Amnistia Internacional denuncia “irresponsabilidade” na ofensiva a Mossul

Neste conflito, contabilizam-se mais de 600 mil desalojados e perto de 6 mil mortos.

O título da notícia no site da Amnistia Internacional não deixa espaço para dúvidas: a batalha entre a Coligação liderada pelos EUA, soldados iraquianos e o Daesh criou uma catástrofe civil no sul de Mosul.

Tendo por base um relatório recentemente publicado pela mesma instituição, o apelo é para que se torne publica a escala que o conflito atingiu naquela cidade iraquiana, uma das mais importantes, até há poucos dias sob domínio do Daesh. No relatório é exposta em síntese a realidade que tem abalado Mosul desde Outubro de 2016 até aos dias de hoje, numa batalha descrita muito simplesmente como “a qualquer custo”.

“A escala e a gravidade da perda de vidas de civis durante a operação militar para recuperar Mosul deve ser imediatamente reconhecida publicamente junto das mais altas instâncias governativas do Iraque e dos estados que fazem parte desta coligação liderada pelos EUA”, afirmou Lynn Maalouf, Director de Investigação para o Médio Oriente da Amnistia Internacional.

É três dias depois do Primeiro Ministro iraquiano ter decretado a conquista de Mosul que a notícia surge revelando o outro lado da medalha e o verdadeiro preço do conflito. Para a Amnistia é claro que houve “irresponsabilidade” na ofensiva perpetrada pela aliança ocidente-iraque e que o preço foi pago em vidas e por habitantes da cidade de Mosul. Ao todo contabilizam-se mais de 600 mil desalojados e perto de 6 mil mortos.

Segundo o relatório, a estratégia adaptada pelos terroristas exigia uma adaptação táctica que não foi considerada, especialmente nas ofensivas feitas a partir de Janeiro de 2017. Os ataques desproporcionais e os alvos incompreensíveis ou armas inadequadas são exemplos de erros apontado no relatório feito a partir de 151 entrevistas a residentes de Mosul, especialistas e analistas, e de dados dos 45 ataques documentados.

Da parte da coligação já surgiu resposta através do Coronel Joe Scroca. Em declarações à Associated Press, parece não dar muito crédito ao problema: “A guerra não é agradável e fingir que deveria ser é uma tolice e coloca a vida de civis e soldados em risco.”

O relatório também não poupa críticas ao modus operandi dos terroristas, com quem, no entanto, não há tanta esperança de poder estabelecer um diálogo, garantindo o privilégio dos direito humanos. A estes reserva-se a principal crítica e, no fundo, base de todo problema – por sequestrarem e obrigarem civis a mudar-se para zonas de conflito, dificultando a penetração das tropas ocidentais e simultaneamente o uso de explosivos de larga escala.

O caso não deve ficar por aqui, uma vez que no rol de denúncias a Amnistia Internacional levanta a mesma a questão sobre se algumas dacções não poderão configurar crimes de guerra, algo que deve merecer atenção nos próximos dias.


Actualização (15 de Julho de 2017):

As imagens recolhidas pelo satélite da Digital Globe e cedidas à imprensa são demonstrativas da onda de destruição que varreu a cidade de Mosul entre 2015 e 2017.

Mesquita de Al-Nuri em 2015
Mesquita de Al-Nuri em 2017
Hospital no Sudeste de Mosul em 2015
Hospital no Sudeste de Mosul em 2017
Zona do Hospital e principal Hotel de Mosul em 2015
Zona do Hospital e principal Hotel de Mosul em 2017