‘Alien: Covenant’: uma crise de identidade cinematográfica

Atenção, contém spoilers!

Alien Covenant Filme

Alien: Covenant estreou a 18 de Maio em Portugal, mas um pouco por todo o mundo conseguiu atrair poucos cinéfilos. Acabou por ser definir como um fracasso de bilheteira no primeiro fim de semana, contudo é um insucesso algo intrigante, muito devido ao facto de ser a sequela de Prometheus (que foi mal recebido pela crítica) e como tal, as expectativas eram ainda mais altas. Parece que nem a inclusão da palavra “Alien” no título serviu para que os fãs acreditassem que este seria o renascer da saga que Prometheus não conseguiu desenterrar. As críticas acabaram por ser mistas e nós decidimos avançar também com uma.

A premissa de Alien: Covenant enquadra-se modestamente bem na saga Aliens. A USCSS Covenant, uma nave espacial que transporta mais de 2000 colonizadores em hipersono, segue viagem para Origae-6, um planeta que reúne as condições necessárias à manutenção e continuação da espécie humana. Inesperadamente, a explosão de uma estrela provoca severos danos na nave forçando a que a tripulação seja acordada para resolver a situação. Esta é a cena que marca o início da acção, e logo aqui o filme dá-nos elementos chave para o que nos espera. Pode-se até já falar do papel de James Franco, que mais parece um cameo do que propriamente uma personagem secundária. O capitão Branson (Franco) morre incinerado dentro da sua cápsula de hipersono, levando a que a sua mulher, Daniels (Katherine Waterston) colapse emocionalmente e que o próximo na linha de comando, o religioso Chris Oram (Billy Crudup), assuma o controlo da nave.

É aqui e apenas aqui que se começam a “ver” nuances de um filme Aliens. Pode-se mesmo arriscar a dizer que esta sequência inicial mais parece um copy-paste do título original, pois após estas dificuldades, a tripulação interceta um sinal estranho, que decidem rastrear depois, acabando presos num planeta desconhecido, no qual o espectador já sabe de antemão que será onde estão os perigos que o grupo irá enfrentar – incluindo a estrela do filme, o Xenomorfo!

Ainda assim, o enredo perde-se em si mesmo, ou pelo menos dá a entender isso, e os argumentistas têm de ser responsabilizados por esta falha. O filme dá evidências de querer ser um terror de ficção científica inteligente, todavia a decisão que leva aos acontecimentos precedentes é apenas e só descabida – senão ridícula – e assim prossegue o filme. Resumindo, tudo o que de mau acontece advém das más decisões tomadas “conscientemente” pelo grupo, ou seja, numa abordagem mais leviana, estamos perante um monster movie que se foca no tema errado. Isto pode parecer confuso, mas acompanhem.

Para quem é acérrimo fã da saga Covenant causa muita mágoa, pois foge do terror misterioso que os primeiros 3 filmes da saga nos habituou e aproxima-se da temática introduzida em Prometheus, que é o complexo de Deus. Neste primeiro filme da nova trilogia de Ridley Scott, Peter Weyland (Guy Pearce) procura o segredo da criação dos humanos, numa tentativa de enganar a sua inerente mortalidade. Em Covenant somos presenteados com o primeiro contacto entre aquele e David (Michael Fassbender), o andróide por si criado (e que ia abordo da nave Prometheus), onde ambos discutem o ser humano e os limites da sua criação. Se a cena do acidente é a chave para aproximar Covenant da trilogia inicial, então esta poderosa cena serve para vincar que estamos numa era pós-Aliens. Passando a explicar, a trilogia da Ripley demarcou-se pelo terror e pelo mistério. Esta trilogia anda à procura de se definir como uma abordagem mais incisiva e descritiva desse mesmo mistério, pretendendo criar uma explicação algo rebuscada para tudo o que acontece no universo de Aliens. Isto acaba por não ser plenamente funcional, pois em Covenant temos a tentativa de ligação que devia ter sido Prometheus, tornando-se assim um filme algo ambíguo tanto na sua história como na sua definição.

Simplificando, o centro da trilogia original foi sempre a dualidade Ripley/Xenomorfo, porém nesta nova trilogia o centro são os humanos e a sua criação, e quase tudo o que ficou em aberto até ao filme Prometheus, viu-se explicado em Covenant. Todavia o facto de Alien: Covenant não saber o que quer ser, faz com que fique preso entre dois géneros que não se complementam, num limbo do qual não se afasta em momento algum no seu desenrolar. É uma clara falha no argumento, mas uma falha ainda maior por parte do icónico realizador Ridley Scott por deixar que tal indefinição se faça sentir tão fortemente no produto final.

Existe, no entanto, uma mensagem que passa quase de forma subliminar e que (colocando de lado tudo o que existe antes de Prometheus) torna Alien: Covenant algo interessante de um ponto de vista filosófico. Trata-se da visão dos humanos enquanto vírus que só servem para consumir e proliferar. As ilações que se tiram são que os humanos são um processo de colonização falhado por parte dos Engenheiros, pois aqueles consomem os recursos que dispõem a um ritmo insustentável e, como forma de controlar esta “praga”, os Engenheiros criaram um mecanismo de prevenção em forma de um novo vírus, cuja última forma é o Xenomorfo. Não é de todo um conceito original, mas consegue misturar de forma positiva elementos de outros filmes. Tem, por exemplo, o conflito visto em O dia em que a Terra parou, onde a humanidade é condenada à extinção por uma entidade extraterrestre (os Engenheiros) que a considera uma praga que está a destruir o planeta. Encontramos também elementos de Extreminador Implacável ou até mesmo Eu Robot, no qual o ser humano é considerado o seu próprio maior inimigo e consequentemente, deve ser controlado por uma entidade cibernética superior (David). No fim, todos estes elementos acabam por se concentrar numa personagem apenas, mas isso não deixa de ser de todo positivo pois o enredo assim o permite e justifica.

No que concerne a interpretação e caracterização, Michael Fassbender carrega este filme às costas. As personagens de Katherine Waterston e Danny McBride também acrescentam valor à película, mas é Fassbender que lhe dá conteúdo e até mesmo profundidade.

Fassbender interpreta duas personagens, semelhantes na sua natureza mas competamente diferentes em termos de personalidade, e faz o que muito poucos conseguem quando interpretam múltiplas personagens no mesmo filme. Normalmente sente-se traços da uma personalidade duplicados na outra personagem. Neste caso a única semelhança é o facto de ambos serem androides. Tudo o resto é explanado de forma exímia, com Fassbender a conseguir definir, por intermédio da sua interpretação: Walter como o andróide cuja função é apenas servir e David como o androide que evoluiu ao ponto de se tornar criador. Mais não se adianta pois tanto o enredo como o ponto alto do filme merecem algum mistério para quem ainda não o viu. Não precisamos de muito tempo para perceber o quão determinante é Fassbender e as personagens que ele representa.

Na cena inicial, na qual Weyland fala com David sobre a necessidade de conhecer o seu criador, de perceber o porquê deste o ter feito mortal e de como supostamente ele próprio acaba por suplantar o seu criador, por ter dado “vida” a David – vida essa que não tem fim -, Fassbender (no papel de David) desconstrói todo o argumento do seu criador ao dizer que é superior àquele por ser imortal. O tom e o ambiente que se instalam são de tensão e tanto Fassbender como Guy Richie premiam os espectadores com uma cena de cinema que merece ser imortalizada. Pena que o resto do filme não bebe desta cena para além do seu contexto.

David é um androide que “evoluiu” para um ser humano. O cabelo dele cresce e em determinados momentos demonstra ter sentimentos que não parecem de todo ser replicados, e aqui damos particular destaque à cena em que David chora enquanto nos é explicado o que aconteceu a toda a vida animal e inteligente indígena daquele planeta.

Walter é o último modelo da série de David (que é o protótipo), que passou por várias atualizações até chegar à quase perfeição, em que todas as falhas foram colmatadas, ou pelo menos assim o próprio o diz. Já o filme – e aqui os argumentistas merecem crédito – não nos permite identificar se Walter é realmente um modelo sem falhas, pois em vários diálogos com David parece hesitar aquando confrontado com os sentimentos que um androide pode ou não desenvolver.

Focando o desenvolvimento da personagem de Waterston, este apenas começa quando Daniels revisita as memórias do seu falecido marido, numa cena que mais parece uma referência a um outro filme, protagonizado por James Franco, pois vemos Branson a gravar uma mensagem para a sua mulher a meio de uma escalada. A determinada altura damos por nós a pensar “é assim que se acaba com um braço preso nas rochas”. A atriz começa como uma personagem algo fragilizada, mas, à medida que o filme prossegue, temos a confirmação de que tal fragilidade se deve apenas ao falecimento do seu marido e que no fim de contas Daniels até é bem capaz de tomar conta de si. Contudo, o rumo que assume no último terço é quase previsível pois por algum motivo quem pega nesta saga vê-se obrigado a recriar a Ripley. A personagem de Waterston poderia seguir outro rumo, talvez mais interessante e inteligente, embora não deixe de contribuir para o enredo de forma positiva, mesmo sendo vítima da saga, tornando-se uma cópia barata da Ripley sem razão aparente.

Danny McBride acaba por ser uma surpresa agradável porque é algo fora do seu elemento. Estamos habituados a ver McBride em comédias nonsense, como Isto é o Fim, e, tendo isso em conta, era de esperar que fosse assumir o papel de alívio cómico, mas felizmente não é o que acontece. Não é um personagem com grande desenvolvimento – assim como praticamente todos os outros – mas uma vez que é das personagens que mais tempo de ecrã tem, acaba por beneficiar a caracterização do filme. Passa por estágios de medo, coragem, luto, destreza, carisma e, obviamente, humor. Surpreendentemente acaba por ser a única personagem da tripulação a qual se pode associar uma história de origem, pois McBride faz-se acompanhar de um chapéu de cowboy e do seu já típico sotaque sulista.

Todo o restante elenco é descartável e nota-se que o único propósito da sua inclusão no filme é para ser morto pelo “monstro”. De facto, fragiliza demasiado o filme, mais ainda quando aos poucos nos vamos apercebendo que toda a tripulação é composta por casais – inclusive um casal homossexual que deixa o espectador na dúvida se foi posto em cena com o propósito de parecer inclusivo (uma vez que a missão daquela nave é a colonização de um novo planeta). Mas isso acaba por nem pesar com as sucessivas mortes dos membros da tripulação, pois o espetador acaba por não ter conteúdo suficiente para criar alguma empatia com qualquer outra personagem senão as de Fassbender. O último prego no caixão da fraca caracterização é a cena cliché e plenamente dispensável da sessão amorosa no chuveiro. O filme não precisa de todo de uma cena de sensualidade, quanto mais da típica morte no chuveiro plasmada e previsível em todos os filmes de terror físico. É lamentável que a icónica cena de Psycho tenha gerado tais “homenagens” e com esta então, acredito que Hitchcock ficaria bastante incomodado.

Em suma, : fica um pouco aquém das expectativas e muitas das culpas têm de ser atribuídas aos argumentistas e ao facto de ser um filme demasiado longo. Poder-se-ia alegar que o primeiro é vítima do segundo porque o filme gosta de se mostrar, pois visualmente estamos perante uma película bastante aprazível – não fosse Ridley Scott o realizador! Mas há claras falhas que não permitem Covenant ir muito mais além, e numa comparação direta com Prometheus, acaba por ser melhor em termos gerais. Contudo, Prometheus conseguiu definir-se enquanto Covenant anda um pouco à procura da sua identidade. Não deixa, sublinhamos, de ser um bom filme para ser visto no cinema e o pináculo do “espetáculo” é obviamente o aparecimento do Xenomorfo, que infelizmente foi criado com recurso a CGI. Tivesse esta criatura, retirada dos nossos mais profundos pesadelos, sido criada com efeitos práticos, com toda a certeza, o filme teria um impacto bastante mais positivo.