WOOL: a arte urbana que ficou na Covilhã para quem (ainda) não viu

A Covilhã voltou a receber o WOOL, festival de arte urbana, após o interregno de um ano.

Depois de um ano de interregno, Covilhã voltou a receber o festival de arte urbana WOOL e pode dizer-se que valeu a espera. De 3 a 11 de Junho, os artistas Bosoletti (Argentina), Doa Oa (Espanha), HalfStudio (Portugal) e Third (Portugal) deram ao centro histórico da Covilhã o ar da sua graça em cinco murais e uma instalação, inspirando-se na paisagem industrial, cultural e natural daquela cidade do interior.

O negativo/positivo de Bosoletti

O artista argentino Bosoletti respeitou o estatuto de “cabeça-de-cartaz” do WOOL e executou uma peça dicotómica que pode ser vista a positivo e fotografada a negativo. A ideia acarreta uma mensagem poderosa e fácil de explicar: perante um olhar e observação sempre muito negativa que temos perante a nossa sociedade, as nossas cidades, Bosoletti pretende que olhemos um pouco mais além, com mais atenção, sendo esta a única forma de percepcionar o positivo, a beleza que nela existe.

Título: “Arrebatamento”
Local: Rua dos Bombeiros (junto da Residencial Panorama)

A natureza de Doa Oa

Já a espanhola Doa Oa recuperou duas espécies de plantas utilizadas no tingimento tradicional (de azul e vermelho) dos tecidos na Real Fábrica dos Panos da Covilhã, dando-lhes lugar de destaque na sua peça. O mural enquadra-se na sua temática de trabalho, ligada à floresta e Natureza. A acompanhar cada pintura encontramos em rodapé o nome da planta ilustrada o que é sempre uma nova forma de consciencialização para as diferentes espécies e a sua utilidade.

Título: “Indigofera Tinctoria + Rubia Tinctorium”
Local: Largo Sr. do Rosário

Sou a Mulher, sou a Terra. Sou o sangue que brota do ventre.
Sou a alma que foi raptada, a seiva vital das raízes.
Sou o que resta da tua sedução, a luz reflectida na caverna.
Sou a ovelha que carrega o cordeiro, e tudo em volta à pastagem é teu.

– Giuseppina Ottieri

A mensagem dos HalfStudio

Especializados em lettering, na pintura de palavras e com a constante preocupação de deixar mensagens que cativem as comunidades por onde passam, os portugueses HalfStudio deixaram-se levar pela inspiração de um fado de Amália Rodrigues – “Covilhã, Cidade Neve” – sobre a cidade da Covilhã, a sua tradição de lanifícios e os seus costumes, e que ainda hoje é um hino da e para a cidade. O trabalho dos HalfStudio no WOOL traduziu-se num grande mural, composto por duas paredes e três composições diferentes, e ainda, numa instalação em néon.

Título: “Cidade Flor” + “Em ti mora o meu amor” + “Amor”
Local: Escadinhas do Castelo (junto do Centro de Diagnóstico da Covilhã)

Título: “Cidade Neve”
Local: espaço comercial abandonado junto da Igreja de Santa Maria

O tridimensional Third

Apaixonado pela representação de estruturas tridimensionais e biónicas, que reproduz de forma exímea com um cunho realista, Third não podia ter deixado de se apaixonar pelas dezenas de teares e outras máquinas que descobriu na Covilhã. O mural que deixou no centro da cidade é uma ode a todas as máquinas que alimentavam a indústria têxtil da cidade.

Título: “Coração
Local: Rua Capitão Alves Roçadas / Rua de São Tiago (antiga Farmácia Soares)

As outras artes e um mini-filme

Como habitual, a programação da edição de 2017 do WOOL não se esgotou nos murais que ficam agora na cidade enquanto o tempo deixar. Houve conversas com os artistas, visitas guiadas para conhecer as obras em pormenor, a exibição de um documentário – Sky’s The Limit, de Jérôme Thomas –, um concerto de Noiserv e duas exposições. Uma delas, intitulada “Wool Meets Roubaix”, resultante de uma parceria entre a WOOL e o espaço criativo Le Non Lieu, situado em Roubaix, França. Esta colaboração está ainda no início e terá como ponto alto a pintura de dois murais pelos artistas Samina e Tamara Alves naquela cidade francesa.

Outro destaque deste WOOL foi a realização do LATA 65, projecto que estende a arte urbana às gerações mais idosas, pela primeira vez na cidade que inspirou a sua criação.

O realizador André Santos, autor do documentário Pôr A Minha Música No Ouvido, um documentário de iniciativa própria sobre os Wet Bed Gang, grupo de rap de Vialonga, foi também convidado a apresenta a sua visão do Festival, o que culminou num curtíssimo filme intitulado Covilhã Manchester a sua visão do WOOL 2017.