O que sobrou do Verão de 2007?

Discutimos tudo a um nível mais perigoso, exceção feita ao evento promovido pela natureza. Mas este é um texto que pretende antes de mais olhar para a música.

As redes sociais (Myspace, Hi5, MSN, photoblogs) são coisa quase exclusivamente adolescente, a blogosfera tomada por alguns pioneiros saca pageviews a um público mais adulto e rende algumas estrelas que hoje se passeiam na rede “adulta” dos nossos  tempos: o Twitter. A utilização do verbo “sacar” não é inocente (emule, Btuga, sites p2p, lembram-se?) A Internet vai anunciando o descontrolo emocional (em todos os sentido possíveis) que se viria a materializar na década de 2010. O mundo vê explodir bombas em Bagdad, a Coreia do Norte aceita fechar instalações nucleares, o Live Earth promove concertos no mundo inteiro com o objetivo de o sensibilizar no que diz respeito às alterações climáticas e o Peru vê a terra tremer. O que é isto de escrevermos sobre algo que vivemos, mas não apreendemos na totalidade? Um exercício subjetivo, certamente. Se quisermos responder diretamente à questão colocada no título com base nesta enumeração de eventos fica fácil responder algo como: tudo. Sobrou tudo. Mas esse tudo piorou. Continuamos a debater em base diária o terrorismo, a Coreia do Norte e os misseis nucleares, as alterações climáticas e, de tempos em tempos, até a terra volta a tremer. Discutimos tudo a um nível mais perigoso, exceção feita ao evento promovido pela natureza. Mas este é um texto que pretende antes de mais olhar para a música. O que sobrou desse verão de 2007?

Não é suposto termos direito a grandes blockbuster editoriais ali entre meados de junho e arranque de setembro, mas tivemos. Os Interpol tentam o grande público e por cá até chegam aos Morangos com Açúcar com Our Love to Admire, os Spoon rompem o culto de quase ninguém com um exercício saudosista muito 60s que é Ga Ga Ga Ga Ga, os Gogol Bordello aproveitavam a moda das trupes (Arcade Fire, Beirut, I’m From Barcelona) e legitimam o punk em 2007 adicionando-lhe o prefixo “gipsy”, enquanto exclamam Super Taranta! e provam que ao vivo é que é. A blogosfera ferve a ritmo semanal e a banda do verão que toda a gente se esqueceu é os New Young Pony Club, polarizador grupo de new-wavers que muitos quiseram ligar à nu-rave (Klaxons, Hadouken, etc), prova provada que já andava ligada às máquinas e a precisar de algo legitimasse a sua inexistente relevância. Se formos ao baú encontramos ainda o último dos Velvet Revolver e damos de caras com o inevitável cheiro a naftalina. Eugene Hutz, homem forte dos Gogol Bordello, bem dizia que no final do dia o que conta é o dinheiro. Slash e companhia não aguentam mais e cancelam a digressão que passaria pelo Coliseu. Mas os My Chemical Romance, esses, não cancelam. E pior: fazem escola. O emo expandia-se ao ponto de quase tudo parecer emo. Os Paramore editam Riot!, enquanto um outro tipo de emo, com muito mais verdade, o de um Ryan Adams que regressava do mundo das drogas, do álcool, dos antidepressivos. Pouco memorável, ainda assim, tal como o 2º dos Editors que aproveita uma tendência explorada também pelos Interpol e Killers: guitarras épicas distribuídas gratuitamente. Mas a banda de Tom Smith é a única que enjoa logo à primeira. A música de dança também se adaptava a um tempo em que o indie era o novo mainstream. Onde os Chemical Brothers falham, Digitalism e principalmente os Justice acertam. Just D.A.N.C.E.!

Os festivais começam a ganhar (outro) corpo. A 1ª temporada do Oeiras Alive é logo na I Liga e dá início a uma década de domínio avassalador. Traz nomes que nunca cá tinham estado e que vieram pela última vez: White Stripes e Beastie Boys. Compõe o cartaz com a banda que terá inspirado o nome, os Pearl Jam (foram, aliás, os primeiros a ser confirmados), os regressados Smashing Pumpkins, Linkin Park e Matisyahu. Os portugueses têm inegável destaque no palco principal: Blasted Mechanism, Da Weasel e Sam the Kid. Aquele milhão de euros permite ainda ir buscar alguns nomes do momento: The Sounds, The Go! Team e The (International) Noise Conspiracy. Nos mesmos dias do festival, John Cena, Ric Flair e muita companhia ocupam o então Pavilhão Atlântico, facto irónico na medida em que Billy Corgan divide o tempo entre a música e o pro-wrestling.

Respondendo novamente ao título do artigo: o Alive será uma das grandes heranças de 2007. Cresceu de ano para ano e conquistou um mediatismo que atingiu algo impensável: superar o Rock in Rio. O Super Bock Super Rock aposta em dois atos: o 1º é um dia metaleiro num chão que ainda dava uvas e Metallica, Mastodon e Stone Sour partilhavam palco. Joe Satriani, diz a lenda, deu uma seca monumental. Os Blood Brothers viram uma inédita distribuição de manguitos à qual responderam na mesma moeda. O 2º ato é composto por uma data de nomes do tal momentum indie: Arcade Fire, Bloc Party, Klaxons, Maximo Park, The Rapture, Clap Your Hands and Say Yeah, LCD Soundsystem, Gossip, Interpol, TV on the Radio e Scissor Sisters. Roubando basicamente quase todos os possíveis cabeças de cartaz a que Paredes de Coura (PdC) se podia agarrar. O festival que se orienta com um patrocínio de última hora (Heineken), lá foi buscar (no desespero, imaginamos) M.I.A. e Babyshambles. Nomes como Dinosaur Jr, New York Dolls e Sonic Youth salvam um cartaz que ainda consegue conservar a reputação de “festival a que vamos para descobrir bandas novas” com os Spoon, Gogol Bordello, Architecture in Helsinki, 4Tet, Electrelane, CSS e New Young Pony Club. O Sudoeste segue a mesma linha dos dois anos anteriores, ou seja, caos total: Damien Marley, Gilberto Gil, Mayra Andrade, Manu Chao, Camara Obscura, Cypress Hill, Bonde do Rolê, Groove Armada, The Streets, Sam the Kid, Sérgio Godinho, Australian Pink Floyd, Patrick Wolf, Vanessa da Mata, James, Phoenix, The National, Of Montreal, Trail of Dead e Tara Perdida. Sem cabeças de cartaz óbvios, uma catrefada de nomes em que nada tem a ver com nada e talvez o último bom cartaz do festival. Vilar de Mouros, esse, ainda confirma Brian Wilson, mas vamos pegar na metáfora pós-Pet Sounds para dizer que nunca mais foi o mesmo.

Os festivais mudaram, quase todos os nomes enumerados neste texto perderam relevância. Os Radiohead preparavam o outono e a bomba mediática In Rainbows.