Eleições legislativas na Alemanha: fica a conhecer os dois principais candidatos a chanceler

Entre Merkel e Schulz há a inexperiência do pró-europeísta e o "erro" da abertura humanitária da Thatcher Alemã.

As eleições legislativas na Alemanha estão marcadas para o próximo domingo (dia 24) e o posto de chanceler é disputado especialmente por Martin Schulz, candidato social-democrata, e Angela Merkel, líder da CDU (União Democrata-Cristã). No total, estão 42 partidos na corrida pelo posto.

Em Dezembro do ano passado, a revista Der Spiegel dava como certo que Martin Schulz havia desistido de fazer frente a Merkel. Mas em Janeiro deste ano, o ex-presidente do Parlamento Europeu era nomeado como candidato oficial do SPD às legislativas 2017, com 100% dos votos.

A grande maioria das sondagens feitas até ao momento dão vitória à CDU. Os sociais-democratas seguem em segundo lugar. Não se coloca para já a possibilidade da CDU ou do SPD conseguirem obter a maioria absoluta, o que não acontece na Alemanha desde 1957. Por isso, o mais certo será que os dois partidos recorram à prática frequente das coligações com outros partidos ou mesmo entre si. O debate televisivo entre os dois candidatos, feito no início deste mês, fez antever também a coligação CDU/SPD devido à posição consensual entre os dois partidos em vários temas.

Não só devido ao consenso dos dois maiores partidos alemães, mas também pelo facto de teres crescido na era governativa da actual chanceler, a chamada “geração Merkel”, que este ano passa a exercer o seu direito de voto, ainda não sabe bem quem escolher para governar o país. Na balança pesam a situação bastante estável da Alemanha, proporcionada durante a governação da União, e a opção de mudança, que seria introduzida pelo SPD. Mas o facto é que, genericamente, a faixa dos 18 aos 21 anos pretende apoiar uma quarta reeleição de Merkel ao cargo de chanceler, segundo algumas sondagens feitas.

O chanceler, ou chefe de governo, é eleito por maioria absoluta no Bundestag (Parlamento alemão) e exerce um mandato de quatro anos. Para ter assento no parlamento, cada partido deverá arrecadar nas urnas uma percentagem mínima de 5%.

Para estas eleições legislativas na Alemanha, espera-se o regresso dos Liberais ao Parlamento e a entrada, pela primeira vez, do partido de extrema-direita AfD.

Angela Merkel: a “Thatcher Alemã”

Actualmente no posto de chefia governamental pela CDU, Angela Merkel já conta com 12 anos no poder e tenta agora o quarto mandato como chanceler. Nas legislativas alemãs de 2013, o partido da candidata, do qual é líder há 17 anos, conseguiu o melhor resultado desde as eleições de 1990 e perto da maioria absoluta, com 41,5% dos votos.

Merkel é conhecida como a “Thatcher da Alemanha”, mas também como Dama-de-ferro, czarina e Hitler. Nasceu na RDA (República Democrática Alemã), estudou Física e doutorou-se em Química Quântica na Universidade de Leipzig. Enquanto estudante, fez parte da Juventude Livre Alemã. Em 1989, envolveu-se com o movimento conservador da Alemanha do Leste Despertar Democrático. No ano seguinte, foi eleita deputada para o Bundestag e integrou o executivo de Helmut Kohl com o cargo de ministra para as Mulheres e a Juventude.

Mais tarde, precisamente em 1994, assumiu o cargo de ministra do Ambiente e a pasta da Segurança Nuclear. Dois meses após a derrota de Kohl contra o social-democrata Gerard Schröder em 1998, Merkel é nomeada secretária-geral do partido e, dois anos mais tarde, constitui-se como líder do partido, enquanto decorria um escândalo de financiamentos que envolveu vários membros da CDU, incluindo Kohl.  Nas legislativas de 2005, assume o cargo de chanceler. Foi a primeira mulher a chegar ao posto, o primeiro chefe de governo vindo de leste e também o mais novo. Mantém-se, desde 2000, na liderança do partido de centro-direita, sendo consecutivamente eleita com altas percentagens a favor.

Durante o último mandato, a chanceler abriu as fronteiras da Alemanha para receber refugiados, sobretudo sírios, no verão de 2015. Porém, a oposição aponta-lhe como grande erro o facto de não ter terminado com a política de acolhimento mais cedo, o que culminou na entrada de pelo menos 800 mil refugiados só em 2015. Em entrevista, Merkel afirmou que o voltaria a repetir. Como ponto forte do último mandato, é apontada a Merkel o facto de ter estipulado o salário nacional mínimo nos 8,5 euros por hora, o que só aconteceu por exigência do SPD.

As propostas da União baseiam-se na diminuição da taxa de desemprego, que se encontra atualmente nos 5,5%, para 3%, no aumento do número de polícias e no incentivo à construção de habitações. Para além disso, promete não aumentar a dívida nacional e os impostos.

Angela Merkel foi eleita, em 2016, pela revista Forbes, a terceira pessoa mais poderosas do mundo. Também em 2016 e pela mesma revista, foi indicada para primeiro lugar na lista das 100 mulheres mais poderosas do mundo.

Martin Schulz: o pró-europeísta

Eleito candidato oficial pelo SPD para a corrida a Chanceler em janeiro, Martin Schulz não tem uma extensa carreira política a nível nacional. Porém, foi presidente do Parlamento Europeu durante cinco anos, tratando-se de um político pró-europeísta, posição que o coloca na mira das acusações do AfD, partido de extrema-direita, que muito provavelmente passará a ter assento no Parlamento, segundo as sondagens feitas.

Com a sua eleição, os membros do SPD esperam que Schulz consiga acabar com as divisões internas provocadas pelas reformas laborais que foram aprovadas pelo último Chanceler do SPD, Gerhard Schröder.

Entrou na vida política aos 19 anos quando se juntou ao Partido Social-Democrata. Depois de alguns anos a jogar numa equipa de futebol semi-profissional, Schulz é eleito presidente de câmara da cidade de Würselen, cargo que praticou durante 11 anos.

Em 1994, começa a sua carreira política no Parlamento Europeu, onde foi coordenador, líder da delegação do SPD, vice-presidente e líder do grupo socialista europeu.

Martin Schulz centra as suas propostas no casamento para pessoas do mesmo sexo, com direito também a adoção, no aumento de impostos para os mais ricos e a diminuição para quem ganha menos, no regresso à mesma tributação para rendimentos fruto do trabalho ou de capital, na recusa do aumento da idade de reforma (atualmente de 67 anos), no maior apoio às famílias com crianças (e a potencial abolição das tarifas de creches), no maior investimento nas escolas e uma proposta de voto a partir dos 16 anos.

O ponto mais forte que é apontado pela União CDU/CSU contra Schulz é o facto de, comparativamente ao currículo de Merkel, praticamente não dispor de experiência política nacional.

Ilustração de: Ricardo Santos/Shifter

Texto de: Judite Rodrigues
Editado por: Rita Pinto