Livros para todos os tipos de Verão

Ou para quando tu quiseres.

 
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Os sortudos que já se livraram dos estudos este ano lectivo, os ansiosos que ainda aguardam exames, os trabalhadores que desesperam pelas férias, quase todos têm em comum o facto de viverem sob essa verdade incontornável que é: só no Verão é que há tempo de pôr as leituras em dia. Não fosse Portugal um país que tradicionalmente goza férias no calor e talvez fizéssemos este artigo noutra altura. Mas a verdade é que quer precises de um livro para as próximas semanas de seca que vais passar com os teus pais no Algarve, quer precises de uma boa história para te abstraíres da multidão reunida inadvertidamente à volta da tua toalha de praia, quer precises apenas de um escape durante um final de tarde num banco de jardim ou num dos parques da cidade, esta lista é extensível a qualquer altura, disposição, todos os meses do ano e gostos. Aqui seguem as sugestões Shifter de Livros para o Verão, entre os que a equipa tem entre mãos e os que gostava de ter, obras que já lemos, actuais ou clássicos. Há para o menino e para a menina, para quem tem mais ou menos tempo para mergulhar nas estórias, passando por todos os géneros literários. Aproveita-nos para quando te der mais jeito!

O Homem dos Autógrafos (The Autograph Man), 2002 – Zadie Smith

 

Não é de todo o melhor livro da escritora britânica, principalmente por se ter sucedido à sua estreia de sucesso com Dentes Brancos (White Teeth). Para a sua compreensão talvez importe contextualizar que apareceu de forma quase miraculosa, sem que se estivesse à espera, dois anos depois do seu primeiro livro e depois de um assumido writer’s blockA história segue Alex-Li Tandem, um chinês judeu a viver em Londres, cuja ocupação é comprar e vender autógrafos – “profissão” que, apesar de peculiar, parece ter demasiados adeptos neste universo. Vive obcecado com celebridades e essa fixação acaba por culminar num encontro com a discreta e fugidia Kitty Alexander, estrela da Era de Ouro de Hollywood. O segundo romance da escritora pinta uma Londres colorida, multiétnica, multireligiosa e multicultural de forma divertida, irónica, e muito certeira. Toda a história é uma excelente metáfora para valores como a fama, o dinheiro e o espectáculo.

É um livro pequeno, devorável em cerca de uma semana, que podes encontrar facilmente por menos de 5 euros.

O Vendido (The Sellout), 2016 – Paul Beatty

Foi o vencedor do Man Booker Prize de 2016 e o primeiro norte-americano a receber o prémio. O romance foi publicado pela Oneworld, uma pequena editora independente que está a surpreender o mundo da literatura por ter ganho dois Man Booker seguidos, o anterior com A Brief History of Seven Killings de Marlon James. Tem o Racismo como tema principal e conta a história de Me, um afro-americano que se vê processado por ter um escravo a seu encargo, um enredo que pode parecer simples mas que se vê elevado pelo humor certeiro e o sarcasmo de Beatty.

Apesar do autor o negar, a história tem sido classificada pela imprensa como uma sátira sobre as relações raciais na América dos dias de hoje. Foi descrito pelo New York Times como um “caldeirão multicultural metafórico, quase demasiado quente para se conseguir tocar” e comparado pelo Wall Street Journal e pelo júri do Booker com As Viagens de Gulliver de Jonathan Swift.

Tem cerca de 300 páginas e tem estado em destaque na maioria das livrarias do país porque a edição portuguesa só foi editada em meados do passado mês de Maio. Custa à roda de 20 euros.

A Piada Infinita (The Infinite Jest), 1996 – David Foster Wallace

É considerada a obra-prima do escritor norte-americano que por si só era um mestre genial (importa que o conheças bem para saber o que esperar). Um marco literário, o romance da década que elevou a fasquia para os que se lhe seguiram. Qualquer chavão é redutor para descrever a grandeza (simbólica e literalmente falando!) deste livro. A história acontece numa distopia americana em que Estados Unidos, Canadá e México são um só país. As empresas têm permissão para comprar direitos de nomeação para cada ano civil, sendo que, por exemplo, em vez do ano de 2005, neste mundo há o Ano do Whopper, em alusão ao famoso hambúrguer da Burguer King. Estás a perceber a cena?

A história centra-se numa academia de ténis e num centro de reabilitação por abuso de substâncias. Vícios e recuperação, suicídio, relações familiares, entretenimento e publicidade, teoria do cinema e ténis são alguns dos temas abordados nesta comédia colossal, sobre a procura da felicidade e os males do nosso tempo.

Tal como uma novela a história tem vários tramas e enredos e por esta altura já deves ter percebido que precisarias de um tão necessário verão infinito para ler o livro – e de um orçamento um bocadinho mais alargado, o preço pode chegar aos 30 euros. Com mil e duzentas páginas de letra miudinha e 388 anotações do autor, A Piada Infinita é um romance de dimensões enciclopédicas, uma verdadeira bíblia obrigatória faça sol ou faça frio.

Walden, 1854 – Henry David Thoreau

As piñacoladas e as piscinas geladas não fazem o verão a todos. Aliás, em 1854, no apogeu do calor veranil, Henry David Thoreau mostrou a todos uma forma mais simples de viver. À beira de “uma grande poça” chamada Walden, em Massachussets, enquadrado numa daquelas cabines de madeira que o Tumblr nos mostrou na adolescência, o autor norte-americano redigiu sobre a simplicidade, a relação com a natureza e a degradação pela qual esta última passava com os excessos da Revolução Industrial. Embora a mais de 160 anos de distância, Walden continua a ser um livro que estabelece uma ponte entre a nossa consciência e a nossa forma de estar perante a vida, a terra e os excessos, à medida que nos descreve uma paisagem tranquila, que chega embalar-nos numa viagem crítica sobre as nossas próprias decisões.

Encontras facilmente nas livrarias do costume a cerca de 15 euros.

Sputnik, meu amor (Sputnik Sweetheart), 1999 – Haruki Murakami

Murakami é o herdeiro natural do realismo mágico de Kafka. Ele explora e expõe a cru a fragilidade humana, recorrendo sempre à fantasia para atenuar a sua frieza, permitindo sempre que leitor desenvolva uma interpretação própria do enredo. Sputnik, Meu Amor conta a história de Sumire, uma jovem niilista e aspirante a escritora que, aquando a sua entrada na vida adulta, encontra o amor num lugar inesperado. O facto de ser uma obra relativamente pequena e centrada numa personagem, faz com que seja o romance perfeito para quem se quiser aventurar no mundo de Murakami e ler o livro inteiro nos meses de Verão.

(Também) Encontras facilmente nas livrarias do costume a cerca de 15 euros.

Economics After Capitalism, 2015 – Derek Wall

Este livro é diferente de todas as escolhas anteriores mas nós avisámos que dava para tudo. Economics After Capitalism – A Guide to the Ruins and a Road to the Future é um trabalho do líder dos Verdes britânicos e é uma interessante reflexão sobre os desafios que a economia enfrenta e enfrentará nas próximas décadas. Foca sobretudo os potenciais desenhos de solução que surgem da oposição. Com uma linguagem simples, acessível a qualquer um, Derek faz um mapeamento das principais correntes de pensamento se necessariamente tomar partido de nenhuma, o que faz deste livro uma boa porta de entrada para leituras do campo económico.

Não existe tradução em português nem é o livro mais fácil do mundo de encontrar no nosso país, mesmo em inglês. Aconselhamos-te o Book Depository, que além de o ter em desconto (16,81 €) não cobra portes de envio e é rápido e confiável.

Os Dragões do Eden (The Dragons of Eden), 1977- Carl Sagan

Se o Verão é quase certamente tempo de férias para todos, para alguns também é tempo de regresso às origens. À casa da infância ou à dos familiares que ainda vivem na terra. Entre as trocas de afecto e as recordações, outra relíquia que passa com facilidade entre gerações são os livros. É uma dessas histórias que faz este aparecer aqui. Dragões do Eden é um livro editado em 1977 mas que em 2017 continua a ter o potencial de despertar a consciência de qualquer um para as apaixonantes questões sobre a existência. Sagan foi um divulgador científico de excelência e embora algumas das informações possam não ser as mais actuais, a forma como são expostos os temas e factos da história conquistam qualquer eleitor. Imaginar a história do Universo à escala de um ano, imaginar o cérebro humano se fosse um computador ou conjecturar sobre o que distingue os homens dos animais são algumas das passagens mais inquietantes.

Se não tiveres a sorte de achar o livro que deu a Carl Sagan o prémio Pulitzer do ano em que o editou na estante dos teus avós, podes comprá-lo facilmente, online ou in loco, por cerca de 19 euros.

 

Sinais de fogo, 1977 – Jorge de Sena

Este verão parece a altura ideal para os pôr os títulos ligeiros de lado. É que mais tempo livre pode significar uma entrada a pés juntos numa história, um mergulho, mesmo que seja mais complexa. Pode ser o momento certo para enfrentar o livro que costuma encabeçar quase todas as listas do melhor romance português de sempre. Afinal, um cânone existe por isso mesmo, para que qualquer leitor saiba quais são os objectivos supremos em termos de produção e criação literária.

Falo, é claro, de Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1919-1978). A história de Jorge, personagem que se supõe deveras autobiográfica, põe o dedo na ferida da hipocrisia que era o nosso Estado Novo. Conta-nos o ano de 1936, através de um microclima burguês que se vivia na Figueira da Foz, trocando a praia pelo calor político da Revolução e Guerra Civil espanhola. A história é contado de um ponto de vista liberal, por vezes muito irónico, sem grandes vergonhas no que toca à descoberta da sexualidade do protagonista. É um livro extenso, marcado por uma escrita elegante. Ajudou-me a perceber como muitas páginas permitem a um livro respirar, acelerar ou reflectir. A sua publicação póstuma levo-nos a pensar como Jorge de Sena ainda o podia ter tornado melhor.

As edições que se sucedem tendem a esgotar, o que prova como se mantém um título de referência. Foi agora editado pela Livros do Brasil em edição de bolso, com o preço simpático de onze euros pelas 632 páginas.

 

Escuta o Teu Corpo – Francisca Guimarães

Nós avisámos que tínhamos escolhas para todos os gostos e gostamos de cumprir promessas.

Este livro é sobre ti, sobre o teu corpo, e sobre a forma como te podes (re)conectar com ele. Como diz a Francisca, o nosso corpo sabe o que faz, e sabe também comunicar-nos quando algo não está bem. Tudo aquilo que pensamos, os lugares que frequentamos, as pessoas com que nos damos, aquilo que escolhemos comer, tem um impacto no nosso corpo, que gera uma resposta: podes sentir-te mal em certos lugares, podes sentir-te triste e nervoso quando comes determinadas coisas, tal como podes sentir-te super bem disposto diante de outras pessoas ou quando comes outro tipo de alimentos. Não é coincidência. O teu corpo é o teu templo, e para que consigas viver numa base de bem estar e amor, há que saber ouvi-lo. Neste livro vais encontrar um manual para viver em harmonia contigo próprio, para aprender uma linguagem que é diferente de todas as outras. Vais perceber melhor como é que o teu corpo funciona e, consequentemente, vais começar a estar mais atento a ti. Vais conhecer-te melhor, a ti e à tua energia. Vais ter ferramentas que te permitem identificar se estás num estado de harmonia ou desarmonia para contigo. Vais aprender como é que a falta de sono, de exercício, como é que o stresse e uma alimentação de desamor se manifesta no teu dia a dia.

Prometemos que este não é um livro de auto ajuda cliché. Estás pronto para embarcar nesta viagem? Custa cerca de 15€ e consegues encontrar nos sítios do costume!

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!