Porque me sinto feliz com o encore de Tiago Rodrigues no Dona Maria II

A verdade é que eu não era grande adepto de teatro, preferia ler em casa sem ter de participar numa celebração pomposa.

Tiago Rodrigues Dona Maria II
Fotografia da Peça Ifigénia © Filipe Ferreira

Deve ter sido há cerca de três anos, sentava-me na primeira fila do Dona Maria II, na reinterpretação de Tiago Rodrigues do texto clássico “Ifigénia”. Era uma entrada ambiciosa como director, num teatro que é uma instituição portuguesa. Talvez por conhecer uma das actrizes em palco, ela aproximou-se de mim e começou a fazer-me perguntas sobre a peça, sobre o que me lembrava, sobre o que achava do papel de Agamémnon, se achava bem. Ao meu lado, e convém dizer que era domingo, senhoras bem arranjadas perguntavam-me em choque se achava isto normal – actrizes prestes a entrarem em cena a interagirem assim com o público. Respondi-lhes que momentos deste género, disruptivos, são só uma das características do teatro de Tiago Rodrigues.

Amigos e conhecidos já devem conhecer o meu fascínio pelo dramaturgo. Arrasto-os com demasiada frequência para as suas peças. A verdade é que eu não era grande adepto de teatro, preferia ler em casa sem ter de participar numa celebração pomposa. A minha namorada ficou chocada quando lhe disse isto, disse-me que tinha de ver uma peça do Tiago Rodrigues. Foi uma das melhores prendas que alguma vez me deu. Desde então vi alguns dos seus êxitos, como a “Tristeza e Alegria na Vida das Girafas”, “Três Dedos Abaixo do Joelho”, arrependo-me de nunca ter apanhado “Stand-up Tragedy.”

Na verdade, essas primeiras peças que vi dele deram-me uma vontade cada vez maior de ir ao teatro. Descobri que existiam pessoas originais, criativas, a darem-nos textos num formato espectacular, a permitirem que fizéssemos parte de uma celebração colectiva do texto, da interpretação, do teatro. Comecei a frequentar o Dona Maria II antes do Tiago Rodrigues lá estar, tal como o São Luiz ou o Maria Matos. Os próprios espaços tornaram-se especiais, tanto pelas emoções que senti, como pelas emoções que partilhei. Para além da literatura e do cinema, o teatro tinha-se tornado parte da minha vida cultural, parte da minha vida.

Quando começou o período de Tiago Rodrigues a conduzir o Dona Maria II, mentalizei-me que ia ver todas as peças que lá estreassem, o que se revelou impossível, mas ainda assim um bom desafio. Para além do ciclo de Ifigénia, Agamémnon e Electra, gostei particularmente de Bovary, outra interpretação de um texto clássico com um twist. Fiquei fã d’A Constituição, mas não só. Comecei a frequentar a Sala Estúdio em busca de um tipo de teatro mais transgressivo, mais despreocupado com as regras e com os pressupostos da criação teatral. Levei uma tareia n’Os Veraneantes do Nuno Cardoso, três horas de coscuvilhice em jeito de trama psicológica russa. Ficaria arrependido se não tivesse passado por isso.

Apesar de não ter visto tudo o que gostaria, senti o teatro como mais do que arte em movimento, senti dinâmica na sua evolução e postura. Senti-me um espectador, com todas as vantagens e virtudes que isso pode (e deve) trazer. Senti também as críticas das senhoras bem-vestidas e bem-penteadas, sobre como o melhor das peças eram o quanto colavam ao texto clássico. Senti-me bem por discordar delas, ou melhor, por poder discordar delas. Sinto-me feliz com mais três anos de Tiago Rodrigues no Dona Maria II.


Fotografia de Filipe Ferreira - http://www.tndm.pt