“Bots”: o novo instrumento de propaganda política

Estudos da Universidade de Oxford apontam para a criação de "bots" nas redes sociais para propaganda de líderes, movimentos ou ideais políticos.

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O Instituto de Internet da Universidade de Oxford concluiu que existem elevados níveis de propaganda política nas redes sociais. A acção dos “bots” é a principal causa de um fenómeno que tem cada vez mais repercussões na opinião pública, nomeadamente em momentos de eleições ou de crise política. É um recurso utilizado por vários países, independentemente do seu regime.

Os estudos abrangeram nove países – Estados Unidos, Rússia, Brasil, China, Polónia, Ucrânia, Canadá, Alemanha e Taiwan. Segundo o Público, entre 2015 e 2017, a equipa Polbots, constituída por 12 investigadores da universidade, chegaram a estas conclusões mediante entrevistas a profissionais das áreas de propaganda computacional e política. A investigação passou também pela análise do fluxo de publicações das redes sociais de maior dimensão, como o Facebook, o Twitter e o Vkontakte (rede social com adesão significativa na Rússia).

“As mentiras, o lixo, a desinformação é suportada pelos algoritmos do Facebook ou do Twitter”, diz Philip Howard, professor de Estudos da Internet de Oxford, em declarações ao jornal britânico The Guardian.

Nas várias redes sociais e países analisados, a presença de “bots” era uma constante. Programas de computador responsáveis pela criação de páginas e perfis falsos, simulam a ação humana nas redes sociais e são capazes de influenciar os processos de curadoria destes meios de comunicação. “Likes”, partilhas, publicações ou o uso recorrente de certas hashtags aumentam fortemente as possibilidades de determinados conteúdos aparecerem com maior frequência. Consequentemente, cria-se a ilusão de popularidade de determinados tópicos, cujo efeito se replica na opinião pública na vida real.

Segundo os investigadores, no caso dos Estados Unidos da América“a ilusão de apoio a um candidato na Internet pode, de facto, despontar apoio na vida real através de um efeito em cadeia. Trump recorria bastante ao Twitter nas eleições e os votantes prestaram atenção”. Samuel Woolley, diretor do projeto, afirma que o fenómeno da ilusão de popularidade pode ser definido como “fabrico de consenso”. Há uma relação direta entre a opinião pública e as tendências online que é explorada pelos líderes políticos. A falsa popularidade de um político ou de um movimento pode motivar uma mais fácil adesão do público-alvo.

Nos Estados Unidos, foram analisadas 17 milhões de publicações nas principais redes sociais, Facebook e Twitter. Chegou-se à conclusão que uma em cada dez publicações eram provenientes de “bots”. Na Rússia, cerca de 45% das contas consideradas “bastante activas” no Twitter eram falsas.

Estas manipulações nos algoritmos dos processos de curadoria de conteúdos são motivadas essencialmente em momentos de crise ou de eleições. A propaganda marcou o século XX e hoje conhece novos contornos, em países como o Brasil, os Estados Unidos e a Rússia.

No Brasil, nas eleições presidenciais de 2014, Aécio Neves e Dilma Rousseff concorriam para a liderança do povo brasileiro. “A Folha de São Paulo”, apoiada pela Universidade Federal do Espírito Santo, indicou que, passados 15 minutos após o início de um debate entre ambos os candidatos, os tweets com hashtags a favor de Aécio Neves triplicaram. A partir desse momento, as publicações afetas a ambos os candidatos estabilizaram em número. Em Outubro do mesmo ano, o grupo “Muda Mais” denunciou uma lista com mais de 60 contas de Twitter, Facebook e outras redes sociais por suspeita de estarem predefinidas para publicar conteúdos da página oficial do candidato opositor mais de 180 vezes. Segundo o documento dos investigadores, as contas estavam ligadas a uma pessoa que recebia cerca de 130 mil reais (cerca de 35 mil euros) para a criação desses “bots”. De acordo com o “Estadão de São Paulo”, as páginas e movimentos pró-Dilma também recorreram às contas automatizadas, mas a campanha de Aécio Neves, líder do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), gastou cerca de dez milhões de reais (mais de 2,5 milhões de euros) na criação e manutenção de contas falsas, nomeadamente de WhatsApp.

A Rússia é o caso mais grave. Acusada atualmente de interferências nas eleições americanas, neste país do Leste, as autoridades operam em prol da censura da oposição e defesa dos interesses do Estado e, principalmente, da imagem do atual líder russo, Vladimir Putin. Inicialmente, a estratégia do governo passava pela simples solicitação do bloqueio de páginas das redes sociais, tal como aconteceu em Dezembro de 2014: as autoridades obrigavam Facebook e Vkontakte a interditar o acesso dos utilizadores a qualquer página de apoio a Alexey Navalny, político e ativista russo. Contudo, apesar da ação concordante das redes sociais, os seus utilizadores encontraram formas de contornar as imposições definidas. A partir deste momento, a utilização de “bots” passou a ser mais frequente. Em 1,3 milhões de contas de Twitter analisadas, cerca de 45% eram falsas. Num dos momentos mais tensos com a Ucrânia, aquando da queda do avião da Malaysia Airlines 17 em território ucraniano, os investigadores registaram um aumento significativo do número de “bots” russos. Esta técnica propagandística utilizada pelo Kremlin apresenta-se cada vez mais vantajosa para os interesses do Estado como uma alternativa ao bloqueio ou encerramento forçado de redes sociais. Evita uma possível quebra da reputação e silencia a oposição de maneira mais eficaz, segundo as ilações dos estudos da universidade.

Nos Estados Unidos, as investigações concluíram um papel fulcral dos “bots” durante as Presidenciais de 2016. Na análise da atividade no Twitter em relação ao mais importante momento da vida política americana, as contas falsas desempenhavam papéis mais complexos, ou seja, na difusão da informação. Esta entraria depois em interação com utilizadores humanos e a proliferação dos conteúdos disseminados pelos “bots” seria inevitável. Os resultados da investigação estimam que a maioria das contas automatizadas fossem pro-Trump e divulgadoras de hashtags relacionadas com a sua campanha, cuja influência se propagou por outros utilizadores.

Combate à propaganda

As redes sociais pouco fazem quanto à questão. “Na maioria dos casos, eles deixam esse papel para os utilizadores no estabelecimento de políticas [de uso das redes sociais] e de denúncia de contas”, afirma Philip Howard. O Facebook relega tais tarefas a empresas externas de anti-propaganda e combate às fake news, como a Snopes ou a Associated Press. Já o Twitter possui uma equipa de “anti-bots”. Contudo, a sua eficácia é reduzida quanto à propaganda política.

Nos Estados Unidos, apesar das evidências, a Comissão Eleitoral Federal não reconhece o papel e muito menos a existência de contas falsas durante as eleições americanas.

A Alemanha, embora apresente um índice considerável de “bots”, é dos poucos países que tem vindo a tomar medidas quanto à propaganda política nas redes sociais. Em Março de 2017, Heiko Maas, ministra da Justiça alemã, propôs multas pesadas às empresas gestoras das redes sociais que não controlassem “discursos de ódio” e “notícias falsas”. A lei gerou polémica, na medida em que era considerada uma limitação da liberdade de expressão.