Os dias de João Tamura entre Los Angeles e Las Vegas

O diário dos dias entre Los Angeles e Las Vegas, a Califórnia e o Nevada. Os dias entre a Cidade dos Anjos e a Cidade do Pecado.

Este é o diário visual dos dias passados no oeste dos Estados Unidos da América. O diário dos dias entre Los Angeles e Las Vegas, a Califórnia e o Nevada. Os dias entre a Cidade dos Anjos e a Cidade do Pecado.

Los Angeles não acaba. Chegamos ainda de noite e, da janela do avião, luzes até ao fim do olhar. Ao fundo, a praia – ou as montanhas, do outro lado. Pouco depois, o nascer do sol, que banha as ruas, que acorda a cidade. Abrem-se as portas envidraçadas das lojas que vendem todo o tipo de souvenirs e bugigangas: placas que imitam aquelas das ruas e avenidas e matrículas dos mais diversos estados americanos. T-shirts com LA estampado no peito e camisolas com Califórnia bordado nas costas. Chapéus, porta-chaves, bonecos do Donald Trump e canecas do Barack Obama.

Hollywood, Echo Park, Downtown, Santa Monica, Venice, South Central, Crenshaw e Compton. Todas as towns, miniaturas de todo o mundo: Koreatown, Chinatown, Little Armenia, Little Tokyo. O metro sob a cidade. Sobre ela, carros – carros sem fim. Carros que enchem as estradas, as ruas, as avenidas, as auto-estradas e os becos. O soar das buzinas, o acelerar e o travar. Pára-arranca, pára-arranca. Bares, discotecas, cafés, restaurantes. A gorjeta é obrigatória. Casas, apartamentos, mansões, tendas. Pessoas ricas e pessoas pobres. Pessoas sem casa, que vivem nos bancos, nas pontes, nos jardins, nas praias e nos passeios da ruas. Mas não em Beverly Hills, onde os carros são platinados e brilhantes e onde os dois lados das ruas são feitos de lojas de marca e de galerias de arte que vendem originais de Dali, Picasso ou Matisse.

Tours às casas das estrelas e dos famosos. 20$ ou menos, até – “fazemos-te um desconto”. Turistas, vermelhos do sol, com câmaras digitais – “olha, ali vive o Johnny Depp!”. Flash, Flash. Tanta música, tanto cinema. Fast-food. Total entertainment forever.

Depois da praia, depois de Los Angeles, há o deserto. No meio dele, Las Vegas. Ainda longe, mas já se vêem os neons. A noite não é noite. É mais escura que o dia, sim, mas nunca o bréu. O céu é encarnado, quase. – são as luzes que o pintam. Os neons banham a pele e os olhos. Os casinos, os hotéis, os restaurantes, as montras. The Strip, a avenida principal, que atravessa a cidade. Nela, pessoas como formigas, entram e saem dos hotéis, dos casinos. “5$ por uma água? Não, obrigado”. Táxis, ubers, lyfts. O Flamingo, o Luxor, o Wynn, o New York, o Bellagio, o Mirage. Perdida no meio do deserto, mas Las Vegas é de todo o mundo – vislumbres do Cairo, de Nova Iorque, de Paris, de Roma, de Veneza. As pirâmides, as esfinges, os canais de Veneza e uma espécie de Lago Como. No The Strip, uma carrinha munida de gigantes megafones grita “a palavra de Deus”. Segundo o seu condutor e locutor: “Toda a cidade irá parar ao inferno!”, ouve-se. “Esta é casa do pecado, de tudo o que é do mal…”, prega. Os transeuntes param. Escutam-no, entre risadas. Fotografam-no com os seus telemóveis. “Esta vai para o Instagram”. Depois, continuam o seu caminho. Entram em mais um casino, saem de mais um hotel. Longe das avenidas principais, a cidade muda. Os hotéis, de muitos andares, transformam-se em motéis de apenas um ou dois pisos, e os edifícios altos transformam-se em pequenas casas germinadas. As largas avenidas, tão luminosas, escurecem, dando lugar a ruas mais estreitas, onde os candeeiros têm um brilho mais ténue.

A trinta minutos de Las Vegas, o seu total contraste: a noite no deserto, entre as áridas montanhas, é da escuridão. Não há mais neons, nem o interminável carrossel de luzes e barulho. De lá podemos observar, finalmente, as estrelas no céu. No meio do nada, do escuro, há o silêncio – um silêncio que só o deserto consegue. 

(texto e fotografias de João Tamura; para conheceres mais sobre o autor, visita um dos seus canais: Facebook, YouTube, Instagram (2) ou Bandcamp)