Nobody Speak: a liberdade de imprensa no banco dos réus

Uma luta nem sempre justa entre o poder e a liberdade.

nobody speak documentário
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Já não é propriamente uma novidade mas continua a ser imperdível, lançado em Janeiro desde ano, Nobody Speak: The Trial of the Free Pressé um documentário essencial que explora os limites da liberdade de imprensa recorrendo ao mediático caso que opôs Hulk Hogan ao site Gawker. A história que começou com o jornal online norte-americano a divulgar uma sextape de Terry Bollea (Hulk Hogan) – em que este contracenava com Heather Clem, a mulher de Bubba “the Love Sponge” Clem, um dos seus melhores amigos – revelou em tribunal ter contornos mais complexos tornando-se num exemplo paradigmático dos constrangimentos da liberdade de expressão.

Em Tribunal, Terry Bolea, que sempre reagira com naturalidade à divulgação da sextape, exigiu aos responsáveis pela publicação da história (director, editor e redactor) uma soma no total de 140M$, o que causou desconfianças e levou os jornalistas, agora no banco dos réus, a investigar. Foi então que descobriram que por trás do volumoso processo e do chorudo pedido de indeminização estava Peter Thiel, o multi-milionário, polémico investidor de Sillicon Valley e colega no Paypal de Elon Musk. Thiel revelou-se como o principal financiador do processo jurídico num caso com contornos de perseguição e que, segundo relatado, remonta a um artigo publicado pelo Gawker 13 anos antes, que levantava dúvidas sobre a sua sexualidade (um detalhe importante: o à data director do Gawker, Nick Denton é gay e o intuito do artigo seria questionar o preconceito, não a orientação sexual).

O facto de estar em causa a publicação de algo como uma sextape cujo interesse público é absolutamente duvidoso é um ponto sensível neste documentário mas essencial: só um caso tão díspar permite uma análise genérica e distante sobre o exercício de uma liberdade fora do âmbito dos nossos preconceitos. O ponto reside sobretudo na desproporcionalidade que existe entre os dois lados da força e na forma como a alta finança pode exercer a sua censura sobre os media. E mesmo o constitucionalista que testemunha ao longo da peça não tem dúvidas sobre o precedente perigoso que casos como este abrem, não só pelas multas que daí podem advir como pelo clima de pressão que se estabelece perante esta possibilidade.

As duas partes chegaram em Tribunal a um entendimento na casa 31 milhões de dólares de indeminização a Hogan. O Gawker fez a sua última públicação no dia 22 de Agosto de 2016, anunciando o seu final e falência financeira. A maioria da equipa de jornalistas acabou por se dividir pelas restantes publicações do grupo como a Lifehack ou o Gizmodo, que acabaram por ser compradas pela Univision tempos mais tarde e fruto da atribulada situação económica.

Com sensivelmente 2/3 dedicados a esse caso, Nobody Speak guarda o restante para outros dois. O primeiro reporta a aquisição semi-secreta do The Las Vegas Review-Journal pelo magnata do jogo Sheldon Adelson e o segundo incide sobre a mais que badalada linguagem imprópria de Donald Trump e tentativa de denegrir a imagem dos media. Duas histórias com menos enfoque na narrativa mas nem por isso menos merecedoras de atenção.

Nobody Speak: The Trial of The Free Press é mais um trabalho de Brian Kappenberger, o realizador que já vai deixando o seu legado, depois de assinar documentários de referência como We Are Legion em 2012, ou The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz, em 2014, que chegou a estar nomeado para Óscar no ano seguinte. Não sendo a melhor a peça de reflexão sobre um assunto tão sensível como a liberdade de expressão, Nobody Speak vale por sintetizar de uma forma apelativa um tema que por vezes se torna marginal.

 

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