As bandas portuguesas tomaram conta do SBSR

E nem sempre tiveram de pisar o MEO Arena para o fazer.

 
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Para o bem e para o mal deixo já aqui o que esteve a mais no festival: purpurinas, t-shirts dos Red Hot Chilli Peppers, mitras no dia de Hip-Hop, gelados Solero, Lays e Via Verde. Agora que já expirámos, vamos lá inspirar um pouco do que realmente se passou na 23ª edição do Super Bock Super Rock.

O festival começou com Alexander Search. Deixo esta nota sobre o grupo porque vejo-os como uma potencial referência nacional e é importante que tanto o público como os autores do projecto tenham atenção ao que vem a seguir. Talvez não tenha sido a melhor ideia estrear um projecto tão peculiar no Super Bock. Se fosse no Nos Alive diria o mesmo. É caso para dizer que o disco soube melhor que o concerto. Não que tenha sido mau, foi descontextualizado, apresentado para um público que não estava nem aí. Estavam pelo Salvador, mas foram ao engano porque só encontraram Benjamin Cymbra. Alexander Search merecia ter tido uma estreia no Teatro São Luiz, por exemplo, local onde Salvador tocou Excuse Me pela primeira vez. Com um quinteto tão capaz, não se lhes espera que toquem bem, mas sim que toquem muito bem e isso não faltou de todo, Júlio Resende (Augustus Search) e Joel Silva (Mr. Tagus) levam o prémio pelas performances, mas no fundo houve certas decisões do grupo que são normais para uma banda que ainda só deu um concerto, mas não quando esse concerto é no Super Bock. Começar com uma balada em que a meio é rasgada por um solo à Lynyrd Skynyrd e de seguida uma música com faceta metaleira pode ser um pouco confuso. 34 graus e chão calcetado não nos prepararam para Alexander Search. Continuo com muita fé no grupo, mas não estiveram perante o melhor público.

Quem subiu ao palco Edp de seguida foram os brasileiros Boogarins, inundados de reverberações psicadélicas e uma boa disposição à brasileira. Depois de ainda ficar um bocado a secar ao som de Orwells, visitei o Meo Arena para ver um grupo que criou em mim grandes expectativas, não fossem elas um pouco achincalhadas pela fraca qualidade de som daquele que é o maior salão de festas da cidade. A banda em questão são os New Power Generation acompanhados de Bilal. Só quem se dava ao luxo de ficar de pé em frente ao palco é que conseguia ouvir com um mínimo de qualidade o que se estava a passar. A parte de baixo do Meo Arena encontrava-se semi cheia, ou semi vazia, dependendo da perspectiva. Na minha visão estava semi vazia. Havia simplesmente demasiado espaço para o som ecoar e falta de público para absorver aquele P-Funk tributado ao Prince. Durante o resto do festival, residiu em mim uma vontade enorme de não voltar àquele palco. O concerto a seguir justificou-o. Kevin Morby foi o rockalheiro romântico, o apaixonado e apaixonante. Conquistador de um público que já o tinha sentido no Mexefest de 2016, voltou só para reafirmar que a sua presença é indispensável para todos os que gostam de boas baladas veranis. Agora pegamos nestas palavras sobre Kevin Morby, como quem pega nos negativos de um rolo fotográfico, mergulhamos para a revelação e na mão temos o positivo, na mão temos Legendary Tiger Man. O homem mais rock’n’roll de Portugal. Ele é o tipo que vai ali à Califórnia gravar um disco e volta como se nada fosse. Vestido a preceito como quem aposta tudo num casino em Las Vegas e ganha. A última vez que vi este tipo de indumentária foi no Mike Patton aquando do único concerto de Faith no More no Optimus Alive. Desde então desejo um tuxedo branco dos pés à cabeça, à excepção das botas que têm de ser vermelhas. Num futuro perfeito vão estar a ler isto enquanto a Maria de Medeiros suspira “One of these days these boots are gonna walk all over you.”

O dia mais cheio do festival terminou ao som de um concerto nostálgico dos Red Hot Chilli Peppers. Uma coisa é certa, quem os foi ver não foi por ser moda, foi porque a banda deixou uma marca, não fossem eles donos de quantidade exorbitante de singles, daqueles que não saem do ouvido durante semanas.

De um dia para o outro o festival que foi inundado por um batalhão de fãs de rock foi substituído por Hip Hop Heads, numa porção muito reduzida. A desistência de Tyler, The Creator teve um efeito notório. Acreditamos que se ele tivesse actuado, o segundo dia estaria mais preenchido, tanto para o bem como para o mal. Em vez disso, tivemos um Pusha T às 17 horas, não por culpa da organização. O dia de Hip Hop compensou mais para quem dedicou tempo aos artistas nacionais. Se por um lado Pusha T, Jessie Reyez e Future decepcionaram, por outro tudo o que foi nacional foi ouro. A razão é muito simples, ou dás tudo em palco e lutas para te destacar num Super Bock internacionalizado ou vens já de papo cheio de fama. Da parte dos artistas estrangeiros só houve um nome que se esforçou por agradar, Akua Naru. A rapper americana fez-se acompanhar por músicos de Jazz e isto é uma lição para todos os rappers que aspiram uma boa actuação. Não há DJ e bailarinas que façam melhor trabalho que meia dúzia de músicos competentes. Se Future representa a anti-performance e se muitos artistas seguem o mesmo modelo, então não vale a pena sequer apostar nestes nomes. Só agrada a quem acredita que um bom concerto requer um baixo ensurdecedor e um estilo de rap balbuciado, devido à falta de capacidade do autor de fazer o que lhe compete, proferir palavras de modo a formar rimas. Mumble Rap é o equivalente a um jogador de futebol que não sabe passar a bola, só fintar até lhe partirem as canetas.

Do lado da selecção nacional, tivemos Keso, um diamante por lapidar, um rapper com um espírito genuíno, uma técnica superior à média e que só peca por não ter grandes beats. Acredito que se ele seguir o conselho oferecido no parágrafo em cima, pode almejar um lugar no topo. É fácil imaginar o que faria Keso com três ou quatro músicos de jazz em palco e pensar no que disse na sua entrevista ao shifter “Se algum dia chegar a um cachet decente que me permita tocar com uma banda, eu vou fazê-lo.”. Tirando esta nota, esteve muito bem em palco. Já que estamos nesta onda de falar pessoalmente com os artistas, Slow J, não tenho nada a apontar, o flow está no ponto, os músicos que te acompanham foram exímios e já conquistaste uma legião considerável, os meus parabéns.

Ainda nas questões nacionais do segundo dia, contámos com uma boa prestação de NBC, The Gift a renascerem das cinzas para um Meo Arena a meio gás e o projecto Língua Franca, que não foi bem um momento de união, mais uma montra dos singles de cada interveniente.

O terceiro dia de festival foi dominado por um público que veio pelo variado leque de artistas. Estou a brincar, foi pelos Deftones. Quem foi e viu o que se passou no último dia sabe que foi bem mais que Deftones. Vamos começar pelo primeiro nome do dia, Bruno Pernadas. Pode ter 20, 200 ou 2000 pessoas a vê-lo, surpreende sempre, com uma força da natureza para meter toda a gente a ouvir Jazz. Confesso que sou suspeito, acredito que o que sinto com a música do Bruno Pernadas é equivalente ao que uma adolescente sente com a sua banda predilecta. Uma fusão sem precedentes nem barreiras de géneros. Tenho dificuldades em decidir se gosto mais do formato do Worst Summer Ever ao vivo ou se do disco dos crocodilos. Qualquer um deles é sempre bem servido com prestações de alto nível por músicos extraordinários. Seguiu-se um concerto morninho de Silva, o convite perfeito para visitar o palco mais pequeno, para ver os Stone Dead, numa versão bem mais Punk que o Punk Rock do seu último disco, Good Boys. Gosto deste revivalismo bem vivido, traz à memória os putos Zanibar Aliens.

De Stone Dead para Taxiwars só mudou o género, o êxtase era o mesmo. Este Jazz Rock da banda belga deve muito ao estilo Brotzmanniano do saxofonista Robin Verheyen. A versatilidade, ou a falta dela, por parte de Tom Barman acaba por ser um trunfo. Seja no rock alternativo seja no Jazz, o vocalista de dEUS mantém sempre o mesmo registo, enquanto que tudo o que o rodeia se adapta. Para completar a sequência de música pesada, os portugueses Black Bombaim tomaram de assalto o Super Bock numa rendição a marinar entre o free Jazz e um rock experimental, baseado no seu último disco com Peter Brotzmann.

Para quem não queria ver Deftones, teve a possibilidade de ver os Sensible Soccers. Donos do seu género, que se define por um resultado único. A singularidade deste grupo transporta-nos para o actual panorama avante-guarde português. Cheio de noise rock e divagações electrónicas, grupos como este transpiram criatividade e uma vontade de colocar Portugal na boca do mundo. Nunca desiludem.

O encerramento dos concertos no MEO Arena ficou a cabo dos Martinez Brothers. É mentira, mas podia ser verdade. O set de Fatboy Slim não passou de medleys dos seus maiores hits, conectados por um house digno de Ibiza, não de um Super Bock. Um bom pretexto para quem queria apanhar o metro antes da uma.

No compto, o Super Bock Super Rock vingou pelas bandas nacionais, mas perdeu muito pela escolha dos nomes grandes. Foi Rock, foi Jazz, foi Hip-Hop, só não foi o que o público queria.

Fotos de: Manuel Casanova/Shifter

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