A arte aterrou na ilha de São Miguel

A 7ª edição do Walk&Talk decorreu no final de Julho. Para o ano, há mais!

Ao longo de sete edições, o Walk&Talk tem dinamizado o espaço público e os espaços da ilha de São Miguel, nos Açores. O festival de arte – que se estreou em 2011 – tem vindo a explorar novos territórios e deixou o foco na arte urbana para explorar outro tipo de arte, aquela que naturalmente apelidamos de “arte contemporânea”.

É que, se antes a arte precisava de ir até às pessoas, agora são as pessoas que têm de ir até à arte, conforme conta a reportagem do Público no local. Em 2017, o Walk&Talk decorreu de 14 até 29 de Julho, acolhendo criadores e colectivos em residência que apresentaram na Ilha de São Miguel os seus trabalhos – uns mais efémeros que outros, uns mais “de rua” que outros.

Partilhamos, de seguida, alguns dos trabalhos que mais cativaram a nossa atenção a uns bons kms de distância.

“No More Walls” – SpY

Apropriando-se de uma temática bem actual, por culpa de Donald Trump, e beneficiando da posição geográfica dos Açores (são a parte de Portugal mais próxima dos EUA), o artista madrileno SpY desenhou a frase “NO MORE WALLS” na superfície de uma parede num local particular de São Miguel. A frase propõe diferentes leituras que nos convidam a reflectir no contexto da arte urbana, onde a gestão de paredes em áreas urbanas serve o propósito de embelezar acções de gentrificação e desordem urbana. Molduras sociais, culturais e geográficas, onde ainda existem limites impostos sob a forma de barreiras físicas e psicológicas.

O trabalho de SpY parte da apropriação de elementos urbanos através da transformação ou replicação, uma reflexão sobre a realidade urbana e a interferência nos seus códigos comunicativos. A maior parte de sua produção decorre da observação da cidade e da apreciação de seus componentes, não como elementos inertes, mas como uma paleta de materiais que transbordam de possibilidades. As obras de SpY pretendem ser um parêntesis na inércia automatizada do morador urbano. São pinças de intenção, escondidas a um canto para quem se quer deixar surpreender. Repletas de partes iguais de ironia e humor, parecem criar um sorriso, incitar à reflexão e favorecer uma consciência esclarecida.

Gallery – JQTS

“Gallery” está instalada na proximidade do edifício que acolheu edições anteriores do Walk & Talk – antes deste ser vendido e da procura de uma nova localização para sediar o festival. Tal como a localização, o título da obra é também uma referência à própria história do Walk&Talk. O elemento base do pavilhão é um espaço triangular construído por molduras em Criptoméria, uma madeira local: a repetição de 18 elementos idênticos permite a leitura de um novo espaço, um edifício ou mesmo uma nova realidade.

O seu ponto mais alto antecipa a divisão principal, visível a partir do exterior mas apenas acessível através de um percurso labiríntico percorrendo cada um dos 18 espaços. Simulando uma linha de visão a partir do cimo de um castelo, o visitante transforma-se no ponto central físico e sensorial da avenida marginal abaixo. O pavilhão introduz um novo eixo diagonal a partir da cidade em direcção ao Atlântico, sugerindo um diálogo entre a torre do Teatro e a antiga galeria do Walk&Talk. Imaginada como um modesto ponto de referência, “Gallery” cria novas possibilidades de reinterpretar a escala e a complexidade de grandiosas formas arquitectónicas através de uma estrutura que se disponibiliza como um lugar de encontro mais humano e singelo.

Intermediário – Mark Clintberg

“Intermediário” é um projecto em duas frentes, contemplando uma intervenção arquitectónica e uma série de cartazes distribuídos por Ponta Delgada. Através de sinalética – e propondo um espaço social e cultural ficcionado – Clintberg propõe um novo passado e futuro queer para um lugar específico: o Teatro Micaelense, um dos centros culturais de São Miguel.

O termo intermediário evoca um espaço de intermediação e negociação de cultura, mercadoria e identidade. Ser um intermediário é também estar no meio, estar entre um lugar e outro, assim como os Açores estão geograficamente entre dois continentes; similarmente, a temática queer invoca uma reavaliação de binários e uma investigação sobre estados ambíguos e transientes.

Variations of Yellow – Ayelen Peressini

Peressini propõe uma instalação escultural e arquitectónica construída de madeira e vidro acrílico colorido. A temática que atravessa o seu trabalho recente, tal como aqui nos Açores, é a de desenvolver instalações site-specific que, através de uma prática interdisciplinar, questionam o papel que o espaço partilhado ocupa no ambiente construído em várias escalas. Cuidadosamente colocada na paisagem, a instalação pretende oferecer um espaço que se atravessa e que permite ao visitante experienciar o efeito da sua passagem num lugar específico.

Resultado da sua pesquisa contínua sobre os limites da arte e arquitetura, a obra de Peressini é um trabalho estrutural que expressa o diálogo metafísico entre o que pertence ao domínio do funcional e o que pode ser interpretado como uma obra de arte. O seu trabalho de pesquisa sobre a relação entre escultura e arquitetura parte de uma preocupação sobre esse estado de ambiguidade que se observa em objetos que pertencem simultaneamente às disciplinas da arte e da arquitetura.

House for Ferraria – Teresa Braula Reis

Situada na Ponta da Ferraria, no perímetro da área classificada como Monumento Regional Natural dada a sua geologia única, “House for Ferraria” consiste numa planta abstracta para uma possível casa, delimitada por paredes baixas de betão que lembram as fundações vulgares de um edifício. No centro desta casa, um dos compartimentos enche-se de água.

A obra assemelha-se a uma construção inacabada, uma ruína voluntária que existe através do desenho do que poderia ser; onde o carácter temporal e o literal do betão contrasta com as qualidades reflectoras e poéticas da água. A obra de Braula Reis questiona os próprios conceitos da construção e das condições de vivência características desta envolvente inóspita, propondo simultaneamente uma reflexão sobre as imperativas humanísticas do património – a preservação de ruínas como símbolos.

Podes descobrir estes e outros trabalhos o Walk&Talk 2017 no mapa interactivo no site do festival, onde também podes saber mais sobre esta iniciativa.