Milhões de Festa: esqueçam tudo, e mergulhem

Esqueçam as bandas repetidas na vossa caderneta, os vencedores do top do ano passado da Pitchfork, os concertos que mais querem ver, as vossas bandas preferidas.

Esqueçam tudo o que vos aconteceu no decorrer deste ano. Chegou o momento de fumar os problemas e beber as desgraças, transformá-las em alegrias e novas amizades, numa cidade paralela, onde o tempo é relativo e os dias ficam mais baralhados qual jogo de sueca à beira da piscina. Uma espécie de black lodge dos festivais onde todos morremos, todos os dias, sufocados por uma força interna que há um ano gritava por socorro, à espera deste regresso. Respirem, já cá estamos… de volta a casa.

Esqueçam o que sabem sobre festivais. Os bilhetes com mais de três dígitos, esgotados 5 meses antes por crianças e bloggers de 16 anos, que assumem o Shazam tão essencial como as estacas no kit de sobrevivência para festivaleiros. As filas intermináveis para tudo; para as cervejas a 5 euros, às vezes Heineken, para as refeições de roulotte – um hambúrguer do Psicológico que não é assim tão bom. Para ganhar brindes infinitos e para encher o stock de t-shirts de pijama para o resto do ano. Os concertos sobrepostos e os palcos sobrelotados.

Conheçam a festa da pequena cidade de Barcelos; o Escondidinho e as suas refeições a 5 euros. A casa do Sr. Vitor, que nunca nos deixa da mão, mesmo ali a 15 minutos do recinto. Por estes lados, 25 euros são suficientes para não termos de dormir sobre colchonetes e pedras, e acordar com o sol na cara às 9 da manhã durante o festival inteiro. Acreditem, depois da festa que é o Milhões, um colchão faz maravilhas a que tem as costas de alguém com 60 anos.

Esqueçam as correrias. As lutas entre bandas num alinhamento rabiscado no horário do festival, as horas contadas para jantar e o tempo perdido a tentar encontrar aquele lugar ao lado do poste mais à esquerda da reggie, da foto que o teu amigo mandou por WhatsApp. As mil cabeças, os smartphones e as raparigas aos ombros de um pobre coitado qualquer. A caça às mesas, as lutas por um espacinho na relva, ou uma preciosa oportunidade para descansar. Tudo o que queríamos era um lugar longe da confusão e da multidão, relaxar as pernas e preparar o gig que vem a seguir.

Conheçam o pacato recinto do Milhões de Festa. O pequeno parque da cidade é dez vezes maior que, por exemplo, o bruto Parque da Bela Vista, casa do Rock in Rio. O Palco Taina é suficiente para vos animar os fins de tarde, às vezes tentador o suficiente para vos fazer tirar os pés de molho da piscina da crianças. Quanto à piscina não é preciso dizer muito. É uma piscina, tem um palco, há finos, Sommersbys, biquinis (ou falta deles) e as camisas mais pausadas do verão. Incrível, não é? Há ainda os Palcos Milhões e o Lovers&Lollipops, nunca com concertos a acontecerem ao mesmo tempo, com o melhor que a música alternativa, novas tendências e velhas carcaças têm para vos oferecer. Este ano, graças a deus, com muito rock n’roll.

Esqueçam as bandas repetidas na vossa caderneta, os vencedores do top do ano passado da Pitchfork, os concertos que mais querem ver, as vossas bandas preferidas, os melhores discos do ano e os efeitos especiais mais marados que já viram num gig. Esqueçam os concertos com três horas e trinta mil fãs na plateia. Esqueçam as letras que decoraram numa semana, o LP que mais rodou no vosso gira-discos e a playlist do Spotify mais tocada nas festas com os  amigos. Esqueçam isso tudo apenas por 4 dias. Têm o resto do ano para lhes darem o devido protagonismo.

Conheçam novas bandas, artistas com formas de expressão e conceitos mais frescos para apresentar. Performances quase teatrais, às vezes quase musicais, novas linguagens que vos vão fazer dançar, ou algo do género, conforme aquilo que a água-Sonasol vos proporcionar. Acrescentem novos cromos à caderneta (olhem que passam por aqui uns bem raros), e expandam a vossa mente além tudo e mais alguma coisa, porque o Milhões não tem limites. Quem sabe aqui também percam os vossos.

Esqueçam as recepções aos campistas e os concertos para satisfazer bebedeiras maiores que os sets dessa noite. As bandas para aquecer ou os DJs com uma playlist semelhante às descobertas da semana. Conheçam a primeira noite em Barcelos, onde tudo começa com o devido pé no acelerador. Infelizmente, Milhões só há um por ano, e enquanto cá estamos é para fazer render. O chamado dar tudo. Que não deve ter fugido ao lema dos Stone Dead a fechar canhões e a virar finos no backstage. Estamos todos em sintonia. E ainda bem, porque rock n’roll, ganzas e álcool são desportos que ninguém devia praticar sozinho. Depois de aumentar a nossa coleção de tacinhas de vinho verde do Taina, Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs (perdoem se tive “Pigs” a mais ou a menos, é que nem sóbrio) veio rebentar com a escala, ouvidos e sabe-se lá mais o quê. Porra, que aquilo bruto. Até pessoal que não é desta onda do Doom/Stoner Rock sentiu a pocilga. E isso é um dos fenómenos que torna o Milhões especial. Depois desta tareia, só os DJs da Casa tinham a jarra certa para avacalhar o resto das carcaças no recinto. Pelo menos até ao after.

Esqueçam o primeiro dia. As olheiras, as asneiras que fizeram fora de horas e aquele fino a mais no after cansado (saudades Xispes <3). As guitarras e os riffs pesados, por grande parte do segundo dia. Conheçam o amargo sabor da ressaca. Não desesperem. Tudo melhora quando tens cachorros ou tostas a 2 euros, mesmo ao lado da piscina. Mais um mergulho maroto, uma ganza e uma Sommersby, estamos prontos para os GPU Panic + Shake Machine e os Orchestra Of Spheres – destaques deste primeira tarde de Palco Piscina. Vão a casa tomar aquele duche, nas calmas que tudo é perto em Barcelos. Não é preciso grande correria para chegar ao recinto a tempo das betoneiras, dos bidões, synths e sei lá mais o que estava no palco em Faust + GNOD. Uns dos pais do movimento alemão Krautrock vieram até norte do nosso país mostrar porque são gigantes no experimentalismo. Dos ruídos e texturas passamos pelas danças, performances e alguns bustos. Nunca esquecer a senhora das limpeza da organização do Milhões que entrou em palco varrer as nossas expectativas. Mas calma, não ficamos por aqui. The Gaslamp Killer foi tão patrão que até nos fez esquecer um pouco dos riffs de Cocaine Piss – que tiveram muita postura. O Gaslamp matou-nos com a qualidade nas escolhas e na firmeza das transições. Entre o pop, hip hop (deu para perceber que é fã de Kendrick, mas quem nunca), rock ou qualquer outro estilo, roda ainda de Radiohead para Super Mario, para Dubstep, logo, sem conseguires processar, para Zelda!

Esqueçam mais uma noite que não devia ter acabado no after. As dores nas pernas e a vontade de ficar a morrer pelos lençóis, até vos doerem as costas. O pacote de mortalhas que acabou ontem já de manhã, o Kraut e bandas sonoras de videojogos. Conheçam a noite mais forte desta edição. Começamos cedo, a virar finos à beira dos MQNQ, que abriram a piscina para tarde bem quentinha. A certa altura o dia começa a complicar e o vosso grupo a dividir-se por entre MVRIA + Supa no technão na piscina, o concerto de Bitchin Bajas algutes pela cidade e um bom fim de tarde com rock n’roll no Taina. Desculpem as outras bandas mas o techno ganhou esta tarde. Até porque hoje os palcos estão concorridos e bem cedo há Yussef Dayes – do que melhor se ouviu de jazz no ano passado. O baterista veio apresentar uma das minha últimas aquisições para a prateleira lá de casa, Black Focus, disco produzido com Kammal, que não esteve presente em Barcelos. Não sentimos a sua falta, Yussef foi provavemente o gig mais competente, surpreendente e incrível deste Milhões. Obrigado.

Encham a garrafa de água, que graça às torneiras espalhadas pelos recinto é de borla, fechem mais uma, paguem mais finos e sigam para Sex Swing e Graveyard, porque o concerto especial de Cave Story + Duquesa + Ra-Fa-El foi só esquisito. Foi uma boa oportunidade para recuperar a jarda perdida da noite anterior. O rock pesado e sujo dos Sex Swing veio confirmar que este Milhões é para quem o preto é a única cor que interessa.  Logo a seguir, Graveyard conseguiram a enchente do festival. Acabamos o dia com a fritaria que o palco Lovers já nos vai habituando. Da desilusão do queer Yves Tumor, que em estúdio prometeu mas em palco carregar no play não basta, até ao maior avacalho da noite no set de DJ Katapila. É tudo isto que queremos para acabar a noite a partir chão como se estivéssemos numa nave dos ano 90.

Esqueçam que no dia a seguir vão voltar a faltar 365 dias até o próximo Milhões. Conheçam o último dia da festa da cidade de Barcelos, que acabou por se revelar no fim de noite mais estranho e confuso do festival. Mas já lá vamos. Primeiro há Mike El Nite + Ghost Wavvves a estrear o hip hop na piscina, e os melhores 25 minutos de fim de tarde com a Suave Geração. Pena que os atrasos do Taina tenham tirando protagonismo às melancias, melões, maços de Português Sauve e boa disposição que esta malta do norte nos ofereceu. Já pela noite, destaque para a pocilga dos Meatbodies, companheiros de Ty Segall e Fuzz, que em conjunto com o peso dos Bad Breeding salvaram a noite. A notícia do cancelamento de Powell veio estragar tudo. Um intervalo enorme sem música em Barcelos, à espera de um set do Hieroglyphic Being resgatado da piscina, que acabou por acontecer já depois do Dj Fitz. Cortou a pica, estragou a moca e acalmou a bebedeira. Tudo correu mal, até as palavras intermináveis do Quesadilla, na tentativa falhada de resgatar um fim de Milhões em dupla com o Fitz.

Mas o Milhões continuou a ser Milhões. Nem melhor, nem pior que todos os grandes festivais do nosso país. O Milhões é uma festa, diferente de todas as outras. É o que o torna tão especial e é isso que nos faz contar os dias para voltar a casa. Até para o ano.

Fotos de: Renato Cruz Santos/Lovers&Lollipops