Pouco e muito se alterou no NOS Primavera Sound

Reportagem do NOS Primavera Sound 2017.

No geral

Na sua versão portuguesa, o Primavera Sound consolidou-se ao longo das últimas três edições, em particular, desde o concerto apoteótico do rapper Kendrick Lamar – uma jogada arriscada mas compensatória, se pensarmos na afluência desde o ano zero até aos dias de hoje. Em 2017, o festival portuense não traz despesa, esgota pelo menos um dia (bem como a maioria dos hotéis da cidade) e continua a ter alguns dos trunfos da temporada de verão, isto sem que a sua fórmula e forma se tenham alterado substancialmente. Ora veja-se: as bandas portuguesas estiveram em número reduzido, como na primeira edição, os nomes grandes do universo indie-rock e rock alternativo foram um dos principais chamarizes do cartaz, como na primeira edição e os revivals da década de 90 mantiveram-se, como na primeira edição. Até mesmo o hip-hop e o R&B, esses aparentes corpos estranhos no festival, estavam já presentes em 2012, com o concerto de The Weekend e showcases dos Ultramagnetic MC’s a representarem. Pouco e muito se alterou no NOS Primavera Sound desde então.

Pouco, porque quem vai ao Primavera Sound continua – e isto é importante – a descobrir os artistas que em breve serão considerados indispensáveis na música alternativa. Aconteceu com Thee Oh Sees, Courtney Barnett e Jagwar Ma, não se esperando algo de diferente com Julien Baker ou Cymbals Eat Guitars, dois dos primordiais concertos desta edição. Mas muito, porque o Primavera Sound, desde a génese, passou do nicho – orientando-se para um público consumidor de rock alternativo – ao mainstream, com gentes de todas as idades, países, credos e cores a sentir-se, diz o escriba, bem-vindas no Parque da Cidade. Certo é que esta passagem a outra liga não agradará a todos; uns pedirão mais rimas, outros mais pedais de fuzz. No entanto, olhando bem para os exemplos dos festivais concorrentes, não há como negar que o Primavera tem sido um dos que mais se esforçou por não defraudar o público que o ajudou a fundar-se, até no que aos acessos e infraestruturas diz respeito; mesmo com casa cheia, estamos longe de experimentar a claustrofobia de um NOS Alive ou de um Vodafone Paredes de Coura, que se ressentiram no bem-estar dos festivaleiros com o esgotar das suas edições. Crescer em dimensão e qualidade, parece ter sido a lógica durante estes seis anos de festival, sentindo-se por isso parcas dores de crescimento. É e tem sido bom vir ao Porto, em dias de sandes vegan ou de Casa Guedes, em noites de noise ou de drum and bass, mas sempre com concertos das cinco às cinco.

Os concertos

Um jovem pergunta, durante uma das primeiras actuações do festival, se é verdade esta coisa de os artistas adorarem Portugal acima de todos os outros países. A questão, apesar de se poder achar infantil, tem uma enorme pertinência, ou não fôssemos constantemente bafejados pela bonita prosa dos músicos. Terão um fundo de verdade estes elogios que se lançam entre canções? Seremos nós os melhores ou os mais efusivos melómanos que as plateias encontram nas suas digressões? A resposta, como é óbvio, depende sempre do artista que oferece a dita toada entusiástica. Não temos dúvidas de que os Metronomy  – marcados ad eternum pelo concerto na Casa da Música, um dos primeiros fora de Inglaterra – ou Run The Jewels  – surpreendidos pela enchente de 2015, quando pouca ou nenhuma reacção esperavam ter na Europa –  são honestos quando o dizem, não invalidando isso o eventual copy paste de louvores noutros países. É um procedimento habitual, porque o público, maravilhado, fica do lado das bandas, mas pode de igual modo ser, ainda que em casos muito raros, e os supracitados são alguns deles, uma genuína declaração de amor. O ambiente bucólico do NOS Primavera Sound, o carinho e predisposição com que o público se entrega nos concertos – porque só em festivais consegue apanhar as bandas que escapam nas digressões europeias – são uma marca “nossa” e favorecem as frases pirosas, daí que estas cheguem em barda. Não é normal ver e dar concertos em anfiteatros naturais, muito menos com um público que se esteja a borrifar para selfies, como ainda acontece no Porto. Em conversa com um dos artistas americanos que passaram este ano pelo palco Pitchfork, e cujo nome pouco ou nada interessa, este misticismo é, na verdade, desmistificado. Revelou ao escriba o dito americano que: “em Barcelona fazem o festival no meio de um parque de estacionamento. Vocês têm uma sorte do caraças por fazer isto aqui [no meio da natureza].” Ora não hão eles de andar maravilhados e de nos querer maravilhar também?

Segue assim o apanhado do que foi o melhor e o assim-assim (não se pode dizer, como em anos anteriores, que tenha havido concertos sofríveis) do NOS Primavera Sound 2017.

Dia 8

Cigarettes After Sex

Foi sob esse mesmo manto de bonomia e receptividade que a banda de Greg Gonzalez inaugurou o palco principal do Primavera Sound. Não sendo propriamente estreantes em solo luso, os Cigarettes After Sex fizeram o que puderam com a sua melancolia monocórdica. Quem os viu em Paredes de Coura sabe que o intimismo resguardado de um palco secundário às dez da noite (ou até mais tarde) é o ideal para o shoegaze texano de Gonzalez, Tomsky, Tubbs e Miller, adornado pelas luzes de palco no meio da breu. Ao sol, apesar de resguardados pelas lágrimas dos filmes de Bergman em pano de fundo, a coisa não correu tão bem. O público, a chegar, mas atento, foi reagindo a K. e Sunsetz, canções de moderado airplay em Portugal, com reduzidas oscilações no seu comportamento. Por mais que Gonzalez e companhia quisessem, a ausência de dinâmicas e a luz solar condenaram o concerto a um aborrecimento que não era de todo esperado, dadas as memórias felizes guardadas desde a passagem pelo Minho. Só o single Nothing’s Gonna Hurt You Baby potenciou o primeiro momento de singalong do festival, deixando uma nota razoável a um dos concertos que poderia ter sido muito, mas muito mais do que acabou por ser.

Rodrigo Leão & Scott Matthew

Com Scott Matthew, os factores entretenimento e vivacidade, distantes da experiência anterior, estavam à partida garantidos. Como se houvesse caído no célebre caldeirão de Obélix, o australiano ganhou a grande maioria do público logo nas primeiras canções, apresentadas com o escárnio e leveza do costume. “Provavelmente devem estar a perguntar-se quem é este tipo ao lado do Rodrigo Leão”, ironizou, desde logo diminuindo a sua presença em palco em relação ao compositor português. Mais tarde apresentaria um hit da banda, só para em seguida o desmentir: “não temos esse tipo de música, desculpem.”

Entre o baixo e os teclados, Leão guiou temas do próprio Scott Matthew (The Fallen e Abandoned), da dupla (Life is Long e That’s Life deixam-nos sorrisos longos, dada a surpresa dos muitos que não conheciam o projecto em comum e ali se foram pasmando com a simbiose e comunhão musical), mas também seus, sem que Matthew alguma vez ficasse na sombra. Usando a voz pujante, sempre à tona e em paralelo com as guitarras, violinos e trombones, roubou, de forma consentida, o espectáculo de final de tarde. A solo, lançou-se às versões de Chaplin e Whitney Houston que já havia praticado em disco. Em grupo, provou que a erudição e êxtase se podem jantar à mesma mesa e comer do mesmo prato. É um hiperactivo que sabe deslizar a voz pelo meio dos arranjos mais complexos, sem espinhas, e isso resultou no primeiro grande concerto do festival.

Miguel

Numa versão mais pregadora do que lasciva  – como a que havia trazido em 2013 ao Meco –, Miguel desfilou as suficientemente boas canções de Wildheart com a confiança de quem carrega um enorme pote de ouro atrás. Voou de uma ponta a outra do palco, sentou-se junto das primeiras filas e foi largando jargões peace and love para todas as idades. Entre tudo isto, aborrece apenas e só o lado moralista/palestrante do concerto. Um espetáculo de rock n’ roll e r&b com solos de dois minutos (nunca anacrónicos, e isso é difícil de conseguir) e cambalhotas vocais não pede os momentos “we’re all created equal” que o californiano tentou impingir sem grandes subtilezas. Tudo certo, rolam tempos difíceis nos Estados Unidos, mas em circunstância alguma pode isso sobrepor-se, como aconteceu por breves instantes, ao génio de How Many Drinks, canção “emprestada” por e a Kendrick Lamar, ou Adorn, temas-chave da profícua e curta discografia de Miguel Jontel, devidamente respeitada e transposta pelos músicos de sessão que acompanham o cantor nesta tour – metade do concerto é garantida pelo virtuosismo in your face destes homens. Foi fogo de artifício, com o lado visual a contar muito naqueles cinquenta minutos, mas nunca se perderam as canções no meio da máquina oleada e festival que é a banda de Miguel. Grandioso na entrega e na forma, a melhorar no conteúdo.

Run The Jewels

Promovidos ao palco principal, EL-P e Killer Mike trouxeram um alinhamento substancialmente diferente do que haviam apresentado em 2015. O  concerto desta edição mostrou uns Run The Jewels novamente destemidos e concentrados naquele que foi até hoje o seu disco de êxitos, Run The Jewels 2. O factor “palco grande” não atormentou, mantendo o formato tradicional de um dj e dois mc’s (raro nos ditos concertos “maiores” das estrelas do hip-hop) e rejeitando-se o célebre truque de começar com os êxitos – os três primeiros temas foram, para alguns, uma absoluta novidade. Volvida a publicidade ao novo disco, chegou a hora dos singles; de Blockbuster Night Part 1 a Lie, Cheat, Steal, a setlist foi abrindo caminho para as ditas toadas elogiosas entre músicas, umas encenadas, outras genuínas, com kumbayas e mensagens fortes (estas sim, com maior sentido de oportunidade) a manter acesa a chama do concerto. Verdadeiros O.G’s, os Run The Jewels aguentaram os cornos do toiro de frente e as massas aprovaram, com cartazes e cânticos lá bem no alto a surgir amiúde. Um caso de sucesso por estas bandas, está visto.

Justice

Em 2006, os Justice ocupavam um pequeno canto do cartaz do festival Heineken Paredes de Coura. Em 2017, Xavier de Rosnay e Gaspard Augé podem gabar-se de estar numa posição cimeira desde o último encontro, curiosamente em Paredes de Coura. Os visuais da banda, atractivos desde o início, são agora tão importantes quanto a música do duo. Do início ao fim, vão subindo e descendo led’s e focos de luz, balançando-se num espectáculo circense sobre a banda e pulsando ao ritmo dos bpm que teimavam em crescer. Ainda bem que pagámos bilhete para viver o Audio, Video e Disco dos Justice. Uma galeria de arte em que vale a pena entrar.

Felizes na escolha do alinhamento, os Justice colaram novos temas, como o introdutório e muito bem conseguido Safe and Sound, aos clássicos, sem se perderem pelo caminho; felizmente, os temas de Woman prestam-se a isso, mantendo o concerto no ritmo agitado do electro rock, sem clássicos datados e novidades ignoradas. A cada dez minutos, o duo dispara um single mais forte do que o outro. Quando pensávamos que as fichas estavam gastas, já nas curvas finais, aparecia outro refrão ou riff capaz de agitar as águas do Douro e os corpos no meio da multidão. Augé e Rosnay evitaram, a todo o custo, o registo best of, que seria certamente mais seguro pela sua previsibilidade, mostrando que continuam bem presentes no mundo dos vivos, com ideias para explorar e coisas para dizer. É preciso coragem, mas sobretudo engenho para tomar uma decisão destas. Compensou. Longa vida aos franceses, que parecem, e bem, querer tudo menos revivalismos e reencarnações.

Dia 9

Pond

Outro caso de ascensão (quase) meteórica. Desde 2014, quando se estreou no Parque da Cidade, a banda do frontman Nick Allbrook tem vindo a afastar-se cada vez mais das luzes incandescentes dos Tame Impala. Com The Weather, sétimo disco de originais, o som dos Pond é cada vez mais detalhado e costurado à medida dos quatro músicos, não deixando margem para grandes comparações. Em palco, os Pond foram responsáveis pelo concerto mais enérgico do festival, chegando endiabrados com 30000 Megatons e continuando de imediato com Elvis’ Flaming Star. Waiting Around for Grace, com alguma surpresa, acabou por ser o tema da tarde, com uma energia que nenhum dos outros singles conseguiu ir buscar, talvez pelo bem executado crescendo inicial e excelso som guitarras distorcidas. Na recta final, com gargantas gastas ao segundo concerto da tarde, Don’t Look At The Sun Or You’ll Go Blind consumou a festa, já com uma plateia cada vez mais extensa. Allbrook, genial, possivelmente entregue e vindo de outra galáxia, ofereceu sete intensos minutos de riffs pujantes como brinde final. Grandioso!

Whitney

Gostávamos de dizer que foi um concerto único, completamente distinto das duas actuações da banda em Portugal nos últimos 9 meses, mas não conseguimos nem podemos. No regresso dos Whitney mantiveram-se os beijos do vocalista e baterista Julien Ehrlich ao baixista Josiah Marshall, a parceria com Kenny Smith dos King Gizzard and The Lizard Wizard para tocar Red Moon na harmónica, e grande parte do alinhamento que já havia rodado em Paredes de Coura (convém dizer, com alguma justiça, que o caso do Vodafone Mexefest foi diferente, já que Ehrlich e Max Kakacek , à desgarrada, brindaram o público com covers de Bob Dylan, FJ McMahon e Dolly Parton, numa noite completamente improvável). No entanto, ninguém pode acusar o sexteto de trazer um espectáculo propenso ao bocejo. De directa, os músicos gastaram-se até onde puderam, a fim de não defraudar o público luso, fiel como poucos. Com momentos altos aqui e ali, foi No Woman que reuniu a multidão para uma cantoria final à altura dos Whitney, de quem se percebeu termos vaga saudade. Os rapazes que regressem quando quiserem, mas importa ir dando a vez a outros, até para que não se gastem os discos (sobretudo quando ainda só se pariu o primogénito, como acontece com a banda de Light Upon The Lake).

Angel Olsen

Belo e torrencial. Foi assim o concerto de Angel Olsen, Luke Norton, Emily Elhaj, Josh Jaeger, Paul Sukeena e Heather McEntire no Parque da Cidade. Os nomes dos membros da banda, questiona-se o leitor, estão aqui porque é impossível saltar-se-lhes por cima. Olsen resguardou as canções delicadas e cheias de pormenor com estes soberbos músicos, numa escolha mais do que acertada. Jogando o trunfo Shut Up and Kiss Me logo de início, torna-se difícil manter um concerto com tantas alterações de dinâmica (ao contrário dos Cigarettes After Sex, Angel Olsen usa e abusa das subidas, onde está a catarse, e das descidas, em que passamos perto do lamento), dada a elevada probabilidade de as canções não desenvolverem e ficarem presas no mesmo registo, coisa que não aconteceu.

A generalidade dos temas, de Acrobat a Woman, foi empolada por esta mistura entre a garra das guitarras borbulhantes e as percussões tocadas com mãos de veludo. Evitou-se a valente seca que muitos previam, mas não só por causa da banda. Com uma frontwoman bem disposta e a evitar dispersões da plateia, fazendo as pausas necessárias para contar, por exemplo, como conheceu Bon Iver e ganhou uma nova amiga na piscina, os temas ganharam a jovialidade e frescura que parecem faltar em disco. Destaque óbvio para Windows, provavelmente o melhor final de concerto de todo o festival. Fosse agarrada pelo público e Olsen teria saído nos ombros de todos nós.

Sleaford Mods

Ao terceiro concerto em Portugal num espaço de três anos, com três discos e três alinhamentos diferentes, podemos confirmar que os Sleaford Mods são um autêntico fenómeno de eficácia na composição (não que a situação política no Reino Unido não tenha ajudado, pelo menos na parte das letras). Tendo “English Tapas” pronto, Jason Williamson e Andrew Fearn fizeram-se novamente à estrada, com novos “hot topics” para contestar – desta feita são a internet, o brexit, a cultura de ginásio e o desdém pelo sucesso alheio são os principais protagonistas da setlist, fielmente representados ao vivo por Messy Anywhere, Snout, Army Nights e Just Like We Do, respectivamente.

Apresentando o disco quase na íntegra — apenas quatro temas ficaram de fora —, pouco mais trouxe o duo de Nottingham na bagagem do que os singles, eficazes e bem recebidos, Tied Up In The Nottz e T.C.R. Sem inventar, Fearn mantém-se igual a si próprio, agarrado à cerveja enquanto dança em frente a um computador portátil. Williamson, liricista com tendência para a coceira, também não quis fazer diferente, aproveitando, como de costume, para descascar em tudo e em todos, usando o público como o seu grande aliado. Com a raiva de sempre, fez-se rap consciente contra os próprios dos ingleses, responsáveis por um dia “péssimo”, graças à vitória de Theresa May e dos Conservadores; Donald Trump, com o convenientemente nomeado Tweet, Tweet Tweet (ainda que a faixa seja anterior à sua eleição), e até os pobres dos Teenage Fanclub, que estavam a fazer demasiado barulho e por isso levaram com um “pertencem ao passado e é lá que devem ficar”. Uma tarde de emoções fortes, pelo que dá para perceber.

Teenage Fanclub

Williamson tinha, em parte, alguma razão em relação aos fannies. Numa das mais fracas afluências ao palco Super Bock, os escoceses, protagonistas do principal revival do ano, perderam em muito para as bandas com quem estavam a competir (Sleaford Mods e Nikki Lane). No entanto, e no que toca à idade das canções, não há como apontar dedos. Start Again, tiro de partida para o concerto, era uma excelente canção em 1997 como o é vinte anos depois. As harmonias e os crescendos continuam no ponto, sem sinal de cansaço ou desgaste. Vítimas de alguma ignorância e do fenómeno da “banda de culto britânica”, como os RIDE e os Stone Roses já haviam sido em 2012 e 2015, os Teenage Fanclub mereciam mais público do que o que efectivamente tiveram, como se percebeu por Ain’t That Enough, já aconchegado ao vivo pelas gentes regressadas da hora de jantar. Com o anfiteatro natural mais composto, I’m In Love, música com um punhado de meses, e uma das mais aplaudidas da noite, garante-nos que nada vai mal na banda de Norman Blake  tão deliciado que estava a cantar a meias com Raymond McGinley e Gerard Love, uma maravilha de se ver. The Concept fechou a loja com classe, sem grandes coros, mas com direito dois dos mais emblemáticos versos já escritos na história do rock n´roll (“Still she won’t be forced against her will/ Says she don’t do drugs but she does the pill”) a dar entrada para dois solos de guitarra que ainda hoje ressoam nos ouvidos de quem escreve isto. Que boa surpresa, esta não surpresa.

Julien Baker

A par com Elza Soares, miss Baker foi responsável pelo concerto mais emotivo de todo o festival. Mulher do punk que gosta de canções tristes, assaltou-nos os corações, amontoando-os no palco à medida que iam quebrando. Os concertos da jovem americana são sempre uma prova de fogo para tipos e tipas moles, que derretem como manteiga na frigideira, mas de uma beleza superior, rara. Mais do que a voz de anjo, com subidas aos agudos que invejam muita diva do pop, são as letras, aguçadas como navalhas, que nos fazem levar as mãos à cabeça e perguntar como é que alguém tão jovem pode ter tanta tristeza e talento dentro de si. Dedilhando a guitarra repleta de efeitos, a vocalista dos Forrister deixou claro à primeira música que estava ali para causar estragos – nas linhas iniciais de Sprained Ankle ouve-se uma voz frágil por detrás de palavras demasiado fortes: “wish I could write songs about anything other than death”. Haverá melhor declaração de intenções para um concerto destes?

Sorumbática, Baker despeja-nos no seu poço de amarguras, onde ouvimos Vessels e Rejoice, já com as primeiras lágrimas a tombar.  Resultado? Chovem declarações de amor e louvores aos Dunkin’ Donuts, perdição da cantora, à semelhança do que acontecia nos primeiros concertos de Mac Demarco com os cigarros Viceroy. Entre Good News e Go Home, tempo houve ainda para elogiar as várias bandeiras LGBT no público – Baker é uma activista no campo dos direitos das minorias sexuais –, dando lugar a um dos mais simbólicos e sentidos momentos da noite. Na despedida, com momentos A cappella, a menina do Tennessee entregou Something, última sova entre outras dez (“I can’t think of anyone, anyone else”, berraria até quase lhe faltar a voz), mas ainda mais potente do que as restantes. Os aplausos, à saída, são dos mais longos que ouvimos nestes três dias. E com razão.

Hamilton Leithauser

Se já era amor em Walkmen, por que raio se havia de extinguir agora? Leithauser, sorridente como sempre o vimos nas suas passagens por Portugal, pegou na guitarra e, como o bom trovador que é, trouxe as moças e moços para junto de si, ensinando também aos descrentes, poucos por sinal, uma coisinha ou duas sobre a escrita de canções. Esperneou, gritou e encantou (talvez mais a última do que as anteriores), sempre com a voz suja, mas sem traço de bolor. Na ausência de Rostam, ex-baixista e teclista dos Vampire Weekend, com quem lançou I Had a Dream That You Were Mine, o cantor correu o disco de uma ponta à outra, deixando apenas Alexandra, que bem se destacou entre as restantes, a quem esperava um concerto diferente. A 1000 Times, balada que marca a paixão dos pueris Hannah e Clay, protagonistas da série 13 Reasons Why, foi um dos picos da actuação sólida e constante de Leithauser, com o público mais jovem a juntar-se a quem já trauteava as restantes novidades.

Num momento descontraído de quase stand up, Hamilton aproveitou para narrar a história verídica por detrás de The Bride’s Dad, tema resultante, como se percebe, de um episódio entre um sogro descontente com o futuro genro, cujos pormenores ficam reservados apenas a quem passou à hora certa pelo palco Pitchfork. Entregue a barrigada de riso do dia, o bom rapaz de Boston deixou as coisas em pratos limpos: 1959 Peaceful Morning, deram a noite (quase) por encerrada, primeiro com um momento digno de crooner, em que Hamilton Leithauser levou a voz aos píncaros da exaustão, e em seguida com uma entrada de piano à velha-guarda, sucedida do clímax com harmonias de voz e baterias em catadupa. Apaixonante, é e será sempre este Hamilton Leithauser.

Cymbals Eat Guitars

A grande surpresa do festival vem destes quatro nova-iorquinos. Com os amplificadores no 11, os Cymbals Eat Guitars deram outro tipo de sova (ver texto sobre Julien Baker) a quem se aguentou pela madrugada fora. Na sua estreia em Portugal, e mesmo com a casa praticamente às moscas, suaram as estopinhas, lançando-se a nove temas (tão pouco) com a tenacidade de quem está pronto para arrancar uma hora e meia de clássicos. Jackson, eficaz à moda do ex-goleador da Invicta, entrou de mansinho, crescendo para as mais orelhudas mas menos pacíficas Wish e Chambers e preparando-nos para a montanha russa de emoções viria a ser este debute.

É precisamente no equilíbrio entre o devaneio sónico e a canção inofensiva que a banda liderada por Joseph D’Agostino ganha pontos. O açúcar das faixas mais delicadas cola os que se afastam a todo o custo das guitarras barulhentas e em bloco, sendo essas mesmas guitarras a principal atracção de quem pouco ou nada liga a refrães chamativos e melhor acolchoados. Laramie, um cataclismo apresentado para um deserto de pessoas, não deixa que os músicos desanimem – em 10 minutos de catarse, a banda arranca numa epopeia de noise e feedback, em parte para si própria, já que do público partiu pouca ou nenhuma interacção, para depois receber meia dúzia de palmas. Destilados, mas contentes, os americanos voltam para casa com um carimbo a mais no passaporte e pouco mais do que isso. Foi uma surpresa (e das maiores) porque poucas bandas igualaram a qualidade técnica destes rapazes, mas também porque se esperava bastante mais de uma plateia que não chegou a aparecer. Talvez noutros festivais, ou em nome próprio, se lhes possa arranjar um horário ou palco mais convenientes, a fim de mostrarem justa e efectivamente o que valem.

Dia 10

EVOLS

“Estes tipos são portugueses?”, havia de perguntar alguém, incrédulo durante a actuação dos EVOLS. À primeira, a coisa engana: ensaiadas, as guitarras de Carlos Lobo, Vítor Santos e França Gomes são responsáveis por 80% do som da banda, bem estudado, eficaz, e daí tão pouco português. Também a voz de Santos é ela própria um embrulho agradável de vários sotaques, sem que nenhum deles se cole ao inglês de circunstância. Com quase dez anos de carreira, os vila-condenses fixaram um som que é só deles, embora beba de muita fonte, daí que Evols I e Evols II, dos quais se fez um apanhado geral no Parque da Cidade, soem coesos, ainda que separados por cinco anos de distância na sua composição.

De olhos postos no futuro, revelaram, do disco que está para vir, as faixas Shadow Death e Father Death, vivas e estranhamente apropriadas para um final de tarde solarengo. Longe de fazer mossa, mas competentes na sua arte, os EVOLS conseguiram o mais importante: entrar com confiança total, ou não estivessem as canções a soar “na batata”, num nos principais festivais do país, para cumprir o alinhamento de fio a pavio, sem deixar que vivalma se levantasse e colocasse a fatal questão da praxe: “mas que raio estão estes tipos a fazer aqui?” Isso já ninguém lhes tira.

Elza Soares

De dia, de noite, em nome próprio ou em festival, Elza Soares é em todas as ocasiões absolutamente deslumbrante. Especialmente tocada pela história da transexual Gisberta, morta de forma bárbara no Porto há onze anos, apelou, como nunca a tínhamos visto, à luta contra a homofobia e violência doméstica. Mandona, exigiu aplausos e barulho, muito barulho. Recebeu de volta muito, muito, muito barulho.

Disse, ao chegar, e em forma de canção, que queria cantar até ao fim (A Mulher do Fim do Mundo), e certo é que ninguém a deixou sair dali sem o fazer. Com o apoio incansável e por vezes ofegante de Guilherme Kastrup, Mestre Dalua, Rafa Barreto, Rovilson Pascoal e Marcelo Cabral (mais uma vez, não podemos ignorar os nomes de quem tanto fez por este espectáculo), incendiou as hostes com a provocante A Carne, apenas e só um preâmbulo para a explosão completa, consumada por Maria da Vila Matilde, Pra Fuder e Benedita, tríade de sexualidade e arrojo plenos, em especial a última, abençoada em palco pela habitual coreografia e performance de Rubi Waf, uma graça de se ver entre solos de guitarra que lembram os nossos Dead Combo e outras tantas guitarras lusófonas.

A não dança e o não festejo tornam-se expressamente proibidos, com Kastrup, maquinista deste comboio do jazz sambado, a acelerar cada vez mais as batidas por minuto, frenético e contagiante. Em 75 minutos de show – invulgar no formato de festival, dado que só os cabeças de cartaz costumam estar autorizados a ultrapassar a marca da hora – houve até margem para encore, com Volta Por Cima, versão de Paulo Vanzolini, a reactivar as energias antes de Pressentimento, tema mais doce, com cara de despedida. Nossa, que show, moleques.

Sampha

Sampha Sisay produz e canta, ao estilo de James Blake. Em concerto, no entanto, escolhe focar-se apenas na parte vocal — a acompanhá-lo estiveram um teclista, um percussionista e um sampler, responsáveis por lançar as faixas produzidas no estúdio londrino de Sisay —, forte, vitaminada e bem conseguida, como a actuação na sua generalidade. No entanto, e aqui o “mas” é um grande “mas”, parece que ninguém ensinou o jovem Sampha a fazer alinhamentos. Os primeiros vinte minutos da tarde foram mornos, morninhos, morníssimos, tanto que Too Much, “o hit”, mesclado entre a tranquilidade de Timmy’s Prayer e Under, passou ao lado de muitos, que já tinham saído, e de outros tantos que nem se atreveram a cantar.

Happens e Incomplete Kisses viraram por completo a página do concerto com quebras de tensão. A partir daí, a folia e desinibição chegam ao palco Super Bock, subindo o volume e a intensidade do concerto, ao ponto de fazer regressar os que inicialmente haviam debandado, mas também os que se aborreciam noutro palco. Custa dizê-lo, mas o Sampha que conhecemos, apesar se tratar da sua estreia, só apareceu à meia hora de concerto, restando-lhe 20 minutos que valeram efectivamente por uma noite inteira, sobretudo na passagem por Kora Sings e término com (No One Knows Me) Like The Piano, ponto alto do final de tarde. Podia ter sido muito mais do que um lusco-fusco, delirante como no sketch dos quatro humoristas portugueses, mas não o foi. Temos pena.

Metronomy

Para quê inventar quando se tem a prata da casa pronta a expor? Em modo “grandes clássicos”, os Metronomy seguiram o exemplo dos Radiohead, ao despacharem o novo disco (Summer 08) nos primeiros 15 minutos, lançando depois o concerto em modo piloto automático, com o alinhamento dito “best of”. O tiro só não saiu pela culatra porque tanto Back Together como Miami Logic e Old Skool honram o passado discográfico dos ingleses.

The Bay, sem surpresas, uniu a multidão de fãs e curiosos em frente ao palco NOS, como viria a acontecer nos singles seguintes. Dentro dos limites de velocidade permitidos (referência ao set acelerado dos Metronomy no NOS Alive do ano passado), I’m Aquarius, Love Letters e Corinne cumpriram o propósito de espicaçar os mais parados, depois transformados em sorridentes e dançantes seres humanos, a toque de uns pozinhos mágicos que flutuam entre a voz doce de Joseph Mount, as batidas virtuosas de Anna Prior – colocada à proa para interpretar, sem baquetas e na recta final, a cândida Everything Goes My Way – e as linhas de baixo encharcadas de groove por Olugbenga Adelekan, mestre da palhetada certa.

A tocata, como se diz a Norte, foi ainda abençoada por The Look e Reservoir, êxitos em muito distintos, embora unidos na sua independência do meio e formato. Passa-se a explicar: os Metronomy são uma das raras bandas sem discrepâncias entre as versões de estúdio e posteriores interpretações ao vivo. Eficaz, a banda de Totnes, consegue sempre que as suas canções funcionem no nosso carro ou à frente de quarenta mil pessoas, daí que os foguetes estejam garantidos à chegada dos principais singles, em especial The Look, um hino de millenials. Inflamada, a última noite do Primavera Sound deve muito a estes senhores e senhora. Sublime.

The Black Angels

Engolida pelo abalo de Aphex Twin, a noite dos Black Angels podia ter sido diferente, passasse somente o concerto para outra hora e outro cenário. Exilada no longínquo “.”, e há muito merecedora de um palco principal, a banda viu parte do seu público escapar por entre os dedos. Pior do que isso, porque os concertos se fazem para dez ou dez mil, foi a falha técnica que impossibilitou as já célebres projecções de vídeo, parte importante do espectáculo, transformando uma possível avalanche numa inofensiva luta de bolas de neve.

Com Death Song acabado de editar, os Black Angels alternaram entre os êxitos de Passover, disco de estreia e o mais bem sucedido da banda, e o último registo de estúdio. Demasiado baixas, as guitarras de Christian Bland e Alex Maas, que deviam “furar” logo de início, sobretudo em Prodigal Sun Currency, não surtiram efeito. Vendo Black Grease e Bad Vibrations a sucumbir à falta de entusiasmo geral, não temos outra opção senão regressar ao palco principal, frustrados de tanto pensarmos no que podia ter sido e não foi. Sem qualquer culpa, os texanos ainda tentaram lidar com a tríade de problemas (falhas técnicas, pouco público e som aquém da intensidade dos músicos) que lhes apareceu à frente, mas não deu. Não deu nesta, dará na próxima, esperemos.

Aphex Twin

As palavras escasseiam. Quando se cai no exercício ridículo e escusado de transpor para texto um espectáculo indescritível, acaba-se a dizer menos do que é suposto, fica-se sempre pela rama. O leitor em nada está obrigado a saber disso, mas aconselho-o a colocar-se na posição do escriba. O que é que se diz sobre um set amorfo, indecifrável, com flutuações aleatórias entre o trance apaziguador e o drum’n’bass capaz de fazer estalar uma batalha campal (sendo 75% do alinhamento dedicado à parte da batalha campal)? Vale a pena ordenar caracteres de uma forma coerente e lógica para falar de um concerto que obedece apenas e só à vontade, método e gosto do incompreensível e por isso tão especial Richard D. James? Deve-se tentar descrever o lado visual deste abalo sísmico, que viu membros do público deformados nos ecrãs, derretendo digitalmente, como se de lava se tratasse, ganhando um lugar junto à estrelas, que é como quem diz Salvador Sobral, Assunção Cristas, Marcelo Rebelo de Sousa ou Lili Caneças?

A resposta a estas questões tenderá para divergir entre quem lê, mas o escriba, curiosamente, tem duas à mão, prontas a escolher. Ora sirva-se o leitor da que mais lhe aprouver.

Resposta a) Não há palavras para o que não é lógico e nos ultrapassa. Assim sendo, o melhor mesmo é o silêncio

Repsosta b): “Verdes, estroboscópicas, inimigas de epilépticos. Invisíveis a quem consome os decibéis guiado pela deusa Fantasia de Jukovski. É ela quem oferece a ponta dos dedos. Depois mantêm-nos lá. Lá onde? Gotas de água. Parecem gotas de qualquer coisa, a julgar pelo som, pelo silêncio. É o desfiladeiro das primeiras páginas de Pedro Páramo. Los Colimotes, diz-se ter «uma vista extraordinariamente bela sobre uma planície verdejante, um tanto amarelada pelo milho maduro.» Não é bem lá que ficamos retidos, mas quase. Há uma picareta, «um eco que se vai perdendo». Circuito dobrado, mais um curto circuito. «A velocidade de propagação do estímulo nervoso na membrana de um neurónio varia entre 10cm/s e 1m/s.» Estico a perna, caio. Uma nave, gentes. Parece comandá-las um homem que comanda máquinas que comandam pessoas. Cá é igual a lá, só mudam as cores, agora azuis.”

Fotos de: Nuno Diogo/Shifter

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