Fotógrafos portugueses boicotam Israel

Movimentos de boicote a instituições de cultura israelitas não são ainda um caso totalmente novo em Portugal.

 
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Hoje, 19 de Agosto, assinala-se o Dia Mundial da Fotografia e 40 fotógrafos portugueses não quiserem deixar passar a data, aproveitando-a para marcar publicamente a sua posição sobre as iniciativas do Estado Israelita, que acusam de usar propaganda cultural para branquear a opressão exercida sobre o povo palestiniano (podes saber mais sobre esta relação aqui).

Em consequência da sua posição, os signatários do movimento comprometem-se a não aceitar convites ou financiamentos profissionais do estado de Israel ou de outras instituições culturais que lhe sejam cúmplices. O comprometimento é o primeiro do género em Portugal e segue iniciativas semelhantes levadas a cabo por centenas de artistas de relevo nos EUAReino UnidoÁfrica do SulCanadáSuíça e França – nas quais se incluem nomes como Roger Waters, Ken Loach, Mike Leigh, Lauryn Hill, Emma Thompson, Naomi Klein, Brian Eno, Jean Luc Godard. Os fotógrafos mantêm o boicote até Israel “cumprir o direito internacional e respeitar os direitos humanos dos palestinianos”.

O boicote cultural a Israel faz parte do movimento global de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), inspirado na campanha de boicote sul-africana contra o apartheid nos anos 80. Entre os apoiantes estão João Pina, vencedor da Prémio Estação Imagem Viana do Castelo 2017, o único prémio de fotojornalismo de Portugal, e Nuno Lobito, um dos fotógrafos portugueses mais viajados de todos os tempos (204 países, 193 reconhecidos).

A nota publicada no site da BDS Portugal ilustra ainda com exemplos o estado opressor que pretende boicotar, incluindo testemunhos de artistas palestinianos ou outras informações que demonstram a sobreposição do Estado israelita ao povo e à cultura palestiniana. Outros casos específicos, relativos a fotógrafos, são também descritos no comunicado, como o de Ahmad Gharabli, da AFP, num cenário que alguns apontam como um dos mais perigosos para jornalistas.

“Apoiamos a luta palestiana pela liberdade, justiça e igualdade”

“Apoiamos a luta palestiniana pela liberdade, justiça e igualdade. Em resposta ao apelo de fotógrafos, jornalistas e trabalhadores culturais palestinianos para um boicote cultural a Israel, comprometemo-nos a não aceitar convites profissionais ou financiamentos do Estado israelita ou cooperar com qualquer instituição ligada ao seu governo, até que Israel cumpra com a lei internacional e  os princípios universais de direitos humanos”, comprometem-se os fotógrafos portugueses.

A nota é acompanhada por intervenções individuais de alguns dos signatários, que podes ler abaixo:

Segundo Miguel Carriço, vencedor do prémio do Concelho da Bienal de Vila Franca de Xira 2012:

“Como fotógrafo, e como tendo testemunhado na primeira pessoa – durante uma viagem para lá – os crimes que se praticam (todos os dias) na Palestina por parte de Israel, subscrever esta causa é um ato natural, tão natural que se torna fundamental aderir e divulgar esta causa por todos os meios possíveis.”

O fotógrafo-viajante Nuno Lobito comenta:

“Chegou a altura para que o apartheid israelita receba o mesmo tratamento que o apartheid sul-africano e ser alvo de um boicote abrangente internacional até sejam respeitados os direitos humanos. Os fotógrafos não podem continuar em silêncio sobre o tratamento de seus colegas palestinianos sob uma ocupação indefensável que dura há mais de meio século. Os palestinianos pediram a nossa solidariedade através do boicote e este compromisso é a nossa contribuição prática para a sua luta.”

O signatário José Soudo, veterano professor de fotografia e historiador, comentou:

“A História da actividade Fotográfica, está cheia de exemplos, que nos chegam desde o século XIX até aos dias de hoje, que nos comprovam que muitos e excelentes fotógrafos, colocaram o seu olhar ao serviço dos desfavorecidos e dos oprimidos.”

Movimentos de boicote a instituições de cultura israelitas não são ainda um caso totalmente novo em Portugal. Em 2011, o Festival Internacional LGBT Queer Lisboa abandonou o patrocínio israelita na sequência de uma campanha BDS. Este ano, activistas do BDS pediram ao Festival de Almada para cancelar uma colaboração com o governo israelita e a sua campanha de marketing Brand Israel.

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