Vamos visitar o país do samba, ou pior, das desiguldades

Um estudo mostra que as seis pessoas mais ricas do Brasil têm a mesma riqueza que metade da população.

Foto de: Tuca Vieira/El País

É do senso comum que o Brasil se apresenta como um dos países com mais diversidade cultural à face da terra. Mas também se deveria saber que há uma guerra a decorrer no país do Cristo Redentor: daquelas que não se combatem com armas convencionais ou nucleares e cujas trincheiras são as casas de quem lá mora.

Desigualdade socio-económica

Um estudo realizado pela Oxfam conclui que as seis pessoas mais ricas do Brasil concentram, juntas, a mesma riqueza que as 100 milhões mais pobres. A população total é de 207,7 milhões de habitantes. Assim, Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim) têm uma fortuna igual à de metade da população brasileira.
Para além disso, se os seis milionários gastassem um milhão de reais por dia, levariam 36 anos para esgotar o equivalente ao seu património.

Mas a desigualdade social não se fica por aqui: cerca de 23% da população brasileira recebe o salário mínimo – 937 reais; os super ricos (que correspondem a 0,1%) ganham num mês o que um indivíduo que recebe o ordenado mínimo demora 19 anos a juntar.

Um morador da favela Metro Mangueira é consolado por vizinhos durante um despejo como parte dos preparativos para as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, 29 de Maio de 2015 (foto de: Pilar Olivares/Reuters)

Contrastes étnicos e de géneros

Num cenário ligeiramente diferente, é bastante comum, nos dias de hoje, depararmo-nos com conversas de café do tipo “hoje em dia uma mulher ganha tanto como um homem!” ou “já não há nem discriminações sexuais nem de etnias, somos todos iguais”. Mas será que é bem assim? A Oxfam diz-nos que não.

De acordo com a tendência dos últimos 20 anos, só em 2047 é que o salário das mulheres será igual ao dos homens e apenas em 2089 a renda será idêntica entre negros e brancos.

Longe de ser um país cuja prioridade é combater as desigualdades populacionais, foram registados progressos relativamente a anos anteriores. Katia Maia, diretora executiva da Oxfam, defende que o problema não está na inclusão dos mais pobres na base da pirâmide, mas da redistribuição do topo que se mantém intacto.


No ano corrente (2017), o Brasil desceu 19 posições no ranking de desigualdade social da ONU e aparece entre os 10 países mais desiguais do mundo, segundo o El País.

Opinião especialista

Katia defende a necessidade de uma reforma na tributação actual: “Precisamos de uma tributação justa. Rever nosso imposto de renda, acabar com os paraísos fiscais e cobrar tributo sobre dividendos”. Outro aspecto de especial importância é a inclusão das pessoas nas discussões em questão: “Reforma tributária é um tema tão distante e tecnocrata, que as pessoas se espantam com o assunto”, afirma a líder da Oxfam. “A população sabe que paga muitos impostos, mas é importante que a sociedade esteja encaixada neste debate para começar a pressionar o Governo pela reforma.”

Para além disso, a aprovação da PEC do teto de gastos, é outro alvo a abater. Para Katia “é uma medida equivocada. Se você congela o gasto social, você limita o avanço que o Brasil poderia fazer nesta área”. Mais do que controlar a quantidade do gasto, é preciso controlar o equilíbrio orçamentário e saber executar o gasto.

Por último, a executiva deixa uma mensagem de esperança ao afirmar que as desigualdades do Brasil são possíveis de ser mudadas.