Cimeira do G20: o mundo está em cima da mesa

A Alemanha recebe os líderes das maiores economias mundiais sob forte tensão.

Angela Merkel é a anfitriã de 20 líderes das principais economias mundiais nos dias sete e oito de Julho. Em cima da mesa, além dos habituais assuntos de estabilização e cooperação no sistema económico, vão estar temas como as migrações e o terrorismo, o comércio global e o combate às alterações climáticas. O evento é também uma oportunidade para diversos encontros bilaterais.

Créditos: Reuters / Wolfgang Rattay
Créditos: Reuters / Wolfgang Rattay

Apesar de reunir chefes de Estado de vários pontos do planeta, as câmaras estão apontadas para uma elite política que tem marcado a atualidade: Donald Trump, Angela Merkel, Vladimir Putin e Theresa May são as estrelas da companhia, cada um com o seu devido papel em palco. Sob o lema “construir um mundo interconectado”, a cimeira enfrenta o desafio de amenizar um clima de ruptura: as negociações do Brexit, as trocas de acusações entre Trump e Putin ou as fragilidades das relações diplomáticas entre Berlim e Ancara vão conhecer novos contornos durante estes dois dias.

O 45º presidente norte-americano tem a missão de consolidar as alterações da política externa dos Estados Unidos e defender a posição do país em determinadas questões internacionais. Numa reunião com Angela Merkel, anterior à cimeira, Trump já tinha evidenciado divergências quanto ao livre comércio, a rejeição do proteccionismo ou medidas de minimização dos efeitos das alterações climáticas. Contudo, nenhum destes temas ficou fechado, sendo abordados durante a cimeira em Hamburgo.

Créditos: Reuters / Pool
Créditos: Reuters / Pool

A escalada dos ânimos na Península da Coreia faz parte também da agenda das sessões de trabalho. A comunidade internacional foi incapaz de ignorar o recente lançamento de um míssil balístico intercontinental pelo regime de Pyongyang, assim como Rússia e China, habituais opositores da política militar americana face à Coreia do Norte, que desta vez também se juntam à lista de condenações. A ação do país tem motivado uma cada vez maior preocupação e impaciência dos seus vizinhos, Coreia do Sul, China e Japão, e dos Estados Unidos, e terá certamente lugar à mesa do G20.

“É uma vergonha que eles estejam a comportar-se desta maneira. Estão a comportar-se de uma maneira muito, muito perigosa, e alguma coisa tem que ser feita em relação a isso”, diz Donald Trump.

Estados Unidos e Coreia do Sul já responderam com testes de igual artilharia, por ordem do presidente sul-coreano, Moon Jae-in. Entretanto, os dois países, em conjunto com o Japão, declararam a imposição de sanções à Coreia do Norte. Num comunicado, os representantes das três nações mostram a necessidade de haver “sérias consequências para as acções desestabilizadoras e provocatórias [da Coreia do Norte]”, concordando em pressionar o Conselho de Segurança da ONU para atingir tal fim.

Créditos: Reuters / Carlos Barria
Créditos: Reuters / Carlos Barria

Sobre o muro que causou furor nos discursos de campanha do presidente norte-americano, Donald Trump reuniu-se com o presidente mexicano, Peña Nieto, e voltou a mostrar não ter dúvidas: é o México quem vai pagar pelo muro que poderá separar Estados Unidos dos seus vizinhos latinos.

Putin e Trump: tréguas na relação, tréguas na Síria

O regime de Kim Jong-un é um assunto sensível entre três potências mundiais: Estados Unidos, Rússia e China. Com os dois últimos a não se identificarem com as linhas de orientação americanas no assunto em questão, as relações entre os países têm arrefecido. Washington e Moscovo já foram protagonistas de uma “Guerra Fria”, cujas cicatrizes ainda são visíveis nos dias de hoje.

Créditos: Reuters / BPA
Créditos: Reuters / BPA

O encontro entre Vladimir Putin e Donald Trump foi dos mais esperados nesta cimeira. As políticas de ambos os países chocam no Médio Oriente, na Ucrânia e na Península da Coreia, o que motiva uma troca de acusações regular. Na recente visita à Polónia e na companhia de Andrzej Duda, presidente polaco, o líder americano frisou a sua oposição à atitude russa em alguns cenários de conflito.

“Apelamos à Rússia para que acabe com as ações desestabilizadoras na Ucrânia e noutros lugares e que termine o seu apoio a regimes hostis, como o sírio e o iraquiano”

A reunião prevista para 30 minutos ultrapassou as duas horas. Entre outros assuntos, a ingerência russa nas eleições americanas, questionada desde tal momento, foi desmentida por Putin. Classificado como um “obstáculo significativo” por Rex Tillerson, o secretário de Estado norte-americano comunicou que a reunião decorreu num ambiente saudável. “O encontro foi muito construtivo, a ligação entre os dois líderes ocorreu muito rapidamente”, afirmou o diplomata.

Já o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, sublinhou a conclusão geral da reunião: a inexistência de interferência de Moscovo nas presidenciais americanas.

“O Presidente Trump disse que entendeu as declarações claras de Putin que afirmou que não é verdade e que as autoridades russas não interferiram, e ele aceitou essas declarações”, aferiu o ministro russo.

Créditos: EPA / Michael Klimentyev
Créditos: EPA / Michael Klimentyev

Ainda no mesmo encontro, chegou-se a um acordo de cessar-fogo na Síria. As regiões de Daraa, Quneitra e Suwayda, no sudoeste do território sírio, vão ser declaradas “zonas seguras” a partir do próximo domingo. Numa fase inicial, a polícia militar russa está encarregue da segurança das áreas indiciadas. Rex Tillerson sublinha a atitude de cooperação dos dois países: “Creio que temos aqui a primeira indicação de que os EUA e a Rússia estão dispostos a trabalhar em conjunto na Síria. Como resultado disso, tivemos uma longa discussão a respeito de outras áreas em que poderemos continuar a trabalhar juntos”.

Theresa May tenta sarar feridas do Brexit

A cimeira é sinónimo de oportunidade de reforço de relações bilaterais e Theresa May, face a uma perda da maioria absoluta e à inimizade para com a União Europeia, procura novos parceiros e vantagens económicas.

Créditos: Lusa / Lukas Barth
Créditos: Lusa / Lukas Barth

Embora tenha conseguido um acordo com o Partido Democrático Unionista, da Irlanda do Norte, para a formação do governo que vai liderar o processo do Brexit, a sua posição no circuito político-económico continua vulnerável. A China de Xi Jinping é vista como uma opção forte.

Movida pelas questões ambientais, a líder do governo britânico juntou-se ainda aos amigos europeus na sensibilização de Donald Trump face ao Acordo de Paris.

Alterações climáticas e isolacionismo americano

Theresa May pode liderar o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, mas desta vez junta-se a Angela Merkel e Emmanuel Macron na missão de preservar o Acordo de Paris. Para tal, procuram garantir que Índia e China, dois dos países com maior índice de poluição atmosférica, não sigam as pisadas dos Estados Unidos, cada vez mais distantes do trilho internacional. Por outro lado, embora seja uma possibilidade mais remota, ainda há a esperança de que a decisão do governo americano não seja irreversível.

“Acredito que a mensagem coletiva será a importância dos Estados Unidos voltarem a este acordo”, afirmou Theresa May, em declarações à BBC.

Créditos: Lusa / Ian Langsdon
Créditos: Lusa / Ian Langsdon

A oposição de Donald Trump ao Acordo de Paris é fomentada pelas condições específicas para cada país que, segundo o presidente, acarretam desvantagens para os norte-americanos. Trump considera ser um “acordo desvantajoso para os Estados Unidos e apenas com vantagens para outros países. É contra os trabalhadores americanos, que eu adoro”, justificando assim a rejeição da proposta. Apesar da saída dos Estados Unidos, a chanceler alemã, Angela Merkel, mantém-se positiva e garante que a maioria dos países do G20 está a favor do Acordo de Paris.

Este distanciamento dos Estados Unidos culmina com a preconização de uma imposição de taxas alfandegárias elevadas às importações da União Europeia e da China, alguns dos maiores rivais da economia americana.

“O tempo em que podíamos depender completamente dos outros de certa forma acabou. Apercebi-me disto nos últimos dias. Nós, europeus, temos verdadeiramente de tomar o nosso destino em mãos. Temos de ter noção de que temos de lutar pelo nosso futuro sozinhos, pelo nosso destino enquanto europeus”, diz Angela Merkel, em relação à posição norte-americana.

Ligação Ancara-Berlim sem vôos directos

Apesar da Alemanha concentrar uma das maiores diásporas turcas do mundo, o país já viveu melhores dias na sua relação com a nação da Ásia Menor. Angela Merkel reuniu-se durante uma hora com Erdogan, presidente turco, onde discutiram, entre outros temas, a relação dos dois países.

Créditos: Deutsche Welle
Créditos: Deutsche Welle

Neste momento, Turquia e Alemanha mantêm uma relação cordial forçada pelo protocolo. Os países divergem em vários casos e têm reagido contrariamente às expectativas um do outro. Erdogan acusa o governo alemão de não agir eficazmente sobre os apoiantes do movimento de independência curdo na Alemanha (o qual é proibido em ambos os países). O líder da Turquia mostrou também desagrado ao ser impedido de discursar à diáspora turca no país germânico, principalmente antes do referendo para reforço do poder executivo.

Já a Alemanha pede a libertação de Deniz Yücel, correspondente do jornal alemão Die Welt, pelas autoridades da Turquia, o jornalista que é considerado um terrorista e agente infiltrado do governo germânico pelo presidente Erdogan.

O acordo entre a Turquia e a União Europeia quanto à política de migração e de refugiados foi também um dos assuntos revistos na reunião.

Tusk diz “não” à migração ilegal

Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, salienta a importância da migração e da questão dos refugiados na cimeira do G20. O líder europeu destaca essencialmente a necessidade de combater a migração ilegal, levada a cabo por grupos de tráfico de migrantes. O objetivo é sensibilizar as demais nações para a imposição de sanções a estas organizações que actuam à margem da lei.

Créditos: Geert Vanden Wijngaert
Créditos: Geert Vanden Wijngaert

A migração ilegal no Mediterrâneo oriental está a ser controlada pelas autoridades turcas e dos Balcãs, mas tal não sucede noutras regiões do mar que separa a Europa de África. Donald Tusk critica os países que não aplicam tais sanções: “Devemos, pelo menos, tentar convencer os nossos parceiros a serem mais sérios e menos cínicos em relação aos traficantes e aos negócios sujos”.

A contestação violenta à cimeira do G20

Como já foi noticiado pelo Shifter, Hamburgo está longe de ser uma cidade pacífica neste momento. As manifestações contra a cimeira do G20 sucedem-se, pelo que as autoridades alemãs garantiram a presença de cerca de 19 mil polícias no local.

Os protestos são marcados pela sua organização nas redes sociais, como o Twitter, mas sobretudo pela violência gerada, ao contrário do exemplo que começámos por divulgar. Vários grupos de manifestantes tentam bloquear os acessos das comitivas políticas ao centro de congressos. Face à resistência dos protestantes, as autoridades recorrem aos canhões de água e à carga policial, de modo a afastar elementos considerados mais perigosos, como indivíduos afectos aos “Black Blocks”. Os resistentes reagem com o arremesso de objectos, incluindo cocktails Molotov, tal como noticia o Jornal de Notícias.

Créditos: Ronny Wittek
Créditos: Ronny Wittek

Até ao momento, desde o início dos incidentes, a polícia alemã contabiliza 111 agentes feridos e 44 pessoas detidas, segundo o Diário de Notícias. As autoridades já requisitaram reforços.