Baby Driver é música para os nossos sentidos

Edgar Wright volta a comprovar porque é que é considerado um realizador de culto com filme que agrada tanto aos olhos como aos ouvidos.

Baby Driver filme

A premissa de Baby Driver assenta no conflito interno entre as repercussões da irresponsabilidade de Baby (Ansel Elgort) no passado e o novo amor que ele encontra no presente. Baby é um motorista de fuga que sofre de acufeno (tinnitus), condição médica que lhe provoca um constante zumbido e que só consegue abafar quando ouve música. Este é um detalhe importante e muito bem explorado ao longo do filme, pois nos raros momentos em que não se ouve música pode-se escutar um incomodativo zumbido, de barulho de fundo, que coloca assim o espectador no papel de Baby.

Posto isto e sem rodeios, a estrela do filme é sem dúvida alguma a banda sonora! Composta por uma extensa coletânea de sucessos que vão desde o funk ao rock, assume-se como o pilar estrutural do filme. A interação desta com a imagem faz com que fique explicita a intenção do filme não ser levado muito a sério, pois ao bom estilo de Edgar Wright, estamos perante puro entretenimento.

Isto faz com que todos os elementos do filme toquem em uníssono. Por exemplo, (fora a banda sonora) a própria personagem de Ansel Elgort assume-se como simples e reservada, traços de personalidade que o argumento, de certa forma, partilha com o protagonista. Pode-se mesmo dizer que se trata de uma montagem gráfica que conta a historia de uma trilha sonora composta previamente, como se de um pseudo-musical ou até mesmo de um longo videoclip se tratasse. Cada música escolhida tem um propósito no filme e isso eleva consideravelmente a sua qualidade.

Não se trata apenas de um exemplo de montagem criativa e ao mesmo tempo meticulosa, estamos perante uma viagem sensorial. Para os ouvidos mais atentos, esta composição pode ser notada ao longo de toda a película, mas é no terceiro acto que ela brilha! Numa das cenas de acção podemos ouvir armas a serem disparadas ao som de Tequila, dos Button, Down Brass, o que torna a cena entusiasmante e memorável.

No que toca a prestações, Jon Hamm, Jamie Foxx e Ansel Elgort interpretam as suas personagens de forma quase perfeita, sendo que se torna fácil perceber as suas motivações dentro do mundo do crime, sejam elas necessidade, gosto ou até mesmo vício, sem que seja necessário recorrer a muita explicação ou história.

Kevin Spacey, apesar do reportório de sucesso, deixa um pouco desejar, aparenta ter entrado no rol de actores que se limita a encarnar a mesma personagem em todos os papeis que interpreta. À semelhança de Jeff Bridges e Johnny Depp – talvez os casos mais emblemáticos desta problemática cinematográfica – Spacey não parece ser escolhido para interpretar este papel pela sua qualidade enquanto actor mas sim porque a personalidade da personagem que interpreta se enquadra nos moldes do seu carácter pessoal. Numa abordagem mais simples, é um personagem que se torna inerente a Kevin Spacey.

No geral, Baby Driver é um filme frenético que capta de igual forma o nosso interesse e os nossos sentidos. Num misto de acção, drama e comédias damos por nós a bater o pé ao ritmo de uma banda sonora capaz de ombrear com a de Pulp Fiction e, mais recentemente, Guardians of the Galaxy. Duvidam? Vamos antes deixar que estes 6 minutos iniciais de Baby Driver falem por sim.

 

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