Infelizmente, falar de fome no mundo continua a ser mais actual que nunca

Um relatório da ONU mostra que após uma década de melhorias, a fome volta a crescer no mundo.

Fotografia tirada a 14 de Novembro de 2016. Uma rapariga atravessa uma rua em Yei, no Sudão do Sul. Foto: Associated Press/Justin Lynch

A ONU diz que na origem dos números estão a proliferação de conflitos violentos e as mudanças climáticas. É por isso que, após um declínio constante por mais de uma década, a fome no mundo está novamente em ascensão. Os dados constam no último relatório anual das Nações Unidas sobre segurança alimentar e nutricional, lançado na semana passada. O documento revela que em 2016, a fome extrema afectou 815 milhões de pessoas – o equivalente a 11% da população global e um aumento de mais de 38 milhões de pessoas em relação ao ano anterior.

De acordo com estudo “The State of Food Security and Nutrition in the World 2017”, cerca de 155 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem com atrasos no crescimento (estatura baixa para a idade), enquanto 52 milhões estão com peso abaixo do ideal para a estatura.

Em sentido contrário, estima-se que 41 milhões de crianças estejam com peso a mais. A anemia entre as mulheres e a obesidade adulta também são motivos de preocupação. Estas tendências, por seu lado, são consequências das profundas alterações nos hábitos alimentares e crises económicas.

É a primeira vez que a ONU realiza uma avaliação desta dimensão sobre segurança alimentar e nutricional após a adopção da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, cujo objectivo é acabar com a fome e com todas as formas de má nutrição até 2030.

“Na última década, o número de conflitos tem aumentado de forma dramática e tornaram-se mais complexos e insolúveis pela natureza”, afirmaram os membros da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), do Programa Mundial de Alimentos (PMA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), no relatório conjunto.

Os dirigentes da ONU dizem, ainda, que esse cenário não pode ser ignorado. “Não vamos acabar com a fome e com todas as formas de má nutrição até 2030, a menos que abordemos todos os factores que prejudicam a segurança alimentar e a nutrição no mundo. Garantir sociedades pacíficas e inclusivas é uma condição necessária para atingirmos esse objectivo”, declararam.

Os números mais críticos chegam do Sudão do Sul, onde se registou fome extrema durante os primeiros meses de 2017, e há risco de que a situação se venha a repetir. Outros locais que preocupam severamente as autoridades são o nordeste da Nigéria, a Somália e o Iémen.

Os especialistas indicam também que, além da violência em algumas regiões, as secas ou inundações — ligadas em parte ao fenómeno El Niño —, assim como a desaceleração económica mundial, também colaboraram para o agravamento mundial da segurança alimentar e da nutrição.

Principais dados

Fome e segurança alimentar

O número total de pessoas com fome no mundo é de 815 milhões:
– Na Ásia: 520 milhões
– Na África: 243 milhões
– Na América Latina: 42 milhões

Percentagem da população mundial vítima da fome: 11%
– Ásia: 11,7%
– África: 20% (Na África Ocidental: 33,9%)
– América Latina e Caribe: 6,6%

Má nutrição

– Crianças menores de 5 anos que sofrem com atraso no crescimento (estatura baixa para idade): 155 milhões;
– Desses, os que vivem em países afectados por conflitos: 122 milhões;
– Crianças menores de 5 anos que estão com o peso abaixo do ideal para a estatura: 52 milhões;
– Número de adultos obesos: 641 milhões (13% do total de adultos do planeta);
– Crianças menores de 5 anos com sobrepeso: 41 milhões;
– Mulheres em idade reprodutiva afetadas por anemia: 613 milhões (cerca de 33% do total).

Impactos dos conflitos

– Das 815 milhões de pessoas que sofrem com a fome do planeta, 489 milhões vivem em países afectados por conflitos;
– A prevalência da fome nos países afectados por conflitos varia entre 1,4% e 4,4% a mais que em outros países;
– No contexto de conflitos agravados pelas condições de fragilidade institucional e ambiental, essa prevalência é de entre 11 e 18 pontos percentuais a mais;
– Pessoas que vivem em países afectados por crises prolongadas têm quase 2,5 mais chances de conviver com subnutrição do que as que vivem em outros lugares.