A obra mais singular dos Pink Floyd faz 50 anos

As letras e constantes referências espaciais acabam por conceder ao disco o rótulo póstumo de primeiro registo "space rock" da história.

Tal como com vários outros registos psicadélicos, há quem acredite que The Piper at the Gates of Dawn sintetiza o movimento. A ideia é válida, desde que não tenhamos o psicadelismo como um género órfão de uma obra que o defina. A melhor definição de um género passará antes por um conjunto de registos que num ajudem a compreender o todo.

Os Pink Floyd aproximam-se mais do negrume dos The Doors do que das bandas californianas ligadas ao Summer of Love que está a acontecer. Esse lado negro está relacionado com o imaginativo fosso sem fim estilo Alice in Wonderland de Syd Barrett. Mas, embora comumente e quase exclusivamente creditado a Barrett, The Piper at the Gates of Dawn tem muito dos restantes Pink Floyd, principalmente de Roger Waters. É ele que está por trás dos sons vocais que chegam a servir de percussão, é ele que traz as mais notórias referências psicadélicas e complexas da estreia dos Pink Floyd.

Os Beatles eram melódicos, estrelas estratosféricas, os Pink Floyd significam um futuro em que os elementos de uma banda não querem ser estrelas, não tocam singles na televisão, compõe canções sem restrições temporais, não impõem limites à rocambolesca imaginação de Barrett, ele que liricamente só se consegue rever nas letras carregadas de personagens mitológicas da Incredible String Band.

Mas regressamos aos Beatles, sempre eles, os mesmos que partilham Abbey Road na altura e que os Floyd gravam The Piper…, pretexto para uma visita durante as gravações de “Lovely Rita”, visita que os deixou os Floyd surpreendidos com a liberdade que os fab four tinham em manobrar o estúdio. Também aqui, a banda abre a sua paleta de sons e explora sons menos convencionais. Mas é como diz Joshua Klein, da Pitchfork, por altura do 40º aniversário de Piper…, “os resultados não poderiam ter sido mais distintos, com os Beatles a controlares o estudo e os Pink Floyd a usarem-no para perder controlo”. Um caos também eventualmente inspirado na loucura dos Mothers of Invention de Zappa e por algum jazz. O escritor e realizador Peter Whitehead, que colaborou com os Pink Floyd em “Interstellar Overdrive” chegou a dizer: “era jazz, mas com um som diferente”.

As letras e constantes referências espaciais acabam por conceder a The Piper… o rótulo póstumo de primeiro registo space rock da história. A banda funde essas notas futuristas (recorde-se: o homem ainda nem tinha pisado a lua) com as tais referências psicadélicas, embora tenham chegado a dizer que não faziam ideia no que consistia o psicadelismo. Claro que sabiam: Barrett mantinha uma relação demasiado próxima com LSD e, já o dissemos, a banda esteve nas gravações de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

É o álbum mais singular dos Pink Floyd. Não há nenhum outro disco da banda como este assim como não existem outros álbuns do grupo com Syd Barrett sóbrio e ao leme. Em A Saucerful of Secrets, de 1968, a decadência e perda de preponderância do outrora líder, mais do que notórias são inevitáveis. E é um registo tão importante que há melómanos que são apenas fãs deste disco dos Pink Floyd. Fãs tão ilustres como este, por exemplo.