É na boa esmurrar um nazi?

Não é preciso retroceder muito na memória para percebermos que ao longo do último ano, o incentivo ao ódio é cada vez mais banal e tem cada vez mais adeptos.

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Os últimos tempos não têm sido fáceis em nenhum país do mundo, desengane-se quem ainda acha que o crescimento de ideologias baseadas em ódio e ideias sectárias é um exclusivo dos Estados Unidos da América, uma consequência da eleição de Trump ou a última moda numa das democracias mais modernas. Pelo contrário – e como é característica da ascensão deste tipo de movimento – as motivações ultra-nacionalistas facilmente encontram corpos e cabeças onde fazer eco, um pouco por todo o mundo.

Não é preciso retroceder muito na memória para percebermos que ao longo do último ano, o incentivo ao ódio é cada vez mais banal e tem cada vez mais adeptos.

No meio deste confronto uma importante questão se levanta: será correcto esmurrar um fascista? A discussão ganhou tração em Janeiro deste ano, depois de um manifestante ter dado um soco a um conhecido membro da chamada alt-right norte americana, Richard Spencer, e mais recentemente com a tensão entre manifestantes em Charlottsville, mas não é uma dúvida de agora.

Alguns notáveis intelectuais, filosófos e sociológos já se debruçaram sobre ela mas é mais um questão de dificil consenso.

Existem duas formas de abordar a questão que, como em qualquer dicotomia, se opõe. O importante é então, perceber a argumentação por trás de cada uma das afirmações – tanto o sim, como o não.

Comecemos pelo sim, a que popularmente é mais simples de aceitar. Todos sabemos que agredir alguém é profundamente errado mas o que faz de algo “errado” é o alçapão por onde passa este soco. Uma das tradições – chamemos-lhe assim – filosóficas para considerar algo errado deriva da ideia de Universalidade, isto é, de pensarmos como queríamos que a regra se aplicasse ao mundo e a nós. Por aqui, e assumindo a ideia mais ou menos unânime de que reprimir ideais nazis é bom, a violência com que isso é feito deixa de ter tanto peso. Embora esta pareça uma justificação simples e aceitável, esconde alguns pressupostos interessantes, por exemplo, a ordem com que organizamos os diferentes factores na nossa pauta moral. “A violência é má” tem um peso superior ou inferior à necessidade “parar o nazismo”? Simplificando, poder-se-à simplesmente pensar se neste caso os meios justificam os fins. No entanto e como todas as respostas que parecem ser simples, este sim está longe de o ser. Toda a argumentação acima apresentada é feita com base em suposições e requer uma enorme reflexão moral por parte do indíviduo, realmente incapaz no momento de prever a total abrangência das suas acções e por isso incapaz de decidir com clareza sobre a menos má das opções. Na prática, socar alguém por estarmos convencidos de que a sua intenção é perigosa deixa-nos em posição de ser socados quando alguém sentir o mesmo em relação a nós – e aqui é preciso responsabilidade e sentido crítico apurado.

Há palavras proibidas? Gestos proibidos? Que limite de tolerância merece a defesa da intolerância?

Isso leva-nos para o outro lado da resposta, claro está, a do não. Embora possa ser mais dificil de perceber esta é a resposta mais fácil de explicar e defendida, por exemplo, por Slavoj Zizek em entrevista recente ao Quartaz ou sustentada por ideais de homens como o norte-americano Noam Chomsky.

Tanto para um como para o outro, o essencial que define esta resposta é, curiosamente, a primeira premissa da resposta anterior. A ideia de universalidade com que concetpualizam o mundo e a sua pauta de valores, não abrem excepção para aplicar violência física nem ao nazismo – sobretudo por haver uma certa experiência implicita de que isso pouco pode resolver.

O sempre controverso Zizek, recorda na entrevista ao Qz uma das suas mais tiradas mais polémicas, quando disse que o maior problema de Hitler era ser menos violento que Gandhi, mas que contextualizada ilustra bem o argumento. Por um lado Hitler usou e abusou da violência física mas a sua ideia era manter tudo igual, por outro Gandhi usou violência simbólica para guiar a libertação de um país. Para Zizek, o que isto mostra e significa na prática, é que todo o tipo de violência gratuita só merece uma de duas respostas: o desprezo ou a agressão passiva e simbólica que reduza, neste caso o nazi, à sua insignificância.

Zizek, diz-nos no fundo que uma forma de violência superior passa por não descer ao nível gratuito da agressão, dando sempre o exemplo de decência e correção. A mesma lógica está presente na sintética afirmação de Chomsky sobre o caso de Richard Spencer.

“Wrong in principle, and tactically self-destructive.  When we move to the arena of violence, the most brutal guys win – and that’s not us.”

A conclusão deste artigo é que não há uma só conclusão possível. O caso, na prática, nem merece o escrutínio ou julgamento sobre a ação. A reflexão mais importante será sobre a consequência das nossas acções num todo e a concepção de novas tácticas de violência simbólica não agressiva com que se possa dizimar o pensamento nazi sem querer jogar na sua especialidade.

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