Trump foi mais um Presidente norte-americano na sua primeira visita de Estado

A guerra é cada vez mais um negócio. E os políticos são cada vez mais negociantes.

Sobre Trump já tudo se disse e desdisse: o assunto que começou por ser levado na brincadeira foi ganhando seriedade com o consolidar das sondagens e atingiu o climax dramático com a sua eleição e parece agora caminhar para um novo registo com uma inquietante normalidade. Com as últimas semanas marcadas por uma série de visitas e encontros oficiais com chefes de estado de alguns países e até uma cimeira do G7, Trump voltou a estar nas bocas do mundo e a mudança de tom é mais que notória. Embora a crítica e o escrutínio estejam, e bem, subjacentes à maioria das análises feitas ao POTUS, a leviandade com que se fala e se escolhem certos assuntos deixa um pouco a desejar.

A verdade é que se os media mainstream se apressavam a escavar em todas as tiradas de Trump durante a campanha ou as suas populistas medidas de restrição de entrada nas fronteiras norte-americanas, a mesma profundidade não tem sido dedicada ao POTUS além-fronteiras e não foi preciso muito para o perceber. A primeira visita oficial de Trump à Arábia Saudita foi, sem margem para grandes dúvidas, um dos momentos em que mais se pareceu com um qualquer Presidente dos Estados Unidos.

Se não, vejamos:

Se o primeiro destino, por si só, poderia dar espaço a controvérsia, a acção de Trump e a resposta dos media quase podia virar uma anedota. A veleidade com que o magnata infiltrado continua a aplicar a sua estratégia cegamente restrita ao ROI levou-o a engolir em seco – mais uma vez – os seus tweets do passado e a “dar uma de Barack Obama”, curvando-se perante o presidente da Arábia Saudita. E não foi só para a saudação. Na onda de personificação daquilo a que nos habituámos a ver como um presidente norte-americano, Trump não perdeu a primeira oportunidade de entrar para a história e assinou um acordo inédito de venda de armas no valor imediato de 110 mil milhões de dólares, que pode ascender aos 320 (M.M) na próxima década, numa lista de compras que contempla aviões, navios e mísseis tele-guiados.

Nesta história o único desvio de protocolo assinalável será a intervenção de Jared Kushner no negócio. O genro (como é que se diz “tacho” em inglês?) de Trump terá desempenhado um papel decisivo ao conseguir um desconto para mais um sistema radar de abate a mísseis, *true story*.

Quanto à venda de armas e às cifras do negócio, não nos deixemos surpreender perante esta não-novidade – vejamos outra vez como as coisas têm corrido:

Em relação ao personagem anterior, o texto varia quando o assunto é o Irão. A administração de Obama conseguiu, recorde-se, um acordo histórico, uma espécie de pacto não-agressão entre as auto-apelidadas “nações mais poderosas do mundo”; já Trump parece decidido em voltar ao discurso agressivo, contra um país cada vez mais moderado. Terá sido circunstancial para agradar ao seu anfitrião? O que é certo é que esta posição valeu a Trump uma boa estadia e um eco acrítico.

O preconceito de Trump em relação a certos e determinados países muçulmanos já tinha sido materializado na lista de países sujeitos ao famoso “Travel Ban”, que dizia tudo por si: Síria, Irão, Yemen, Bahrain, Sudão e Somália. E se isso era tão escandaloso agora tudo parece voltar ao normal. Estranho, não?

Trump e, se é permitida a inferência, qualquer presidente dos Estados Unidos parece ter atingido um estatuto de poder em que se perdoa a incoerência e a hipocrisia – ou simplesmente não se percebe. Enquanto se discutem as vestes de Melania e os sorrisos do Papa, a reflexão sobre as consequências das suas acções políticas é deixada para segundo ou terceiro plano, restrita a pontuais artigos de opinião, espaços de debate ou marginalizada sob a égide da conspiração.

As conclusões podem não ser fáceis, a complexidade de relações na política internacional esconde contradições que, se por um lado legitimam as dúvidas, por outro exigem questões – que não têm sido feitas nem respondidas. Se o grau de dúvida pode demover referências a cenários e atitudes concretas, o alarmante de algumas pistas requer uma resposta socialmente mais activa e atenta à medida que questões como o terrorismo ganham espaço central em todos os discursos. É, aliás, a posição dos Estados Unidos neste assunto que revela um dos maiores paradoxos da contemporaniedade. Enquanto os discursos prometem luta aos terroristas e sublinham o Daesh com uma das principais ameaças, a acção dos EUA, subservientes à imensa influência económica dos chamados petro-dólares, não parece consequente nesse sentido. Recorde-se, por exemplo, que o Irão é um dos apoiantes do regime sírio no combate ao Daesh no terreno, enquanto por sua vez a Arábia Saudita é um dos países suspeitos de financiar e fornecer armas ao Daesh.

No meio de tantas dúvidas só sobra a triste certeza de que a guerra é cada vez mais um negócio. E os políticos cada vez mais negociantes.