Mulheres finalmente autorizadas a conduzir na Arábia Saudita

Nova lei só entrará em vigor em Junho de 2018 mas é considerada um dos maiores avanços de sempre no reino ultra-conservador.

Foto de: Faisal Al Nasser/Reuters

Ao longo dos últimos anos, organizações de direitos humanos levaram a cabo uma série de campanhas em que pediam que as mulheres pudessem conduzir livremente na Arábia Saudita, todas elas sem sucesso. O caso parecia arrumado quando, em Novembro do ano passado, a Assembleia Consultiva do país, conhecida como Shura, se recusou mesmo a analisar a questão. De acordo com um dos membros do conselho, as mulheres estariam “expostas ao mal”, caso conduzissem.

O mais recente decreto real, publicado ontem à noite, mostra aquele que é um dos maiores avanços de sempre no país, no que diz respeito aos direitos das mulheres – ou pelo menos, um dos mais mediáticos. É que a Arábia Saudita era o único país do mundo onde as mulheres estavam proibidas de conduzir automóveis. Nos últimos anos, muitas foram mesmo presas por desafiar a lei, e apesar do contentamento geral há vários aspectos a ter em conta: é que a nova lei não terá efeitos imediatos. O documento só entrará em vigor em Junho de 2018 até porque, segundo reporta o The New York Times, a Arábia Saudita não possui as infra-estruturas necessárias para que as mulheres possam aprender a guiar e obter a respectiva licença. Além disso, as autoridades terão ainda de receber formação para aprender a interagir com mulheres.

O fim da polémica regra que existiu durante décadas e que se tornou um símbolo global da opressão das mulheres no reino ultra-conservador deixa o país expectante. Numa altura em que nenhuma mulher tem licença para conduzir, espera-se que a afluência seja massiva, e sobre isto, vários especialistas sublinham a data da entrada em vigor da lei, insistindo que todo o tempo que lhe preceder não está livre da actuação da Sharia. É precisamente esta estrita lei muçulmana, que rege o país e que já valeu às mulheres diversas acusações de violação dos direitos humanos, que faz com que o cenário de uma mulher ao volante seja considerado inapropriado e com que a novidade não seja vista por todos da mesma forma. Há quem defenda que os automobilistas masculinos não saberiam lidar com uma mulher ao volante de um carro que se encontre no seu caminho. E, além de uma Assembleia que decretou que uma mulher a guiar estaria “exposta ao mal”, um clérigo saudita alegou que a condução causa lesões nos ovários das mulheres – algo que nunca foi provado.

O contexto sócio-económico do país não pode ser visto à parte desta decisão, é que a nova lei surge na sequência das intenções reformistas do herdeiro do trono saudita, o príncipe Mohamed bin Salman, que se encontra cada vez mais perto de liderar o reino. A braços com a descida dos preços do petróleo, que prejudicou a economia e fez subir o desemprego, a Arábia Saudita está assim a apostar na imagem e reputação do país internacionalmente, para garantir e facilitar as reformas projectadas pelo futuro rei. Para além disso, o facto de as mulheres serem autorizadas a conduzir pode vir a trazer benefícios nos números do emprego, já que é intenção de Riad colocar no mercado de trabalho cada vez mais gente.


Apesar da dimensão da notícia, as reacções não foram tão entusiastas como se esperava e houve pouca dissidência pública, provavelmente porque o governo saudita exerce muitas vezes pressão sobre as vozes proeminentes para se certificar de que eles ou apoiam a linha do governo ou dão pouco nas vistas. Nas últimas semanas, o Governo prendeu mais de duas dezenas de clérigos, académicos e outros, acusando-os de serem dissidentes financiados pelo exterior.

Depois da nova lei ter sido anunciada, um texto anónimo circulou no WhatsApp, pedindo aos “virtuosos” que trabalhem contra sua implementação, para proteger o reino de epidemias, adultérios e “outros desastres”.