O disco mais importante de sempre faz 50 anos

Será 'Sgt Peppers', dos Beatles, o melhor disco de todos os tempos? Existe algum consenso à volta desta ideia.

Permitam-me o testemunho pessoal: devo ter chegado a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band há uns 11/12 anos, numa altura em que deixei de classificar a música pré-século XXI com o rótulo “para velhos” e comecei a perceber que, para escrever decentemente sobre música, teria que escavar um bocadinho e perceber que, apesar da “Seven Nation Army” aos ouvidos de um puto de 18 anos soar super fresca, os White Stripes ou os Strokes, bandas que marcaram a criançada desta geração de meados/finais da década de 1980, tinham os papás lá bem atrás.

Admito que seja natural um puto ali entre os 10 e os 15 desdenhar a música que os pais monopolizam no carro. Apesar da asneirada, numa roadtrip Lisboa-Paris-Lisboa, um puto poderia chagar a cabeça dos pais de tal modo que os pais acabavam por ouvir a “My Generation” aqui e a li, num CD gravado em casa que incluía também Linkin Park ou Crazy Town. Convenhamos: só recentemente esse puto se rendeu a Roy Orbison, banda sonora daquele Renault Mégane de Janeiro de 2001.

A propósito dos 50 anos dos Beatles e de Roy Orbinson, desenganem-se os novos do Restelo: é possível em 2017 criar uma canção perfeita e que tudo deve a Orbison. Quando há 11/12 anos Sgt Peppers me chegou aos ouvidos, o impacto foi imediato, da introdução coreografada à melhor canção (subjectivo, bem sei, mas pelo menos é unanime) do disco, “A Day in the Life”, Tudo me pareceu novo e cheio de ideias, embora já tivessem passado quatro décadas.

Há fãs dos Beatles que o desdenham e o próprio Lennon chegou a referir-se a ele como “a maior carga de merda que já fizemos”, mas está aqui a colecção de canções mais influente da história do rock. O que veio imediatamente depois de Sgt. Peppers foi influenciado por Sgt. Peppers: The Piper at the Gates of Dawn dos Pink Floyd, Smiley Smile dos Beach Boys (este de forma dramática), Strange Days dos Doors, Pleasures of the Harbor, de Phil Ochs, The Who Sell Out, dos Who, e, claro, Their Satanic Majesties Request, dos Stones. Se é para desdenhar que se desdenhe este último, esse “Sgt. Pepperzinho” da banda que Lennon tão bem descreveu um dia: “tudo o que fazemos, os Stones fazem 4 meses depois”.

O 8º dos Beatles sucede Rubber Soul, disco perfeito e sem canções para encher (Brian Wilson dixit) e que representou o fim da inocência (“Grass foi influente”, diria Ringo), e Revolver, iniciação ao psicadelismo num disco livre e o último que terá contado com um grupo unido na sua composição. Sobre as gravações de  Sgt Peppers…, Ringo haveria de dizer mais tarde que só se lembra de aprender a jogar xadrez e George Harrison confessar-se-ia irritado e longe do resto do grupo.

Nas palavras do próprio: “era Lennon a criar ao piano e o Ringo a manter o tempo”. Brian Wilson, homem cuja visão, frustração e perfeccionismo ia puxando a pop para lá dos limites que eram derrubados todas as semanas (pelos Doors, pelos Jefferson Airplane, pelos Velvet Underground, por Jimi Hendrix, só para nos ficarmos nos seis primeiros meses de 67), haveria de atirar a toalha ao chão. Os Beatles passam a jogar num campeonato só seu. “Quando sinto que a minha cabeça está prestes a explodir, apenas olho para o Ringo e vejo que não somos super-homens”, diria Lennon, ele, mais feliz na hora de sintetizar as fraquezas da banda do que as virtudes.

1 de Junho de 1967, o mesmo dia da edição da esquecida e esquecível estreia de David Bowie, três dias depois do incidente no Tompkins Square Park, no Memorial Day, o início do fim do Summer of Love. Sgt Peppers Lonely Hearts club band torna-se a banda sonora dessa geração – a par, claro, de “San Francisco (Be Sure to Wear Flowers in Your Hair)”, escrita e interpretada por membros dos The Mamas & The Papas, sempre excelentes na descrição de banalidades, seja o movimento hippie, seja uma segunda-feira. E só não conseguimos dizer que a relação Beatles-Summer of Love é reciproca porque o registo terá sido gravado ao longo de quatro meses. Numa altura em que já tinha abandonado de vez os palcos, e de forma irónica, os Beatles terão passado o movimento todo num estúdio que era cada vez mais dominado por Paul McCartney que haveria, alegadamente, de se tornar num control freak.

O objectivo seria uma obra conceptual sobre uma banda ficcional, a que dá título ao disco e que vai sendo introduzida canção a canção. Rapidamente aborrecem-se e fica apenas a introdução da faixa-título, a que apresenta Billy Shears aka Ringo Starr (?), na interpretação de “With a Little Help From My Friends”. O conceito de concerto perde-se e o registo mesmo tendo sido importante para a afirmação do álbum, acaba por funcionar como um álbum normalFace to Face, dos Kinks, e Velvet Underground & Nico, dos Velvet Underground, serão obras mais válidas na exploração de um conceito. 

Será Sgt Peppers o melhor disco de todos os tempos? Existe algum consenso à volta desta ideia: o primeiro álbum rock a ganhar o Grammy para “Melhor Álbum”, o conceito, a capa (porque não?), as inovadoras técnicas de produção e até uma ou outra opinião contrária que só o legitima. Mas Sgt Peppers terá canções a mais. Algumas não estão ao nível do rótulo de melhor de sempre, principalmente ali entre “When I’m Sixty Four” e a “Reprise”. Lennon chegou a referir-se a “Good Morning, Good Morning” como lixo. Mas teremos sempre “Lucy in the Sky with Diamonds”“She’s Leaving Home” “A Day in the Life”