A primeira vez de Kim Jong-Un

Na primeira declaração assinada em nome próprio, o líder da Coreia do Norte considerou que Donald Trump está "mentalmente perturbado".

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O último episódio da já extensa série “Coreia do Norte vs. EUA” envolve mais uma troca de ameaças, a possibilidade de um novo teste com o lançamento de uma bomba nuclear de hidrogénio no Pacífico e novas sanções. À primeira vista, nada de novo, como numa daquelas séries que começa a tornar-se tão previsível que deixas de ver. Mas acontece que na passada sexta-feira, um dos protagonistas encenou uma posição inédita.

Em resposta às declarações de Donald Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, onde disse que a única forma de resolver o conflito com a Coreia era destruir totalmente o país, Kim Jong emitiu, pela primeira vez, um comunicado por si assinado. É a primeira vez desde o início desta guerra diplomática entre os dois países, que o líder da Coreia do Norte escreve, assina e dá a cara por uma declaração sobre o assunto.

Normalmente, as posições de Pyongyang são assinadas pelo Governo de uma maneira geral ou um Ministro em particular e costumam ser emitidas pela já famosa pivô do canal de notícias estatal. Desta vez, não só o remetente foi sui generis, como o conteúdo também se distinguiu por ser mais violento que o que costuma.

Num longo texto, que Kim leu como uma declaração ao país emitida pela TV pública, o líder norte-coreano classificou Donald Trump como um “criminoso e um gangster que gosta de brincar com o fogo”, sublinhando que o presidente dos Estados Unidos é “impróprio para manter o comando supremo de um país”.

Diz que Donald Trump está “mentalmente perturbado” e que fará com que “o homem à frente do comando supremo nos Estados Unidos pague caro pelo seu discurso a pedir a destruição total da Coreia do Norte”.

“Agora que Trump negou a existência e me insultou a mim e ao meu país nos olhos do mundo e fez a declaração mais feroz de guerra na história (…) consideraremos com seriedade responder com o mais alto nível de contramedida”, disse Kim.

Foi esta frase – a da contramedida mais dura da história – que analistas de todo o mundo destacaram como prova de uma escalada na escolha da linguagem utilizada – algo que acompanha o estilo do presidente norte-americano. Acreditam que a resposta de Kim, e o facto de ter escolhido assiná-la, mostram a forma pessoal com que tomou o discurso de Trump. Vipin Narang, professor de Ciência Política no MIT e especialista em política nuclear, disse à CNN que: “Isto é sem precedentes. Está escrito por ele, assinado por ele… Ele ficou claramente ofendido pelo discurso, e o que mais me preocupa é a resposta que ele diz estar a considerar.”

Confere em baixo a declaração completa do líder da Coreia do Norte:

The speech made by the US president in his maiden address on the UN arena in the prevailing serious circumstances, in which the situation on the Korean peninsula has been rendered tense as never before and is inching closer to a touch-and-go state, is arousing worldwide concern.

Shaping the general idea of what he would say, I expected he would make stereo-typed, prepared remarks a little different from what he used to utter in his office on the spur of the moment as he had to speak on the world’s biggest official diplomatic stage.

But, far from making remarks of any persuasive power that can be viewed to be helpful to defusing tension, he made unprecedented rude nonsense one has never heard from any of his predecessors.

A frightened dog barks louder.

I’d like to advise Trump to exercise prudence in selecting words and to be considerate of whom he speaks to when making a speech in front of the world.

The mentally deranged behavior of the U.S. president openly expressing on the UN arena the unethical will to “totally destroy” a sovereign state, beyond the boundary of threats of regime change or overturn of social system, makes even those with normal thinking faculty think about discretion and composure.

His remarks remind me of such words as “political layman” and “political heretic” which were in vogue in reference to Trump during his presidential election campaign.

After taking office Trump has rendered the world restless through threats and blackmail against all countries in the world. He is unfit to hold the prerogative of supreme command of a country, and he is surely a rogue and a gangster fond of playing with fire, rather than a politician.

His remarks which described the US option through straightforward expression of his will have convinced me, rather than frightening or stopping me, that the path I chose is correct and that it is the one I have to follow to the last.

Now that Trump has denied the existence of and insulted me and my country in front of the eyes of the world and made the most ferocious declaration of a war in history that he would destroy [North Korea], we will consider with seriousness exercising of a corresponding, highest level of hardline countermeasure in history.

Action is the best option in treating the dotard who, hard of hearing, is uttering only what he wants to say.

As a man representing [North Korea] and on behalf of the dignity and honor of my state and people and on my own, I will make the man holding the prerogative of the supreme command in the US pay dearly for his speech calling for totally destroying [North Korea].

This is not a rhetorical expression loved by Trump.

I am now thinking hard about what response he could have expected when he allowed such eccentric words to trip off his tongue.

Whatever Trump might have expected, he will face results beyond his expectation.

I will surely and definitely tame the mentally deranged US dotard with fire.