Ai Weiwei, Herzog e De Meuron apresentam a “Hansel & Gretel do século XXI”

Uma instalação sobre drones e vigilância massiva com pés em Nova Iorque e que podes seguir online.

Ai Weiwei Hansel and Gretel
 
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Ai Weiwei, que tem tido um contributo bastante relevante para a interpretação artística do mundo em que vivemos, volta a surpreender com uma mensagem forte e incisiva – uma instalação sobre drones e vigilância massiva, intitulada Hansel & Gretel.

A vertente experimental de Weiwei – que, por vezes, se traduz em abordagens minimalistas como o retrato em que simulava a pose de um refugiado – leva-o agora numa incursão por um universo mais complexo, mantendo como ponto inalienável do seu trabalho a carga política (humanitária, leia-se) e o convite à reflexão.

Nesta nova peça, concebida em parceria com a dupla premiada de arquitectos Herzog e De Meuron (com quem já tinha trabalhado na concepção do incrível Estádio Olímpico de Pequim), Weiwei reforça o seu afastamento em relação ao regime chinês, com o qual se confrontou artisticamente durante mais de dez anos, em favor de temáticas mais globais.

Hansel & Gretel é, como o próprio nome indica, uma instalação inspirada na conhecida história dos irmãos Grimm. Se na lenda original Hansel e Gretel marcam o rasto com migalhas de pão até se perderem às mãos de uma bruxa que os seduz com doces, nesta recriação a exploração recai precisamente sobre a evolução de tecnologia que marca o nosso rasto e na forma como isso pode acabar por sufocar o espaço público.

Para o efeito, um amplo espaço em Nova Iorque foi transformado numa vasta área completamente escura, em que os visitantes estão constantemente a ser filmados por drones e outros aparelhos de vigilância. A experiência pensada para ser o mais completa possível começa na compra do bilhete, momento em que, sem se aperceberem, os visitantes consentem a recolha de imagens – como, de resto, acontece em muitos outros eventos (já experimentaste ler as letrinhas pequeninas dos bilhetes de festivais, por exemplo?)

Para ajudar na passagem da mensagem e na divulgação da própria instalação foi criado o endereço hanselgretelarmory.com. Além de informação básica sobre a instalação e alguns dados curiosos sobre o universo da vigilância e dos drones, o site permite aos internautas acompanharem “vigiarem” os visitantes que passam pela instalação de Weiwei, perto do Park Avenue.

Esta não é a primeira vez que a vigilância em massa e a utilização de drones surgem como temas centrais na arte ou associados a grandes questões do progresso da sociedade contemporânea. É fácil lembrarmo-nos, por exemplo, de “Drone Bomb Me”, música de Anohni, apresentada no ano passado. Como Ai Weiwei, Herzog e De Meuron reiteraram, em entrevistas sobre a instalação, temas como este ganham uma relevância cada vez mais premente à medida que a tecnologia evolui com propósitos como matar pessoas à distância. Desde pelo menos 2004 que os drones são utilizados em contexto de guerra e só no ano passado suspeita-se que tenham morto mais de duzentos civis.

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