As 10 melhores actuações do NOS Alive

São dez análises subjectivas e tudo menos universais, como acontece com a generalidade dos prognósticos de final-de-jogo.

É melhor ser coerente? A pergunta, pouco concreta e difícil de responder, aplicar-se-á à moda, gastronomia, desporto e a outras tantas actividades e formas de expressão artística. Não haverá, no entanto, e apesar da universalidade da questão, uma resposta igualmente universal, uma vez que esta entra no domínio do subjectivo, do gosto pessoal, do carácter, etc. Qualquer análise que se faça a um festival parte de alguém que acredita — e acreditar em algo é, ao contrário do que muitos nos têm tentado convencer, um dos principais alicerces na construção de uma opinião fundamentada e independente — que a coerência pode ser boa, má ou irrelevante.

Acredito e defendo que a coerência depende. Depende de quê? Depende, ponto. No caso dos festivais de Verão, a coerência dependerá do tipo de festival de Verão. Parece uma tautologia, e não garanto que não o seja, mas trata-se da mais pura das minhas convicções (e não “a mais pura das verdades”, expressão enigmática e tanta vez  utilizada de forma indevida). A tese que tentarei explanar em poucas linhas, uma vez que o leitor médio do século XXI possui um foco de atenção de apenas 8 segundos, é a seguinte: no caso de festivais com uma tradição marcada pelo género de música (ex: Tomorowland, Rock Am Ring ou Creamfields), exige-se essa coesão, dado que delimita e distingue esses mesmos festivais dos restantes. No caso dos festivais que se distinguem sobretudo pelo ambiente e localização (ex: Mountain Meadows, Vodafone Paredes de Coura, Sasquatch), essa coerência, apesar de relevante, não é obrigatória, desde que não destoe em larga escala da linha de pensamento dos curadores e programadores. Por fim, quando falamos de festivais generalistas (NOS Alive, Glastonbury, Coachella ou Sziget), a coerência deixa de ser obrigatória, uma vez que estes se alimentam do espírito catch-all e querem chegar ao maior e mais distinto número de pessoas possível. É possível vermos Tiago Bettencourt e The Cult no mesmo palco, separados por pouco mais de uma hora, sem que isso nos cause estranheza, desde que estejamos familiarizados com as regras do jogo — como nos restaurantes de rodízio, haverá os que querem “picar” um pouco de tudo; os que vão especificamente pela picanha e os que não se importam de provar coisas novas, mesmo que se possam desiludir aqui e ali.

O NOS Alive, que completa 11 anos de existência em 2017, tem mantido esta postura desde o início. O festival da Everything Is New quis ser, desde o ano zero, o maior a nível nacional e um dos principais a nível europeu; por isso adoptou a lógica dos seus concorrentes estrangeiros, sem que o tiro lhe saísse pela culatra. Ora veja-se: em 2013 o orçamento global do festival era de 5,5 milhões de euros. Quatro anos mais tarde, o número aumenta, rondando 8,5 milhões de euros. Bem aplicados? Tudo indica que sim: pela primeira vez na sua história, o NOS Alive esgotou os três dias ainda antes das portas abrirem e de o cartaz estar anunciado na sua totalidade. A incoerência prova-se certeira quando falamos de números, mas será que afecta a estrutura do cartaz e a “experiência do utilizador” (uso o jargão tecnológico de propósito)?

Sem atalhos, conduzo-vos à minha resposta, que eventualmente se encaminhará para um repetitivo e desinteressante “talvez”. Sim, o Alive perde por ter reduzido a actuação dos The Kills aos bocejos e apatia de quem ansiava ver Dave Grohl  — não que Mosshart e Hince tenham culpas no cartório; foram certeiros no alinhamento e na postura, mas acabaram engolidos pelos cabeças de cartaz e a sua super-produção. Não, porque ganha pontos nos palcos NOS Clubbing, Heineken e Coreto, escalonados e pensados para quem procura um maior equilíbrio entre bandas. Sequências de concertos como a do último dia no palco Heineken (Spoon, Fleet Foxes, Cage The Elephant e The Avalanches) são raras, aproximam-nos do festival, mas não redimem a chatice de ver os respeitáveis Cult a chatear-se com a pasmaceira do público; os pouco inspirados Courteeners a tentar sobreviver a um palco, horário e país que não é o deles e um tão esperado Weeknd a desiludir os mais crentes, provando-se bem pequenino ao lado dos “fogos-de-artifício”.

Creio ter conseguido arranjar uma metáfora para terminar esta já longa e fastidiosa análise introdutória: o NOS Alive foi e é um bem-sucedido prêt-à-porter, de onde saímos de vez em quando com um blazer ou uma camisa que nos surpreendem e que podem, com o tempo, chegar às prateleiras mais importantes (nesta metáfora, os Spoon são aquela t-shirt edição limitada da H&M, que se usa para dizer que é Balmain ou Versace, quando na verdade não é. Versace será vê-los no Coliseu, daqui a uns meses). Será por isso disparatado e inútil compará-lo a festivais de alfaiate, de onde tendencialmente saem actuações ligadas comme il faut e talhadas para um público bastante específico, ainda que isso não as torne necessariamente melhores – haverá erros de casting em todos os festivais, uns mais graves do que outros. A diferença está no corrigir ou não esses mesmos erros. E nisso o Alive terá de estar à altura para o ano que vem: falhar novamente com um cabeça-de-cartaz é inadmissível e pouco aconselhável, ainda que, como diz o célebre manual das desculpas lusas, só falhe quem realmente tenta. Não vale a pena repetir-vos a máxima de Beckett, até porque está quase gasta, mas vocês percebem. Que para o ano se falhe melhor, é tudo o que o escriba pede.

O top 10

A lista que se segue compila as dez melhores actuações deste ano no NOS Alive (nota 1: os concertos estão ordenados por ordem alfabética, não pela qualidade ou falta dela; nota 2: haverá certamente artistas que, no ponto de vista do leitor, deveriam estar aqui e não estão. Quanto a isso não há nada a fazer. São dez análises subjectivas e tudo menos universais, como acontece com a generalidade dos prognósticos de final-de-jogo. Resta ao leitor concordar, discordar ou não ler de todo). Vá, já chega de notas e de desculpas. Vamos aos nomes.

Blossoms

São jovens e bem parecidos, mas têm argumentos que provam que não são apenas jovens e bem parecidos. Blossoms, disco de estreia, levou-os a abrir para bandas como os The Coral e os Two Door Cinema Club. A partir daí, tornaram-se uma das mais apetecíveis bandas do Reino Unido, vendo os espectáculos esgotados de Norte a Sul e o primeiro disco de ouro da carreira, pronto a pendurar no quarto dos pais. É certo que isso nada interessa em solo luso – como se percebeu pelo espectáculo desanimado dos Courteeners, igualmente reconhecidos em Inglaterra –, mas surtiu efeito quando o público inglês (também presente e cada vez mais adepto do festival) ouviu os primeiros acordes de “At Most A Kiss” e se entornaram as primeiras pint de cerveja do festival.

“Texia”, filha bastarda de uma relação entre os Last Shadow Puppets e os Metronomy, ajudou o concerto a ganhar balanço logo de início, com as linhas de baixo pujantes de Charlie Salt a sobressair. Tom Ogden, vencedor do concurso “cabelo mais sedoso NOS Alive 2017”, não lhe ficou atrás; puxou da guitarra acústica, ofereceu “My Favourite Room” à Emma, amada do John que não veio a Portugal e por isso foi apupada; andou para trás e para a frente com o público; mostrou uma eficácia e confiança na altura de entregar as canções que não é comum em pessoas nascidas há 24 anos. Entre as acertadas interacções com a plateia, os Blossoms, agitados pelas baquetadas rápidas de Joe Donovan, deixaram “Honey Sweet”, o primeiro grande singalong do festival e “Cut Me And I’ll Bleed”, tema para os que gostam de guitarras endiabradas à Temples. Para o fim, ficou reservada “Charlemagne”, a canção FIFA do grupo, merecedora de uma ovação internacional. Não foram só os bifes a gostar e a cantar, isso é certo. Voltarão em nome próprio? Nunca se sabe, mas ficou a sensação de dever cumprido.

Cage The Elephant

Mereciam o palco principal em qualquer lugar do mundo, não o tiveram, e a decisão é absolutamente questionável. Porquê confinar uma das bandas mais badaladas do momento a uma tenda onde dificilmente cabem 10 mil pessoas? Ao contrário dos The Kills, que tiveram a sua quota-parte de problemas em acordar a multidão, os Cage The Elephant viram um mar de gente aparecer-lhes à frente e saborearam a oportunidade.

O alinhamento, bastante semelhante ao do concerto no Vodafone Paredes de Coura do ano passado, foi parco em novidades, concentrando-se em Tell Me I’m Pretty, o disco de hits abençoado por Dan Auerbach, mas aproveitou também para revisitar, e logo de início, as já francamente boas canções de Melophobia e do homónimo disco de estreia, como “In One Ear”, “Too Late To Say Goodbye” e “Ain’t No Rest For The Wicked”. Tocadas logo de início, e com o volume no 11, fizeram as delicias sobretudo de quem nunca os tinha visto (a banda, estranhamente, tinha sempre tocado no norte do país), mas também dos dissidentes da timidez sonora dos Depeche Mode, amordaçados pelo som inconsistente do palco principal.

Os irmãos Schultz têm um talento natural para fazer estragos, pelo que as expectativas acabam quase sempre correspondidas. Ninguém espera que o elefante esteja de facto enjaulado, mas sim solto, e aos pinotes de um lado para o outro. E foi o que aconteceu. Irreverente q.b, a banda do Kentucky habitou-nos à sua pujança e imediatez (como aconteceu com os Kaiser Chiefs no início do milénio), daí que se tenha tornado praticamente impossível testemunhar uma actuação mais frouxa do que a média. “Trouble”, “Mess Around” ou “Come A Little Closer” serão recebidas até no Alaska por uma multidão esfuziante. Em Algés, apesar da brevidade, a coisa não foi diferente. “Cigarette Daydreams”, serena e merecedora de um coro especial – milhentas vozes, afinadas e conhecedoras da letra de fio-a-pavio, como se de um cabeça-de-cartaz se tratasse, berraram mais alto do que um sistema de som inteiro – elevou a actuação a um patamar onde poucos ou conseguiram chegar durante o festival. Entraram e saíram vencedores, somente derrotados pela despromoção a um palco secundário. No fundo, não dá para ser muito maior do que isto, só mesmo voltando a ter o Dave Grohl na bateria.

Fleet Foxes

Robin Pecknold foi protagonista de uma das mais interessantes viragens no universo do rock alternativo, passando dos concertos com uma das mais respeitadas bandas folk dos nossos dias a uma licenciatura em Estudos Gerais na Universidade de Columbia. Desde então, as coisas deram uma grande volta: o som artesanal e bem composto dos Fleet Foxes, baseado sobretudo nas harmonias vocais e crescendos, cedeu o seu lugar ao experimentalismo, protagonizado em grande parte pelo guitarrista Skyler Skjelset e pelo multi-instrumentista Morgan Henderson, e a estruturas cada vez mais complexas, guiadas por paisagens sonoras e contrastes cada vez mais ricos. Mearcstapa é o pináculo deste espírito “menos intuitivo” que Pecknold tem referido em entrevistas recentes. Em concerto, depois das convencionais Ragged Wood ou The Cascades, o tema põe um ponto final ao que é dogmático e certinho, levando a actuação por dois cursos completamente diferentes.

Por um lado, há o tradicional, que vem com a excitação generalizada nos inícios de “Mykonos” e “White Winter Hymnal”, ainda actuais e relevantes, caso contrário não teriam sido berradas por meio mundo. Por outro, há o recente e bem mais interessante registo “queda-livre”, mais favorável à introdução de instrumentos menos convencionais (quase sempre tocados por Henderson) em que tudo pode mudar de um momento para o outro, como acontece na atípica colagem dos temas “I Am All That I Need”, “Arroyo Seco” e “Thumbprint Scar”Felizmente, o alinhamento resolve bem eventuais problemas aos Fleet Foxes: para o final ficam os “clássicos”, que obrigam o público a esperar, mas ninguém apanha uma seca pelo caminho; há sempre canções dos dois primeiros discos a funcionar como o açúcar numa boa receita de molho de tomate, cortando a acidez e não-intuição dos temas mais difíceis. “Helplessness Blues” saiu por fim da prateleira (referência subtil e talvez demasiado literária ao refrão, uma vez que a banda nunca deixou de tocar a canção) e fez o pouco que faltava a uma noite que foi de sonho, tanto para a plateia, como para a banda. “Foram o melhor público desta digressão”, diria o senhor dos Estudos Gerais, com o sorriso de quem finalmente completa uma cadeira tramada, daquelas em que na melhor das hipóteses se tem um 9. Próximo passo? Trazer estas novas canções em nome próprio, com um som e ambiente mais cuidados. A raposas, agora sim verdadeiramente selvagens, bem o merecem.

Foo Fighters

As palavras são do nosso fotógrafo Manuel Casanova, mas roubo-as à descarada para este início: ainda está para existir uma melhor canção para abrir concertos do que “All My Life”. Capazes de provocar um abalo sísmico, Grohl e as suas “seis mulheres” entraram sem pirotecnia barata, mas com a confiança de quem sabe que vai ser uma noite “for the ages”, como se diz lá na terra deles. E não é que resultou?

O tipo mais simpático do rock dita as regras: “às vezes temos de ir a baixo, mas também podemos ir para cima, depende do que quiserem”. Depois do aquecimento, mais “em baixo”, chegaram “Something From Nothing” e “Pretender” (a última numa versão extensa, de 9 minutos), bem lá no cimo, de onde os Foo não viriam a sair, e onde a plateia verdadeiramente os queria. “Vai ser uma noite bem longa”, provocaria Grohl antes de apresentar a banda num medley de homenagem aos Ramones, aos Queen e aos próprios Cult, mas ninguém esperava que duas horas e meia passassem num ápice.

A sequência de canções que se seguiu a “Congregation” limpou todas as mágoas deixadas pelo quase-cabeça-de-cartaz da noite anterior. “Walk”, “These Days”, “My Hero” e “White Limo”, à sua maneira, podiam resumir o essencial de uma discografia de mais de 20 anos e de uma: ele há momentos de rock n’ roll bruto e suado, de uma melancolia que em nada fica a dever a muitas urbano-depressivas, mas também de entretenimento puro, com riffs pensados no aplauso gradual até à chegada do refrão. São precisamente todas estas camadas que fazem de uma noite de êxitos uma festa generalizada. Cada um recebe exactamente a faceta que mais aprecia, podendo debandar depois da “sua canção”, mas ninguém o faz, e não é por respeito.

“Rope”, “Arlandria” e “La Dee Da” (que contou com a presença de Alison Mosshart) aguentaram, numa fase crucial – por norma, a partir da hora e quinze de concerto, há sempre quem desmobilize e se ponha no carro a caminho de casa – as rédeas da plateia, funcionando em bloco, talvez por serem das mais “pesadas” entre todo alinhamento.

“Wheels” serenou a última metade da setlist. Tocada “em baixo”, depois de Grohl se ter estafado entre piscinas no meio do público, teve direito a um momento de storytelling, um tanto ou quanto surreal, em que o vocalista e guitarrista se debruçou sobre o voo Lisboa-Madrid, aparentemente afectado por uma tempestade tão forte que quase impediu a vinda a Portugal, mas que acabou com um “sol a brilhar”, como todas as histórias felizes. Tão cedo não nos esquecemos deste relato. Enigmático ou provavelmente exagerado até resultar num bom “momento de palco”? Nunca saberemos a verdade, mas é isso que torna a coisa engraçada.

Passou num ápice, é verdade. Quando damos por nós, já estão Taylor e Dave a acenar adeus, mas não sem serem picados com uns valentes “olé, olé, olé” da plateia, tão entusiasmados que acabaram por resultar em mais dez minutos de improviso, uma espécie de encore. “Best of You” e “Everlong”, últimos temas da noite, arrumaram a trouxa e deixaram tudo em pratos limpos. Não há quem se possa dizer mal servido pelos Foo Fighters, que correram os temas mais relevantes, desde “The Colour and The Shape” até aos dias de hoje, com a mesma vontade e boa-disposição que conhecemos há vinte e muitos anos, marca registada de sua alteza real Dave Grohl. Foi inacreditável, mas também nunca deixou de o ser.

Glass Animals

Sem dúvida um dos mais aguardados concertos do festival. Desde 2014, logo após o lançamento de Zaba, magnífico disco, que não víamos estes rapazes ao vivo. E é pena, porque a banda evoluiu a passos largos logo após a digressão europeia que a trouxe a Portugal. A memória, traiçoeira, lembra um Musicbox a abarrotar, mas nada fazia prever uma recepção tão calorosa quanto a que Bayley, Seaward, MacFarlane e Irwin-Singer receberam entre “Life Itself” e “Black Mambo”, primeiros temas do alinhamento.

Em palco, o vocalista e guitarrista Dave Bayley perde pouco tempo com conversas, escolhendo ganhar a plateia durante as músicas, com acrobacias de guitarra na mão e outros tantos truques inscritos no manual do crowd pleasing. Herdeiros do legado deixado por bandas como os Friendly Fires ou os Bombay Bicycle Club, os Glass Animals fazem o melhor uso da vivacidade em palco, e serão uma das raras bandas que hoje em dia consegue fazer dançar milhares de pessoas ao som de guitarras. Bayley – o foco no cantor é foleiro, mas não há como o ignorar –  é pródigo em movimentos corporais, empoleira-se nos monitores e não suporta ver uma plateia parada; o tipo agita-se e a massa agita-se com ele, quase por osmose, culminando no trautear generalizado de “Season 2 Episode 3″ e “Gooey”, canções com franco airplay nacional, mas ainda assim desconhecidas por grande parte da plateia, que pouco ou nada se importou com isso, dançando durante todo o set do grupo.

Os temas de How To Be a Human Being provam que a fonte está longe de secar: “Cane Shuga”, com os seus contratempos alucinantes na bateria, fervilhando como se de hip-hop se tratasse, e “Youth”, embelezada pela grandeza dos sintetizadores, mantêm-nos junto dos quatro de Oxford até ao fim da noite. “Pork Soda”, de ananás na mão — literalmente, não é uma metáfora retorcida — e em loop nas nossas cabeças, ditou o término da festa entre solos estonteantes de guitarra e de teclado, em muito ajudados por Drew MacFarlane, multi-instrumentista mais do que competente e um dos principais sustentáculos da banda. Dá gosto ver bandas a crescer assim.

Royal Blood

É genuinamente fácil gostar dos Royal Blood: as letras são acessíveis (e muitas vezes genéricas, é certo), os riffs absolutamente demolidores e a atitude em palco das mais fortes que vimos nos últimos anos. Não será por isso de estranhar que ao final da primeira música já se entoasse bem alto o nome da banda, com portugueses e britânicos a relembrar uma das mais velhas alianças do mundo, celebrando juntos a ascensão meteórica de Mike Kerr e Ben Thatcher.

“C’um caralho. Este é o melhor público do mundo inteiro.” Foi imediatamente assim que Kerr se dirigiu aos portugueses, e com razão. “Lights Out”, acabada de sair, foi recebida como se de “Little Monster” ou “Loose Change” se tratasse. Durante uma hora, activou-se o modo hooligan na plateia, com moche, circle pits e windmills à Pete Townshend (googlem se desconhecem o homem ou a referência), remetendo-nos estes 60 minutos de uma forma saudável para o imaginário do rock n’roll da década de 80, mas também para o do início dos anos zero. E é sobretudo nesse registo que os Royal Blood ganham pontos: as oscilações entre oitavas inspiradas nos Muse ou nos Rage Against The Machine, usadas por exemplo na esmagadora “Ten Tonne Skeleton”, invocam uma linguagem comum, que agarra para nunca mais largar, como aconteceu no Palco Heineken, cheio pelas costuras.

Thatcher, demolidor, só teve praticamente tempo para descansar durante “Hole In Your Heart”, a “balada” à Royal Blood, curiosa e virtuosamente guiada ao teclado por Mike Kerr. Entre a apoteose de “Come on Over”, até “Figure It Out” explodiram refrães cantados em uníssono, breaks nada simples e um constante rugido do público entre canções, abrasado pela distorção dos amplificadores. Estava definitivamente atribuído o prémio do público no Palco Heineken (mas só até chegarem os Cage The Elephant). “Out Of The Black”, cumprindo a tradição de canção da despedida, pôs a carne toda no assador, com bancos de bateria a voar e mergulhos público adentro, deixando grandes esperanças para o concerto de Outubro no Campo Pequeno. Depois deste estardalhaço, menos do que uma sala novamente esgotada é derrota.

Ryan Adams

“Tragam tigres, televisões antigas, amplificadores gigantes e bandeiras dos Estados Unidos.” Terá sido mais ou menos isto que Ryan Adams respondeu quando lhe perguntaram como iria ser o desenho de palco da nova digressão. Megalómano, trouxe literalmente a casa às costas. Até uma máquina de pinball, incompatível com o sistema português e por isso inútil, trouxe o filho querido da Carolina do Norte. Resultado da brincadeira? Demasiadas horas sem saber o que fazer num camarim, muito provavelmente a ouvir os Alt-J em loop (daí que mais tarde os tivesse descomposto em palco, com a célebre tirada: “são como uma picada de mosquito, se ignorarem vai embora”) até subir a palco.

Às dez da noite, com cafés a mais, Adams chegou-nos acelerado, tocou “Do You Still Love Me?”, “To Be Young” e “Gimme Something Good” a uma velocidade pouco aconselhável, praguejou mais um pouco, para depois oferecer duas versões sublimes de “Let It Ride” (mais próxima do arranjo original dos Cardinals e acompanhada por um roadie vestido de satanás a tocar pandeireta) e “Magnolia Mountain” – um verdadeiro eucalipto, ou não tivessem os seus 10 minutos boicotado a versão acústica de “Come Pick Me Up” no final do concerto (foram umas lágrimas a mais que nos poupou, mas não se faz).

A choradeira, no entanto, não tardaria muito a chegar. Depois da Springsteenesca e orelhuda “Outbound Train”, “When The Stars Go Blue”, com a banda de mansinho, derrotou os corações mais moles e viu isqueiros erguidos no ar à moda antiga, naquele que terá sido o momento mais comovente de todo o festival.

Com pouco tempo de sobra, Ryan fez o que pôde, agarrando-se à harmónica para uma rendição eléctrica — escolha menos acertada, tendo o set perdido o seu segmento acústico — de “New York, New York”mas acabou por só ter tempo para mais uma canção. Regressado o diabo a palco, pediu-se desculpa por Trump ser um “idiota do caralho” e gritou-se até mais não pela “Lucy, Lucy, my gal”. Feliz, bem impressionado e prestes a deixar-nos, disse Ryan que os portugueses “acreditam no rock n’roll”. E tem toda a razão, escrevo eu, lembrando-me, com a devida distância, da sova que nos deu naquela noite, mas que ainda assim não supriu as saudades. Pode ser que não passem mais 6 anos até ao próximo concerto deste mafarrico. Pode ser.

Spoon

Lembram-se da idade do vocalista dos Blossoms? 24 anos, isso mesmo. É curioso ser também esse o número que consta no cartão de cidadão dos Spoon. Britt Daniels há mais de duas décadas que lidera uma das bandas mais acarinhadas do indie-rock americano, e há mais de duas décadas que lança discos consistentes, sem a nostalgia de um tempo que já não é o dele. Hoje em dia, e disse-o numa entrevista ao NME, os Spoon vivem das fases “menos stressantes e mais positivas” da sua carreira. É por isso notável que um dos melhores concertos do festival tenha vindo de uma banda de média dimensão, injustamente menosprezada pelo público português e europeu, mas que nunca, em nove registos de estúdio, meteu a pata na poça.

Deitado em palco, pujante, de microfone na mão, ou agarrado à sua Telecaster branca como um verdadeiro galã. Foram estas as várias facetas que Daniels ofereceu, à vontade do freguês, consoante o tema (e neste caso, tivemos um pouco de tudo, com um foco especial em “Gimme Fiction”, “Ga Ga Ga Ga Ga” e “They Want My Soul”, indiscutivelmente os três álbuns melhor sucedidos do grupo) e a recepção da plateia. De “Hot Thoughts” chegou, e bem, a faixa homónima, distorcida, sensual e feroz, mas também “First Caress” e “Do I Have To Talk You Into It”, bem conseguidas, mas ainda longe das vibrantes e tão bem cantadas “Rent I Pay” e “Do You”. Imersiva, a actuação dos texanos teve o melhor som de frente de todo o festival, funcionando na perfeição as dinâmicas da tríade Pope, Fischel e Eno.

O sexo, celebrado em quase todas as canções do último disco, tornou a música da banda mais lasciva e visceral, mas a grande mudança operou sobretudo na própria postura dos músicos em palco. Com o passar dos anos, vamos tendo cada vez mais prazer em vê-los ao vivo (sim, até mesmo quando tocam à tarde e para poucas centenas de pessoas, como no Super Bock Super Rock ou NOS Primavera Sound), maioritariamente porque estes nos parecem cada vez mais frescos, ambiciosos e realizados com as últimas digressões, desta feita mais extensas e fora do habitual circuito EUA-Austrália. Abençoada esperança, paz de espírito e perseverança de que os Spoon parecem ser hoje em dia embaixadores, e que tanta falta fazem às bandas mais jovens. Um bem-haja a eles, porque continuam a ser absolutamente os maiores.

The XX

Entre inícios de 2014 e finais de 2016, os londrinos The XX fizeram uma pausa nas actuações ao vivo. A interrupção, que se previa curta e de circunstância, acabou numa espécie de hiato, que por sua vez colidiu com a consolidação de Jamie xx no panorama da música electrónica. Os fãs de longa data temeram o pior; não havia sinais de novo disco e muito menos de datas ao vivo. O interregno só viria a terminar em Novembro do ano passado, quando o grupo anunciou o lançamento de I See You e uma digressão pelo Reino Unido.

Romy, Oliver e Jamie fizeram a escolha certa. Em estado de graça, apareceram-nos frescos e espevitados; o que havia de gravitas foi-se, mas conservaram intacto o estatuto de “banda de palco principal”. O que vemos nesta nova fase dos The XX são músicos sedentos de palco, que não tomam o público por garantido, nem se importam de partilhar uns passos de dança recentemente aprendidos. “Dangerous”, “On Hold” ou até mesmo a cover de “Loud Places” provam isso mesmo, sem que se note alguma hostilidade entre os temas “do passado”, soturnos e arrastados, e os mais recentes, electrizantes e festivos. Como é que se gere estas duas realidades ao vivo? É (mais ou menos) simples, basta ter grandes canções e um alinhamento planeado ao pormenor. Entre hits dos dois primeiros discos – “Crystalised” e “Infinity” foram canções ganhadoras –, a banda criou a envolvência necessária para que “Say Something Loving” ou “I Dare You” resultassem como um todo, e não através da soma das partes. A meio do set, Madley Croft fez o mais difícil. Apenas com a guitarra e voz, entregou-se a 55 mil pessoas com os dedilhados e harmonias vocais durante “Performance”, canção frágil, em que um desvio de meio tom pode condenar o rumo da actuação. Assombroso, este momento.

Os britânicos continuaram invictos até à recta final, guardando para os últimos 20 minutos a descarga electrónica acumulada durante o hiato. “Shelter” e “On Hold” montaram a tenda electrónica no Passeio Marítimo de Algés e confirmaram o que já se havia percebido desde o mítico concerto na Aula Magna: Portugal e The XX é uma relação que tem pernas para andar.

Warpaint

Uma constatação mais ou menos óbvia: nunca as Warpaint soaram tão coesas quanto agora. O disco homónimo de 2014 viu a banda fundir as suas raízes do shoegaze com o trip-hop, dando origem a uma sonoridade cada vez mais própria, e consequentemente mais interessante de assistir ao vivo. O exponente dessa nova sonoridade chegou, no entanto, com “New Song”, uma das grandes canções indie da década, que cara-a-cara soa ainda melhor (sobretudo quando acompanhada pelo produtor Jono Ma, como foi o caso). Sem excepções, Emily Kokal,  Jenny Lee Lindberg, Stella Mozgawa e Theresa Wayman equilibram-se tecnica e empaticamente, sem dissonâncias e numa entrega genuína em palco. Talvez haja uma razão por detrás de concertos sempre inspirados: em meia dúzia de passagens por Portugal, nunca as vimos as californianas a tocar para “cumprir calendário”, e isso faz toda a diferença.

Composta por instrumentistas de primeira água – quem sabe das mais dotadas de todo o festival –, a banda liderada por Kokal mantém ainda as guitarras assanhadas em “Krimson” e “Love Is To Die”, mas é sobretudo na exploração e criação de atmosferas sonoras que se dá melhor, sobretudo no que à dupla Lindberg e Mozgawa — responsável por manter uma base pulsante e pronta a suportar a ordeira cacofonia das guitarras e sintetizadores —  diz respeito. “Disco//Very” e “So Good” são dois bons exemplos de como se pode absorver uma plateia por completo. A par com Spoon, foi outro dos sets com melhor som no NOS Alive de 2017.

Fotos de: Manuel Casanova/Shifter

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