Os desportos do futuro estão aí

As novas tecnologias também sabem dar uns toques na bola.

Apesar dos principais desportos encontrarem a sua génese nos séculos XIX e XX, as modalidades continuam a surgir como cogumelos. O hábito comanda o pensamento e o conceito de desporto tradicional corre pelos relvados, pistas ou nada pelas piscinas. Com ou sem bola, o movimento do corpo e a transpiração são (quase) uma constante, mas os tempos são outros. O progresso motiva a inovação e a tecnologia encontra nova casa no desporto. Tanto na realidade como no mundo virtual, com ou sem os dedos colados ao comando, o jogador conhece novas fronteiras.

Os avanços da tecnologia têm marcado o século XXI, mas não são exclusivos à área das ciências. Os eSports dão a cara à causa no campo do desporto, mas os “desportos do futuro” não se limitam ao ecrã do computador.

eSports

Apesar de ter alcançado maior estatuto nos últimos anos, os eSports remontam ao início dos videojogos, nos anos ’70. Mais concretamente em 1972, a competição de Spacewar promovida pela Universidade de Stanford (EUA) é considerado o torneio de videojogos mais antigo. Nos seus primeiros anos, os campeonatos cingiam-se principalmente aos arcade games, como Space Invaders, Pacman ou Donkey Kong.

Cartaz de um torneio da Atari, em 1981.
Cartaz de um torneio da Atari, em 1981.

Na década de ’90, a Internet e os benefícios da conectividade à escala global coincidiam com a época de ouro dos videojogos. A Nintendo foi das primeiras entidades a promover competições a grande escala. Os Nintendo World Championships, em 1990, fazia uma tournée pelas várias cidades dos Estados Unidos e testava as habilidades digitais dos jogadores em Super Mario Bros, Rad Racer e Tetris. O prémio era um “modesto” cheque de 250 dólares. É também nesta altura que o franchise Warcraft começa a enfeitiçar os seus fãs, assim como CS: Counter Strike inicia a sua ofensiva global na Liga Profissional de Ciberatletas.

Hoje em dia o cenário mudou radicalmente. As competições atingem a ordem dos milhões de participantes e a indústria de videojogos vê o desporto com outros olhos. Títulos como FIFA, Overwatch, Counter Strike, League of Legends ou Dota 2 apontam a mira para os torneios profissionais. Os novos campeonatos de videojogos online, como a Major League Gaming e os prémios a ultrapassar os seis dígitos nos cheques motivam a formação de equipas profissionais, como a Fnatic ou a Team Liquid, cujos atletas se dedicam ao teclado e ao rato a tempo inteiro.

Campeonato Mundial de League of Legends no Staples Center (Los Angeles), 2013. Créditos: Riot Games
Campeonato Mundial de League of Legends no Staples Center (Los Angeles), 2013. Créditos: Riot Games

Em Portugal, os torneios deste género ainda não logram nas capas de revista, mas vão dando os seus primeiros passos. A eSports Portugal League atualmente promove torneios de Hearthstone, Counter Strike:GO e League of Legends. Contudo, a Bitzer, a qual garante ser a primeira agência lusa dedicada exclusivamente aos eSports, promete competições nacionais profissionais com prémios superiores a 20 mil euros, já com início marcado para o próximo mês de Setembro.

Já a Federação Portuguesa de Futebol também não fecha os olhos à inovação desportiva. O principal organismo do futebol português criou este ano o eSports Allianz Challenge, com o prémio principal a atingir os dez mil euros e uma viagem até à Dinamarca, para enfrentar o campeão mundial, Agge Rosenmeier. Na televisão, a RTP não vira as costas ao gaming e atualmente dispõe da plataforma RTP Arena, totalmente dedicada ao desporto virtual.

Gonçalo "RastArtur" Pinto, vencedor do FPF Allianz Challenge 2017. Créditos: FPF
Gonçalo “RastArtur” Pinto, vencedor do FPF Allianz Challenge 2017. Créditos: FPF

Um dos grandes entraves deste desporto emergente é a sua classificação como tal. Apesar da logística e dimensões que já alcançou em determinadas regiões, o eSports ainda não é considerado “desporto” por diversas federações a nível mundial. Apesar disso, os quase 400 milhões de espectadores anuais foram importantes para ultrapassar barreiras: por exemplo, os eSports são um desporto medalhado nos Indoor Asian Games desde 2007 e em 2022 irão figurar com igual estatuto nos Jogos Asiáticos.

Equipas asiáticas medalhadas no eSports entre 2007 e 2013 nos Indoor Asian Games. Créditos: Quartz
Equipas asiáticas medalhadas no eSports entre 2007 e 2013 nos Indoor Asian Games. Créditos: Quartz

Segway Polo

A modalidade pouco mais de dez anos tem – criado em 2004 -, mas já conta com torneios internacionais. Inspirado no polo, a diferença encontra-se no meio de locomoção: enquanto a tradição cavalga, a inovação rola sobre rodas de um segway. Steve Wozniak, co-fundador da Apple, foi uma das primeiras personalidades a praticar o desporto, apadrinhando inclusive o torneio mundial da modalidade.

As regras são as mesmas, só troca o cavalo pelo segway. Créditos: Grace Dobush/Quartz
As regras são as mesmas, só troca o cavalo pelo segway. Créditos: Grace Dobush/Quartz

A Woz Cup apareceu pela primeira vez em 2006 e foi disputada entre a equipa de Steve, os Silicon Valley Aftershocks, e os New Zealand Pole Blacks, na cidade neozelandesa de Auckland, pelo simples facto de serem as únicas equipas profissionais a nível mundial até então. Atualmente, além de uma federação internacional que tutela o desporto, já conta com equipas nos Estados Unidos, Nova Zelândia, Suécia, Alemanha e Barbados.

Team Barbados, vencedores da Woz Cup 2017. Créditos: ISPA
Team Barbados, vencedores da Woz Cup 2017. Créditos: ISPA

A décima edição da Woz Cup, que decorreu no passado mês de Julho, na Alemanha, contou com 18 equipas de sete países e levou ao primeiro lugar do pódio os caribenhos de Barbados.

Drone Racing

Antes da comercialização em massa dos drones, já estes existiam para funções fora do campo de entretenimento. Longe do lar familiar, o objeto telecomandado é um instrumento dos quadros militares, inserido em jogos de estratégia e reconhecimento do terreno. Recentemente, os drones invadiram as lojas de eletrónica e têm sido cobiçados por miúdos e graúdos.

Tal como um helicóptero, carro ou avião telecomandado, inicialmente o seu uso era sobretudo recreativo. Uma ida ao parque ou à praia e bastava levantar voo, como se de um papagaio de papel se tratasse. Contudo, o drone contém certas especificidades que lhe permitem realizar corridasdrone racing. Capaz de atingir velocidades superiores a 190 km/h, basta colocar uma câmara e conectá-la a um dispositivo – como o telemóvel, por exemplo – e está pronto para correr.

Desde 2015, a Drone Racing League é um dos principais responsáveis pelas competições em todo o globo. Contudo, e apesar de contratos com emissoras como a ESPN, Sky e um investimento a rondar 12 milhões de dólares, ainda não dispõe dos meios suficientes para sustentar os seus atletas. “Eu ainda tenho de trabalhar como engenheiro de software a tempo inteiro, por isso tenho que gerir o tempo cautelosamente”, diz Matthew Evans, atleta da DRL. Para tal, a Allianz, seguradora alemã, está disposta a financiar o campeonato: “O que a Red Bull fez com os desportos radicais é o que nós queremos fazer com os desportos digitais”.

“Nós queremos tornar o drone racing um dos principais desportos do mundo”, diz Jean-Marc Pailhol, representante da Allianz.

Pista de corrida de drones do World Drone Prix 2016, no Dubai. Créditos: Bloomberg
Pista de corrida de drones do World Drone Prix 2016, no Dubai. Créditos: Bloomberg

Jordan “Jet” Temkin é o atual campeão mundial, ao vencer o World Championship 2017, em Londres. Luke Bannister, rapaz de 16 anos, falhou em deter o título conquistado em 2016, no Dubai.

Hoversurf

Aquilo que pode ser considerado um drone para transporte humano pode marcar o próximo passo dos desportos radicais motorizados. O hoversurf, tal como os criadores descrevem, é como “voar com a mesma simplicidade de se guiar uma bicicleta”.

“A máquina basicamente surfa pelo ar ao alterar altitude e direção”, diz a empresa criadora da hoverbike.

Com um toque futurista, pretende-se misturar conceitos de vários desportos radicais, providenciando sensações de velocidade, estabilidade e inovação: “dedicámos muitos dos recursos e esforços na Investigação&Desenvolvimento, de modo a que o tamanho da unidade e a sua forma se assemelhassem a uma BMX. O design da plataforma SCORPION foi inspirado no motocross, combinando depois com as qualidades do voo, providenciando as sensações de velocidade e estabilidade”. A empresa encontra-se também a trabalhar em projetos de transporte de clientes – táxis – e de mercadoria através de hoverbike.

Com o progresso tecnológico a fluir sem quaisquer retrocessos significativos, a sociedade consegue perspetivar mudanças em todos os campos, do seu estilo de vida. A inovação tecnológica promete revolucionar com ideias mais ou menos brilhantes o conceito tradicional de desporto.