se por ser um comunicador exímio e por ter lançado um dos melhores discos portugueses de 2016. Carga de Ombro caminha entre o traço clássico do blues e da folk e a modernização desses mesmos géneros.

O equilíbrio entre o instrumental e a letra faz das suas canções um verdadeiro tributo ao nosso património. Samuel caminha sobre esta ténue linha de pensamento e chega ao fim da mesma sem cair. Apoiado por um leque de artistas variado, promete surpreender o público do Tivoli e surpreender-se a si mesmo, caso se proporcione. O que não é surpresa é a participação das Golden Slumbers, Ana Moura, Manuela Azevedo e Miguel Ferreira, sendo que este último recebe destaque por ser um co-piloto de Samuel Úria nesta Carga de Ombro.

 

3 anos depois d’O Grande Medo do Pequeno Mundo, um disco rico em colaborações de topo e reconhecimento a nível nacional, voltas com Carga de Ombro. O que é que te manteve ocupado durante estes 3 anos?

O Grande Medo do Pequeno Mundo manteve-me ocupado ainda durante bastante tempo e acho que houve canções que quase só no fim de uma espécie de tournées de estar a tocar o disco é que elas ganharam algum tipo de reconhecimento. Não era um reconhecimento que estava planeados para elas [canções], foi um reconhecimento que eu próprio descobri dentro dessas canções, houve canções que singraram já há bastante tempo e que depois se tornaram uma espécie de canções fetiche até dos meus próprios concertos, que eu não estava à espera e que demorou o caminho quase todo do disco a ser tocado para eu me aperceber disso, então fiquei refém de uma espécie de validade que tende em persistir e não acabar em relação ao último disco.

Foi mais ou menos isso que me manteve ocupado, mas também não escrevi nada entre esses dois discos, então também houve período de acumular coisas que pudessem sair quando fosse a altura de escrever o próximo disco.

O que é que mudou desse último disco para Carga de Ombro? Sinto que passaste do formato dueto para o formato banda, sem perderes essa noção de singularidade. O tipo de letra puxa muito para o registo que fazias, tem a banda, tem outros detalhes, tem outras texturas.

O Grande Medo do Pequeno Mundo acabou por ser um disco muito vincado dos seus duetos, mas não tinha sido preparado dessa maneira. Tirando a música com a Márcia e a música com o Manuel [Cruz] que já era uma música mais antiga que tinha feito mesmo para tocar com o Manuel, os duetos acabaram por acontecer porque havia malta que eu ia conhecendo enquanto estava a gravar o disco, com o qual eu estava próximo, eu convidava e as pessoas juntavam-se.

Este disco foi planeado para de alguma maneira contrariar essa aura que o outro disco ganhou, não eliminando as colaborações, mas pegando em pessoas que estão a colaborar com o disco, dando-lhes um papel um bocado secundário, não para menosprezar quem está a participar, mas até para se perceber que esses recursos musicais que dependem muito das amizades que eu tenho dentro da música conseguem servir mesmo quando estão só a dar só um bocadinho. Por exemplo, tenho a Francisca Cortesão que parece que está a cantar noutro prédio, que mal se ouve e eu acho que ela é fundamental na canção, a maneira como ela participa, como reforça o que está a ser dito na canção, como ela preconiza a distância sobre a qual a canção fala torna essencial a sua participação, embora a colaboração dela não pareça um dueto.

Tenho o David Fonseca a tocar bateria numa das músicas. É o David Fonseca, podia tê-lo aproveitado para “David Fonseca”, para ele emprestar o vozeirão. Trouxe-o para uma coisa que as pessoas não sabem, ele toca bateria com muita força. Isso muda a identidade dos discos, porque também mudou o meu planeamento para ter essas pessoas a fazer essas coisas quase clandestinas e, por outro lado, é também um disco muito diferente porque foi a primeira vez que eu trabalhei desde o início, desde a escrita de canções, logo os primeiros rascunhos passavam logo pelo produtor.

Nos meus discos anteriores eu ia para estúdio já com uma ideia das canções e o produtor só as conhecia aí e então ele tentava enquadrar o seu trabalho com uma coisa que já estava a ser produzida em estúdio, ele dizia “ se calhar tira essa guitarra, canta mais alto aí, acrescenta essa voz”. Mas as canções estavam mais ou menos determinadas. Neste disco eu ia coordenando as coisas logo com o Miguel Ferreira, que o produziu, mostrava-lhe logo.

As primeiras maquetes eram feitas logo com ele, eu grava coisas, mandava-lhe e ele do Porto acrescentava e mostrava, então houve um trabalho de parceria, da direção musical, da direção artística do disco que partiu logo na altura em que as canções estavam a ser escritas, então isso mudou de uma forma muito singular a própria face com que o disco acaba por apresentar.

O single “Dou-me Corda”, que estendeu a passadeira para o Carga de Ombro, é um tema que automaticamente me lembrou os temas blues cantados acappella, worksongs. Logo desde o início tive essa sensação. “Dou-me corda” é também uma worksong para ti ou tem outro significado?

É curioso porque a influência é exactamente essa. Há um lado muito Blues e eu não gostava de o perder, que não tem a ver com o Blues tradicional da guitarra e da afinação em Drop D, é mesmo a questão de às vezes com três acordes e com coisas que te soem a um standard que sempre existiu, de poderes fazer uma canção e eu gosto de não perder isso. O “Dou-me Corda” é uma canção com três acordes. Nos meus registos eu tenho quase sempre de ter uma canção down to earth nesse aspecto, ter três acordes e funcionar e de ser assumidamente muito repetitiva, às vezes ser chata.

“Dou-me Corda” é uma música longuíssima que se repete muito. Nesse aspecto é também uma worksong, tem esse lado de picareta, de ser massacrante, de ser uma canção de transpiração, de sol a pino em cima de cabeças que querem contar coisas mas que não podem porque estão enclausuradas em coisas que não controlam. Mas sim, essa ambiência que eu criei no lado conceptual, depois também quis que transparecesse no lado sonoro e estético. É fixe fazeres-me essa pergunta porque percebo que funcionou…

Tem essa intenção, a transmissão da mensagem. O que me intrigou foi o meio que usaste para criar a música. Uma vez descobri um músico, o R.L. Burnside, que também quebrou um bocado essa noção do Blues, com a introdução de ritmos, não é R&B, mas é um Blues com uma certa felicidade, vindo de uma pessoa que viveu uma vida miserável, típico de um músico de Blues. [risos]

A língua portuguesa, falada com romantismos e cortesias caiu em desuso. Essa forma de falar ficou marcada como um dos mais importantes detalhes da nossa cultura, fosse pela poesia de Pessoa ou de Bocage, ou pelas cantautorias do Sérgio Godinho ou do José Mário branco. Não sentes que, por falares e escreveres desta forma, acabas por tornar a tua música mais distinta, face ao que é expectável de um músico?

É possível, embora o meu uso da língua portuguesa nunca tenha sido uma afirmação de diferença. A maneira como uso o português, mais do que uma diferença, é o respeito pelo património, por uma língua que eu acho que é superior. Eu sou muito bairrista em relação à língua portuguesa, não à exclusividade do seu uso, não sou panfletário em dizer que não se pode cantar em inglês. É mesmo a questão de eu achar que português é bom demais para não ser usado.

Quando nós temos respeito pela língua, de alguma maneira quase transcendental parece que a língua também nos respeita. Dá-nos as soluções certas para aquilo que queremos dizer. A maneira de parecermos mais estruturados, mais respeitosos desse legado grande, é deitarmos fora os estribos e algumas muletas que têm pejado a maneira de escrever em português as canções na Pop. Há muitas muletas, que são fórmulas e que eu respeito e acho que quem está a usá-las, não está a usá-las mal e está também a usar a matemática que o português proporciona, mas o simples abandono dessas fórmulas, quase sem querer põe-nos num patamar de pessoas que escreveram sem esses trejeitos, sem essas balizas…

Sem o conhecimento da língua que ao fim ao cabo era uma forma de falar que se calhar era mais usada também pelo povo, depois pelos autores e cada vez mais usada por ninguém. Mas querendo ou não, acaba por ser um aspecto distinto da tua forma de comunicar. É uma boa arma de certa forma.

Tenho ficado muito surpreendido quando me apercebo que muitos músicos, seja de Jazz, ou até malta que está mais habituada a fazer instrumentais e criar melodias, não tanto letras, me dizem que nunca reparam nas letras. Isso deixa-me surpreendido porque para mim é impossível conceber uma canção na sua plenitude sem que a letra ocupe o mesmo espaço na minha concepção. Tem de ter o mesmo peso. Eu gosto que a letra e a melodia se conjuguem, que sejam equilibradas e que joguem entre si. Para elas jogarem entre si eu não posso tratar nenhuma como o parente pobre. Então, eu sempre tive muita atenção em relação às letras. Fosse em que língua fosse, eu sempre tentei perceber o que é que os autores. Mesmo até quando são letras aparentemente fracas elas podem ser reflexo e produto de qualquer coisa que não é assim tão fraco. Às vezes basta ter atenção para percebermos para lá do que uma audição mais superficial nos poderia trazer. Aí, para além de uma coisa lúdica, a música torna-se um passatempo de vida superlativo.

Achas que por causa disto a cantautoria perdeu força em Portugal?

Não perde força, não pode perder força enquanto houver cantautores. Os grandes de há 40 anos, eu diria que ainda estão vivos. O Palma está vivo, o Godinho está vivo, o José Mário está vivo, o Fausto está vivo…

Mas inactivos de certa forma.

Por exemplo, o Godinho sempre se soube reinventar em termos musicais, sempre chamou malta nova tocar com ele, para produzir os seus discos e ele continua a escrever com a mesma lucidez que escrevia há 40 anos. Possivelmente não vai ter nenhuma canção como “A Noite Passada”, “O Primeiro Dia” ou “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, mas se calhar também não vai haver uma canção como essas em Portugal. Teve o seu tempo específico para acontecer e eu acho que o cantautorismo não estará morto enquanto essas pessoas estiverem vivas, até porque elas continuam a cantar essas músicas e ao vivo elas podem continuar a sobreviver e a ressuscitar e a conquistar novos públicos

Sim, mas não continua a haver uma renovação na geração. Não há autores suficientes para continuar esse legado.

Eu tenho a suspeita que quando isto estiver muito mal vai haver malta que vai querer salvar isto. Vai haver uma espécie de plano de salvação nacional para que o português volte a ser ressuscitado. O reflexo de as coisas não estarem muito bem agora é porque não estiveram suficientemente mal e isso é bom sinal também. Eu acredito que vai haver sempre cultores da língua portuguesa que vão querer que ela não morra nas suas fórmulas tradicionais.

Tens assim algum exemplo de músicos mais jovens que sintas que estão a pegar na coisa e a levar isto para a frente?

Há coisas muito interessantes a serem feitas. Por exemplo, o Luís Severo lançou um disco, que tem uma maturidade muito grande para um miúdo da idade dele. Quando ele era Cão da Morte ele tinha maturidade a mais e acho que ele agora conseguiu encontrar o balanço certo, que é fazer canções Pop melodiosa e ao mesmo tempo super autoral, bem estruturada, bem concebida. Ele colabora com os Capitão Fausto, que são miúdos que vivem a música, falam de música constantemente. estão sempre juntos a pensar nas canções que vão fazer. O Éme também, o Filipe Sambado, Primeira Dama. Estou a falar de exemplos mais marginais.

Eu gostava de ter tido o que eles têm, o cenário que têm à volta deles, o talento, a dedicação, eu não tinha nada disso, não acreditava como eles acreditam e fico muito feliz que estejam a conquistar públicos. É malta a fazer música muito boa, devidamente personalizada, mas que surge dentro de um grupo, eles empurram-se mutuamente.

Vi-te no Super Bock, na Purple Experience, com o Moullinex. Tens planos de estar mais associado à Discotexas e à cena Pop/Eletrónica?

Planos não há, mas há vontade. É verdade que sou mais velho, mas eu e o Moullinex somos de terras muito próximas e eu conhecia muito bem o pai dele, era um cantautor respeitadíssimo na zona, mas o Luís conheci-o aqui em Lisboa muito recentemente e até ficamos mais amigos por causa da colaboração que tivemos nesta cena do Prince. Como ficamos amigos e gostamos da música um do outro, eu já lhe passei um tema para ele remisturar, acho que no futuro vai ter mesmo de acontecer alguma coisa. Não só gosto dele como acho que ele trabalha de uma maneira impressionante.

Para o concerto levas na algibeira um leque de cantoras, isto claro sem querer discriminar o Miguel Ferreira. Cada escolha tem uma justificação, queres falar um pouco sobre isso?

Tem uma justificação, para já de admiração profunda do talento das pessoas que eu convidei, algumas que já conheço há muito tempo e outras como as Golden Slumbers. O disco delas é muito bom e eu pude trabalhar com elas num formato mais aparte, que foi o Festival da Canção. Essa canção nós queríamos resgatá-la para torná-la um bocadinho mais nossa, para ficar mais parecida com coisas que nos são naturais e acho que é isso que vai acontecer. Mas por outro lado, a Ana Moura, o que dizer da Ana Moura? Uma voz do outro mundo…

Provavelmente a maior, não é a confirmação que eu gosto mais, mas por razões pessoais. Para mim é a Manuela Azevedo. Representa o mesmo que a Beth Gibbons, porque cresci tanto com Clã como com Portishead.

Acho que é uma comparação perfeitamente justa. A Manuela é o maior talento em palco que nós temos em Portugal. Acho mesmo, sem querer estar a beijar rabinhos, a Manuela até comove, a energia que ela tem. Eu sei que falar da energia da Manuela é um clichê, mas é um lugar comum que tem toda a justificação em tornar-se um lugar comum, porque é insuperável. A destreza dela, não só a cantar, como até a dançar, ela fez uma coisa de teatro bailado no São Luiz recentemente. o domínio que ela tem dos instrumentos de percussão, depois canta ao mesmo tempo, depois passa para o piano. Felizmente é reconhecido, mas acho que não é suficientemente reconhecido.

Eu já tinha sido convidado dos Clã várias vezes e isto pareceu-me muito injusto. Eles são os músicos mais profissionais que nós temos, eu não me considero propriamente um intérprete, eu sou um gajo que escreve canções e que as interpreta e a colocarem um tipo como eu a interpretar canções com eles em palco e já tinha acontecido duas ou três vezes. Já tinha conseguido resgatar o Miguel para as minhas fileiras e agora tinha de ser a Manuela. Vai haver mais convidados, mas eu não os posso revelar.

Então há mais surpresas?

Há mas serão mesmo surpresas.

Algo do género, um Manuel Cruz a surgir debaixo do palco?

Isso tinha piada. Já fiz isso com o Manuel Cruz no Porto. Ele estava na assistência Casa da Música e perguntei “Manuel estás aí?” Gosto desse registo, saber que há malta no público e isso provavelmente vai acontecer. Se se confirmar e as pessoas me disserem que vão eu vou chamá-las a palco.

[fotos de Teresa Lopes da Silva/Shifter, que também contribuiu para esta entrevista]

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