Esta foi a festa do hip hop. Dos que fazem, dos que ouvem e dos que fazem vida

The Alchemist no Musicbox, uma noite histórica para o hip hop.

Viram o Hip Hop Evolution, aquela série da Netflix que mostra o crescimento do género desde os 70’s do Africa Bombaataa e do Grandmaster Flash? Eu vi. Lá em casa somos três e decidimos chular o mês de borla da Netflix à vez. Somos um pouco mangas e sempre nos pareceu dar mais trabalho criar uma conta que continuar a ir ao Piratebay. Se calhar fizemos nessa semana por estar tudo seco, mas não podia ter melhor timming. Não percebi se cancelada ou não, mas a cronologia só nos leva até aos N.W.A. e ao gangster rap. Ora muito do que vem depois daí, já tem muita fórmula do The Alchemist – que rebentou sábado no Musicbox a maior festa de hip hop de que me lembro.

O Alchemist já anda por cá há tempo suficiente para estar em metade dos discos de hip hop que tocam no teu Spotity. Desde os Dilated Peoples que o trouxeram para esta vida, aos Mobb Deep, ao Nas, o Fat Joe, Ghostface Killah, Snoop Dog, Notorious B.I.G, Ras Kass… MF DOOM, Raekwon, Eminem, 50 Cent, SchoolBoy Q, Action Bronson. Tanta gente. Produziu para uns, tocou para outros e colaborou com uns tantos. O último disco até foi com o Havoc (Mobb Deep) que nem daqui a um mês toca no mesmo sítio a abrir o Jameson Urban Routes. Com este menino a fazer o set, a noite transformou-se numa verdadeira celebração da subcultura, numa geração onde o hip hop é maior que todos os outros. Gera mais dinheiro que todos os outros. Domina os tops, os festivais, a imprensa, o Youtube e os iPhones mais que todos os outros.

Esta foi a festa do hip hop. Dos que o fazem, dos que o ouvem e dos que fazem disso vida. Ninguém podia falhar. Numa sala mais que esgotada com a família tuga a representar, do Tekilla ao Holly Hood e Nel’Assassin, de Profjam ao Landim e Slimcutz, do Vhils ao Darksunn, DJ’s Glue e Kronic aos breakdancers. Tudo para ouvir o grande a passar os clássicos. Por momentos até senti que estava naquela cena final do 8Mile, num cave com toda a malta do hip hop da zona, a levantar os braços com toda a energia que a música te consegue despertar. É bonito sentir a paixão que esta malta tem a ouvir a malhas com que cresceu. Aquele sentido de pertença arrepiante, rodeado de boa onda, calor, suor e ganzas.

A festa até foi melhor que o próprio set. Na verdade, Alchemist é muito, mas muito, melhor produtor que Dj. Estão a ver aquele vosso amigo que fica ao agarrado ao Youtube nas festas lá de casa, até escolhe a palylist certa para a vibe, mas depois não deixa correr as malhas mais que 1min? Foi isso. Quem não queria ouvir mais da “Shook Ones Pt2”, da “Survival of The Fittest”, da “Break the Bank”, do Danny Brown, do Tyler, Snoop ou Dilated Peoples. Ele passou de tudo um pouco. De tudo, mesmo só um pouco. Mas não fiquem com a ideia errada. Foi mesmo festão. A energia e a dinâmica estavam lá. O homem puxou pelo Musicbox até à última gota de suor. Era só uma voz em palco com aquele homem e ficava ainda mais épico. O Havoc ta aí a aparecer não é? Fica a dica.


Uma noite que vai ficar para a história. Pelo Alchemist e pela afirmação da Versus enquanto maior promotora dos maiores do hip hop. Já tinham sido os Mobb Deep no Santiago Alquimista, o Pete Rock está quase no Porto e Havoc logo a seguir. O hip hop é cada vez mais das massas e é bom perceber que alguém não se esquece dos clássicos. Malta da Versus, MF DOOM e Madlib. Façam acontecer.

Fotografias de: Joana Correira (@joannacorreia_)