Kiko Dinucci e o seu inimaginável primeiro disco

Um inimaginável registo que funde influências tão contrastantes como o samba e o pós-punk, e surge num dos melhores momento de forma do músico Brasileiro.

O primeiro (!) disco de originais de Kiko Dinucci chegou a 14 de Abril mas só agora sentimos que conhecemos este trabalho ao ponto de o recomendar. Cortes Curtos é, reforçando a nota do título, um inimaginável registo que funde influências tão contrastantes como o samba e o pós-punk, e surge num dos melhores momento de forma do músico brasileiro – um nome ainda marginal no lado de cá do Atlântico.

A naturalidade com que Kiko Dinucci confere intensidade poética e musical a situações do quotidiano, característica que já o acompanha de outros registos como Na Boca Dos Outrosganha uma nova dimensão em Cortes Curtos. Arrojados e indescritíveis arranjos servem de transição entre simples mas potentes metáforas, evocando no ouvinte momentos de êxtase com tanta facilidade como de suspense e mistério. É um disco que tão depressa nos embala com suaves melodias como a seguir nos exalta com estridentes guitarradas.

No álbum, as faixas surgem sem o habitual intervalo entre elas, uma intenção que não é mais que um cruzamento das várias vertentes do artista. Kiko Dinucci é também realizador e foi com essa visão que imaginou os 39 ininterruptos minutos de Cortes Curtes. O nome é também ele influenciado pela sétima arte, sendo inspirado no filme Short Cuts, de Robert Altman.

Cortes Curtos contou com Marcelo Cabral nos baixos e sintetizadores e Sergio Machado nas baterias. O álbum tem também participações de Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Ná Ozzetti, Suzana Salles, Guilherme Held, Thiago França, Rodrigo Campos, Guilherme Valério e Rafa Barreto.

Muitos dos convidados são nomes que nos habituámos a ver ao lado de Kiko Dinucci: em Passo Torto, Metá Metá ou nas dezenas de outros álbuns onde o multifacetado músico empresta a sua criatividade, como Encarnado (2013) de Juçara Marçal, Dancê (2015) de Tulipa Ruiz, Bahia Fantástica (2012) de Rodrigo Campos e De Baile Solto (2014) de Siba. Fora os nomes recrutados para Cortes Curtos, Dinucci fez outras colaborações de renome – A Mulher do Fim do Mundo (2015) de Elza Soares, e Nó Na Orelha (2011) e Procure Seu Buda (2014) de Criolo são três bons exemplos.

Durante a concepção de Cortes Curtos, iniciada em 2015, Kiko Dinucci revela ter composto mais de 40 pequenas canções, que foi testando e filtrando nos vários espectáculos ao vivo que teve oportunidade de dar. Apesar de este ser apenas o primeiro registo exclusivamente dedicado a originais, é o 17º trabalho que Kiko Dinucci protagoniza, estando todos disponíveis para download legal e gratuito no site do músico brasileiro.

A capa do disco é a última das pistas para desvendar a amplitude artística de Kiko Dinucci. Compositor, intérprete, realizador e designer/ilustrador, foi também ele o responsável pelo apelativo trabalho gráfico. Nesta função, em que também já não é propriamente um novato, Kiko já assinou no seu estilo uma mão cheia de discos em que participou e outros tantos cartazes.

Kiko Dinucci apresenta-se a si próprio em nota à imprensa como parte de um núcleo de novos artistas da cena de São Paulo, partilhado com Juçara Marçal, Thiago França, Romulo Fróes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Sergio Machado, que ao longo dos últimos cinco anos produziu cerca de 30 discos.

Cortes Curtos é a par de Na Boca dos Outros e de O Retrato do Artista quando Pede, um registo de exploração mais pessoal do que o trabalho de Metá Metá – a banda de enorme sucesso que compõe com Juçara Marçal e Thiago França e onde os três procuram justificar o nome que, no dialecto iorubá, significa “três em um”.

Cortes Curtos:

  1. “No Escuro”
  2. “Desmonto Sua Cabeça”
  3. “Fear of Pop”
  4. “Chorei”
  5. “Terra de Um Beijo Só”
  6. “Uma Hora da Manhã”
  7. “Seus Olhos”
  8. “O Inferno Tem Sede”
  9. “A Morena do Facebook”
  10. “Quem Te Come”
  11. “Inferno Particular”
  12. “Chorinho”
  13. “Vazio da Morte”
  14. “Crack Para Ninar”
  15. “A Gente Se Fode Bem Pra Caramba”