Como um videoclipe pode ser um original protesto

Música chama-se "Hwages", numa tradução livre pode ler-se Preocupações ou Obsessões.

Mulheres da Arábia Saudita videoclipe
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

O vídeo não é de agora. A sua publicação no YouTube data de finais de 2016 mas, talvez pela barreira linguística, só agora se tornou viral. Nele, mulheres da Arábia Saudita clamam por igualdade num tom pouco habitual no país. Dançam ao som de “Hwages”, uma música pop mexida, com o tradicional hiqab sim, mas por cima de roupas bem mais coloridas que o habitual negro da cabeça aos pés.

É complicado perceber o que dizem, por isso se quiseres uma tradução da letra da música, o resumo do AJ+ transcreve alguns dos versos.

A letra pede a extinção dos homens por provocarem doenças mentais às mulheres. Lost in translation hão de ter ficado alguns pormenores importantes mas pelo tom e pelas imagens, é fácil perceber que o discurso anti-homens é uma forma caricaturada de pedirem igualdade e poderes para si.

O vídeo brinca constantemente com as proibições que o Governo saudita impõe às mulheres. Logo no início vemos, por exemplo, um grupo de raparigas num carro conduzido por uma criança. Uma referência clara ao facto das mulheres serem proibidas de conduzir, sendo que na realidade paralela do videoclipe, até uma criança – desde que do sexo masculino – o poderia fazer em vez delas.

Neste mundo alternativo, as mulheres também usam ténis e roupas de cores berrantes debaixo do hiqab, que ficam à vista quando andam de skate e jogam basket. Aqui também é possível gozar com Donald Trump, dançar na rua ou em parques de diversões, mas sempre sob o olhar atento de homens que vigiam o grupo passando de carro por onde elas andam.

O vídeo foi inspirado noutro, de 2014, que tinha a mesma letra mas uma produção de menor qualidade. Desta vez, trata-se de uma produção do realizador Majed al-Esa da produtora 8ies Studios, que desde então tem sido alvo de críticas. No Twitter, por exemplo, as opiniões dividem-se entre aqueles que consideram o vídeo ousado mas corajoso e enaltecedor das mulheres, e os que sentem que ofendeu a religião muçulmana e os homens no geral, pelos estereótipos com que os caracteriza.

Majed al-Esa não é figura estranha às polémicas do mundo árabe pelo seu trabalho. No ano passado, sua música de sucesso “Barbs”, que inspirou um passo de dança específico que foi visto como insultante para o Islão, levou à prisão de vários indivíduos que carregaram vídeos de si mesmos a dançá-la. Até agora, não há registo de detenções relacionadas com “Hwages” e a música continua a espalhar-se em força pelo mundo.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!