A “Violência Simbólica” a um mês das eleições em Angola

Um documentário-áudio da sociedade angolana contemporânea, profundamente desigual.

Falta pouco mais de uma semana para as Eleições em Angola e, como é habitual, adensa-se a discussão sobre a situação política e social no país. Após 38 anos de José Eduardo dos Santos no poder, estas são as primeiras eleições – desde que as há – em modo livre e multipartidário, e para as quais “Zédu” não se candidata.

João Lourenço, actual Ministro da Defesa e há muito apontado como seu sucessor na liderança do MPLA, será candidato ao seu lugar, mas a continuidade do partido no poder é cada vez menos certa. Se em 2008 o MPLA captou 82% dos votos e em 2012 72%, as sondagens mais recentes dão conta de apenas perto de 40% de intenções de voto no partido de José Eduardo dos Santos – um resultado que denota a reacção dos angolanos à inércia do actual Governo quanto aos problemas que se apontam e repetem há alguns anos.

Se, por vezes, na imprensa não é fácil sentir o pulso dos locais, a música tem sido nos últimos anos um canal de excelência para tal, em particular o trabalho de MCK, uma referência em Angola. É o que volta a acontecer agora com o lançamento do segundo single do seu aguardado álbum Valores, esperado ainda para este ano. “Violência Simbólica” é praticamente um documentário-áudio da sociedade angolana contemporânea, profundamente desigual.

Não faltam palavras a MCK para expressar a sua preocupação – o rapper, licenciado em Filosofia e Direito, não deixa passar nada. A cultura monolítica de poder de Eduardo dos Santos, o sistema de saúde deficitário, a corrupção sistémica ou as limitações severamente impostas à comunicação social são alguns dos cenários que MCK nos mostra, sem esquecer o outro lado da moeda – o dos privilegiados.

40 cachimbos depois, Angola está na mesma
O M está na área, miséria e malária
Situação precária, saúde funerária
Gestão deficitária, não há reforma agrária
A Imprensa é Carcerária, nada ou pouco informa
A Escola é Partidária, mutila e nos deforma
Aliás, pensando bem, até forma
Mudos e papagaios que opinam com a barriga
Ávidos por 1 diploma, Luvualos e Barricas
Servos como Kassoma, Kangambas e Ihanjicas
Ceasts e Cicas, Anas e Franciscas
Gildos e Bicas, Amilcars e Sindikas
Defenden o indefensável, a situação esta má
É porca e condenável, a corrupção que há
Ministros no activo gerem Sociedades
No Erário é só passivo, não há moralidade

As críticas somam-se e não faltam nomes ou referências concretas – uma das mais evidentes e fáceis de perceber, como aquela que é feita a Nicki Minaj e ao concerto que a americana deu recentemente em Angola, numa festa da Unitel, por cerca de 2 milhões de dólares.

Ninguém reivindica, estão todos Convertidos
Ninguém critica, estamos todos entertidos
Com as montras do Avenida e a Net da Zap Fibra
Duas Barras pra Nicki Minaj, o Povo salta e vibra

Essa não é a única referência a Isabel dos Santos ou ao facto de a empresária deter a principal operadora de telecomunicações em Angola, a quem MCK dedica as barras de entrada na segunda parte do som:

O Povo ladra, a caravana passa
Princesa é ladra, desvia o arroz e a massa
É dona das Telecomunicações, ninguém faz massa
Mãe grande das Comunicações, controla as massas
Cala Boca, emprega em massa

A intensidade e acutilância da letra revelam o substracto de preocupação social de MCK e o timing do seu lançamento a sua especial atenção para as eleições. De relembrar que José Eduardo dos Santos se viu obrigado a abandonar o poder em Maio deste ano e que, desde então, muitos são os rumores sobre o seu estado de saúde. O ascendente da figura de eterno Presidente pode estar comprometido, pois não é certo que João Lourenço consiga atingir o estatuto que o “Mais Velho” forjou em 38 anos de poder e muitos casos de opressão.

Quanto a MCK, é sempre de sublinhar o seu empenho, coragem e espírito socialmente participativo. O músico que já por várias vezes viu o seu trabalho comprometido pelas autoridades angolanas, como é o caso de dois concertos cancelados recentemente, continua com a sua expressão lúdica e cativante a difundir uma perspectiva tantas vezes marginalizada nos media. O seu estilo ensaístico já se tornou um símbolo quase profético como prova a legião de fãs que o rapper vai somando.


Se quiseres saber mais sobre as eleições em Angola, recomendamos que oiças a esclarecedora entrevista do É Apenas Fumaça ao activista angolano Dito Dali.