A Zé Dos Bois é um festival em permanência em Lisboa

Gizzle, Rodrigo Amado, Hand Habits, Janka Nabay, Jards Macalé e Bonnie Prince Billy são algumas das propostas na ZDB, em Julho.

© Facebook ZDB
 
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A Galeria Zé dos Bois (ou ZDB para os mais “da cena”) é uma das paragens clássicas da cena alternativa da capital. A música, bem como as artes performativas e visuais, têm a meio da rua da Atalaia uma espécie de Oásis numa Lisboa que às vezes parece semi-deserta de originalidade. Criada em 1994, com estatuto de Associação cultural sem fins lucrativos, a Zé dos Bois mantém-se actual e irreverente como nos primeiros dias. É uma opção à porta de casa para quem fica por Lisboa no Verão, mês de férias e festivais.

A programação para o mês de Julho da ZDB conta com nomes como Gizzle, Rodrigo Amado, Hand Habits, Janka Nabay, Jards Macalé e Bonnie Prince Billy, que actua no Teatro da Trindade no dia 26 de Julho.

Gizzle + Genes

Quando: segunda, 5 de Julho / 22 horas
Onde: Galeria Zé dos Bois
Quanto: 8 euros

Gizzle é um símbolo de uma nova América que luta para despontar sob Trump, uma nova América que procura um lugar numa realidade pós-digital, numa era em que os géneros se encontram no centro de novas discussões, em que se redefinem identidades, se escolhem novos posicionamentos.

Actualmente, Gizzle prepara a sua estreia como rapper na editora de Puff Daddy / P Diddy, a Bad Boy, mas na verdade a MC já conta com mais de uma década de experiência a aperfeiçoar a arte em estúdios, a trabalhar em canções sentada em sofás ao lado de grandes estrelas, a perceber como funciona agora uma indústria que aprendeu a conhecer desde pequena. Gizzle é mulher, negra, tem 28 anos, assumidamente gay, rapper, compositora, produtora. Gizzle, enfim, pode muito bem ser o futuro.

Mais recentemente, Gizzle – cujo telefone não deve parar de tocar – ajudou Kanye West a escrever “Real Friends”, uma das peças centrais do aclamado The Life of Pablo, assinou canções para Travis Scott, para Iggy Azalea e T.I., para Kevin Gates e G-Eazy. Ser gay, que até aqui poderia ser um verdadeiro problema no conservador meio do hip hop, parece já não representar o mesmo obstáculo numa cultura que tem sabido encaixar carreiras como a de Frank Ocean ou Syd, do colectivo The Internet: “O que antes era suposto ser uma falha está agora a ser encarado como algo de positivo”, afirmou recentemente Gizzle à Pitchfork. Marcas da tal nova América: não é defeito, é mesmo feitio.

Com Pessoas ainda a fervilhar pelas redes após celebrado lançamento, Genes estreia-se no Aquário numa altura em que Veracidade terá também já chegado a público, em demonstração intensa e intuitiva da voracidade e urgência que palpita nas suas canções. Prestes a deixar a adolescência – no sentido literal de teen – este rapper do Montijo de seu nome verdadeiro Luís D’Alva Teixeira tem vindo a conquistar um espaço cada vez mais reconhecível. Reflexo de uma persona a cabo com a sua própria identidade e os dilemas que a vivência e os sonhos na urbe da construção dessa mesma acarretam – em histórias, anseios e utopias. Com aquela entrega do “fazer acontecer” dos espíritos mais inquietos, Genes apresenta-se aqui já com a cavalagem de quem actuou no Barreiro Rocks e recebeu os devidos louvores de publicações como a Time Out ou a Vice, num ponto fulcral de uma história ainda muito breve mas a palpitar.

Rodrigo Amado Northern Liberties

Quando: segunda, 11 de Julho / 22 horas
Onde: Galeria Zé dos Bois
Quanto: 8 euros

Regressado uma longa viagem pelos Estados Unidos e com The Attic – numa triangulação com Gonçalo Almeida e Marco Franco – a recolher inúmeros elogios na imprensa internacional, o saxofonista Rodrigo Amado volta ao palco da ZDB com uma nova formação de nome Northern Liberties. Abrigo sucinto para este holding que reúne o músico português a três iluminados da sempre fértil cena jazz norueguesa, num intercâmbio de liberdade e fogo, em estreia viva por estes lados.

Rodrigo Amado é uma figura mais do que reconhecida pelos frequentadores deste espaço. Figura imponente do jazz e da música improvisada europeia ao longo das últimas duas décadas, tem vindo a manter uma rota ascendente de reconhecimento e maturidade sustentada num campo lexical para onde convergem os espíritos mais abençoadas para se libertarem num sopro único. Amado tem na companhia do baterista Gard Nilssen, do contrabaxista Jon Rune Strom e do trompetista Thomas Johansson um alinhamento de mentes em comprimento de onda.

Hand Habits + Cyrus Gengras

Quando: segunda, 12 de Julho / 22 horas
Onde: Galeria Zé dos Bois
Quanto: 8 euros

Megan Duffy (Hand Habits) poderá ter nascido oficialmente na região de Nova Iorque, porém o que expressa nas suas canções é uma tradução de ideias, estados e percepções que farão parte do quotidiano de muitos. É esse tom confessional e aconchegante, entre o canto balsâmico e o sussurro agridoce, que aborda uma miríade de sentimentos, relevando afinal um dos segredo da pop: esmiuçar a complexidade emocional através de uma expressividade simples.

Wildy Idle (Humble before the Void) é efectivamente o disco que melhor expressa o trabalho que Meg tem vindo a desenvolver. Editado no primeiro trimestre deste ano pela Woodsist (Cian Nugent, Woods, White Fence e tantos outros), nele traz ecos dos tempos em que se apresentava como Albany D.I.Y ou a fibra das digressões nos últimos anos com os Mega Bog e Kevin Morby. Num momento especialmente sorridente para Morby, envolto de interesse e aplausos, é o próprio a apresentá-la como uma das vozes mais arrebatadoras deste tempo presente.

Ainda que boa parte destas canções surjam de esboços relativamente esqueléticos (a voz e guitarra, apenas), Meg alcança a fazer delas autênticas esculturas sonoras. Antes de se apresentar por cá ao lado de Morby, é com enorme prazer que a ZDB a acolhe. Será pois um concerto especial, em nome próprio e com um belíssimo novo álbum entre mãos. Algo que suspeitamos que não se repetirá tão cedo.

Igualmente sediado em Los Angeles e também colaborador de Morby, há definitivamente muito que esperar de Cyrus Gengras. Afinal tem acompanhado gente valiosa, onde se incluem Jessica Pratt. É pois natural que todo o savoir-faire dessas aventuras o tenham colocado num trilho sólido e cativante. De facto, parece dominar com propriedade toda a escola de folk independente nas últimas décadas. Por detrás de uma aparente simplicidade, cada uma das cinco canções do EP ‘CG’ logra em desvendar uma veia de cantautor seguro, com muito para partilhar. Dos Wilco a Neil Young, passando por Kurt Vile ou Mac DeMarco, é dessa estirpe de gente inspirada, e inspiradora, em que Gengras se inscreve.

Inesquecível, e espelho de uma personalidade espirituosa (que naturalmente se estende à música), fica o título de uma cassette intitulada Fuckin’ Up My Name, saída o ano passado na label Death Records. Além disso, Funny Instruments poderá ser uma das baladas mais bonitas, honestas e assombrosas que escutarão nos próximos meses. Altamente indutor a road trips de verão e churrascos com direito a vinho vintage.

Janka Nabay and the Bubu Gang

Quando: sexta, 21 de Julho / 22 horas
Onde: Galeria Zé dos Bois
Quanto: 8 euros

Se a música pode ser um ponto de encontro entre uma nuvem de pontos dispersa de geografia, expressão cultural e até massa geracional, então Janka Nabay é uma força convergente. O espólio sonoro de África calcula-se que seja eterno e ao longo dos últimos anos, muitos têm sido os resgates valiosos ao tempo e à memória – com a consagração, ainda que tardia, mas sempre bem vinda, de grandes mestres. Cabo Verde, Nigéria, Angola ou Etiópia foram regiões que figuraram nessa operação de revalorização, com impulso de carreiras ou uma série de reedições de luxo de material esquecido. Todavia a região da Serra Leoa ainda parece um refúgio exótico de onde ainda consta parca documentação musical. Reconhecida pelo highlife, género tradicional emerso entre múltiplas guitarras e cores garridas, a região guarda ainda a chamada bubu music em que Nabay se estabeleceu como expoente máximo. Actualmente apresenta-se com a sua banda suporte, os Bubu Gang, de onde se incluem membros de bandas como Skeletons, Gang Gang Dance ou Starring.

Após uma passagem pela pequena mas influente editora True Panther, o mago David Byrne convidou-o para ingressar no catálogo da sua Luaka Bop. É de lá que chega o último disco Build Music, editado em Março deste ano. Provavelmente o seu álbum mais consistente até à data, nele a transparência das guitarras enlaçam-se na palete cromática dos sintetizadores, abrindo espaço às vozes pontuais e portadoras de uma verdade regenerativa, para ser partilhada no colectivo. Esta é música que celebra, pacifica e adorna, com as formas mais elegantes, qualquer momento de silêncio como uma tela em branco. Haja sol, calor e Janka Nabay que o Verão já arrancou.

Jards Macalé + Ricardo Dias Gomes

Quando: segunda, 25 de Julho / 22 horas
Onde: Galeria Zé dos Bois
Quanto: 8 euros

Nascido Jards Anet da Silva no bairro da Tijuca em ambiente familiar musical, Macalé é um dos verdadeiros heróis da música brasileira. Sem o reconhecimento generalizado de alguns dos seus contemporâneos, mas amplamente citado e reverenciado pelos mesmos e demais horda de apaixonados pelo impressionante legado cultural do Brasil, Jards Macalé tem deixado um rasto discreto e pausado mas de importância social e histórica fundamental para a compreensão do mesmo.

Eterno agitador em desalinho com quaisquer tendências ou cenas, demarca-se por uma consciência política e social constante, onde o seu discurso afiado se une a uma certa crueza sonora de acerto simbólico. Apesar de inicialmente alinhado com as ideologias do tropicalismo colaborando com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, viria a romper essa ligação por achar que este tinha perdido a sua autonomia perante a indústria musical. Longe da orquestrações oníricas e dos arranjos intrincados de alguns dos clássicos do movimento, o álbum de estreia homónimo de 1970 aponta desde logo para essa cisão, numa música igualmente voraz no modo como faz convergir linguagens – jazz, blues, bossa, samba – mas despida de artifícios, envolta na poeira da realidade circundante.

Macalé tem hoje um legado riquíssimo e de uma actualidade e pertinência inquestionáveis, à imagem da sua figura anarquista e continuamente contestatária para com a autoridade e a opressão. Exemplo de absoluta independência criativa que muito nos honra receber na ZDB.

Bonnie ‘Prince’ Billy + Matt Kivel

Quando: segunda, 26 de Julho / 22 horas
Onde: Teatro da Trindade
Quanto: 15 euros

Desde o início dos anos 90 que Will Oldham é uma personagem feita de vários alter-egos, construído por músicas e imagens. Testemunhou o último grande sopro artístico do indie rock, recuperou um género proscrito (o country) e deu-nos a ouvir, como se fosse a primeira vez, essa manifestação de uma voz e de um texto chamada canção.

Fê-lo primeiro num tom desconfiado, quase lúgubre, duro, inspirado tanto pela honestidade do punk, como pelos ecos das montanhas Apalaches. Neste período, os seus discos tinham a assinatura de Palace Brothers, Palace Music ou apenas Palace, e inauguravam, para muitos, um novo género: o country alternativo. A partir de 1997, e até hoje, as coisas mudaram. Oldham abriu-se a versões (Richard Kelly, Leonard Cohen), foi alvo de versões (Johnny Cash, Mark Kozelek, Mark Lanegan) e colaborações (Björk, Current 93, Tortoise), envolveu-se em projectos laterais (com Matt Sweeney) e, sobretudo, tornou as suas canções mais partilháveis, mais próximas de quem as escuta. O humor, a exploração de outros arranjos e tradições da música popular americana (gospel, folk), a presença de vozes femininas e uma certa leveza contribuíram para essa intimidade.

Só as relações amorosas, a família, a liberdade, os temas eleitos do personagem, entretanto rebaptizada com o nome de Bonnie ‘Prince’ Billy, resistiram ao tempo. Neste retorno a Lisboa, a solo, traz-nos os temas compostos ao longo de vinte anos!

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!