O armamento nuclear na cultura

Na voz de Bob Dylan, no cinema de Stanley Kubrick, nas esculturas de Gustav Metzger, no design de George Holton.

 
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Apesar de tantas vezes tudo nos parecer uma estreia absoluta ou por algum motivo relacionado com o presente, a realidade é que num passado não muito distante algumas das crises pelas quais hoje passamos conheceram momentos ainda mais dramáticos.

Um desses temas, provavelmente o mais proeminentes e preocupante, é sem dúvida o do armamento nuclear. Se a crescente tensão entre Estados Unidos e Coreia do Norte traz o assunto de volta para ordem do dia, um olhar atento sobre a cultura pós-guerra mostra-nos como na verdade ele nunca nos abandonou.

Na voz de Bob Dylan, no cinema de Stanley Kubrick, nas esculturas de Gustav Metzger, no design de George Holton, multiplicaram-se os avisos e as pistas para que não se repetissem os erros do passado e houvesse coragem para escolher um rumo diferente. Como nem todos os alertas do mundo parecem ter sido suficientes, recordamos alguns dos mais marcantes e que de alguma forma te podem ajudar a situar neste complexo e confuso mundo. 

GodzillaTomoyuki Tanaka (1954)

Esta é provavelmente uma das maiores surpresas da lista. Apesar de amplamente conhecido por todo o mundo, o filme Godzilla carrega consigo uma história não tão conhecida. Criado poucos anos depois da primeira e única ofensiva nuclear de larga escala, Gojira – na versão original japonesa – é uma criação do icónico Tomoyuki Tanakaque pretendia representar o medo do povo japonês após os terríveis ataques de que foram vítimas – como aliás revela a história do surgimento do monstro nascido após uma explosão nuclear.

Dr. Strangelove or How I Stopped Worrying and Learned to Love the Bomb – Stanley Kubrick (1964) 

Da sétima arte esta é uma das referências mais óbvias e, de certo modo, mais caricata, ao perigo das armas nucleares. Stanley Kubrick, realizador norte-americano, vivia realmente assustado com a possibilidade atómica e retratou esse seu estado de espírito com uma filme satírico evidenciando o absurdo de toda a situação. Como nota de curiosidade: Kubrick chegou mesmo a planear mudar-se para a Austrália em fuga deste seu temor.

The H Bomb Hits Lower New York City – Chesley Bonestell

Atomic Bomb – Andy Warhol

Tom Lehrer – Who’s Next

Bob Dylan – With God on Our Side  (1964)

With God on Our Side não é uma música exclusivamente dedicada à preocupação nuclear mas sim a toda a problemática da guerra. Com a força das palavras que valeu recentemente a Bob Dylan o prémio Nobel, o à data jovem artista versa sobre a real necessidade e motivação por detrás de inúmeras guerras, desde a Guerra Civil Espanhola até à guerra do Vietname, passando, é claro, pelo tumulto atómico.

But now we’ve got weapons
Of chemical dust
If fire them we’re forced to
Then fire them we must
One push of the button
And a shot the world wide
And you never ask questions
When God’s on your side

Orchestral Manoeuvres In The Dark – Enola Gay (1980)

Apesar da distância temporal esta é uma das referências que se tornou mais populares e ainda hoje passa nas rádios. Aos mais desatentos pode passar despercebida mas as referências são por demais evidentes. Enola Gay era o nome de um dos aviões bombadeiros B-29 que largaram as armas sobre terreno nipónico. Na música composta e interpretada pela banda britânica, a referência é portanto evidente e não é única. Toda a letra é marcada por uma narrativa melancólica e irónica sobre os efeitos do comportamento de Enola Gay, usado como personificação de toda a acção destrutiva.

Enola Gay, you should have stayed at home yesterday
Ah-ha words can’t describe the feeling and the way you lied
These games you play they’re going to end in more than tears some day

Pink Floyd – Two Suns In The Sunset (1983)

Um dos dois sóis que se põem no horizonte da emocionante canção dos Pink Floyd, uma das últimas em colaboração com o lendário Roger Waters, é a enorme bola de fogo criado pelas explosões das bombas. A música expressa o sentimento meio paranóico que se vivia na época e o medo eminente que representava a Guerra Fria, nesta música imaginada no extremo das suas possibilidades, como um segundo sol para toda a humanidade. Durante a música também se ouve uma referência a Ashes and Diamondstítulo do último filme da trilogia criada por Andrzej Wajda sobre a guerra – os outros são A Generation (1955) e Kanal (1957).

É de extrema importância notar que nesta lista só constam obras – tirando o exemplo de Godzilla – produzidas nos Estados Unidos ou na Europa. No Japão, área fustigada, há um grande legado em vários formatos como no tão tradicional Anime. Se quiseres saber mais, podes ler aqui.

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