Trash Isles: um país feito de lixo

A ONU recebeu uma proposta para o 196º país do globo: uma ilha de lixo nómada do Pacífico Norte.

Bandeira oficial das "Trash Isles". Autor: Mario Kerstka
Bandeira oficial das "Trash Isles". Autor: Mario Kerstka

A poluição do Pacífico não é uma preocupação recente. A acumulação de resíduos, nomeadamente plásticos, no maior oceano do planeta cresce a ritmos alarmantes, face à negligência de várias nações do globo. Quase do tamanho de França, a “Ilha de Lixo” tenta a sua sorte para se tornar na 196ª nação do mundo, tudo por uma questão de sensibilização da população.

Todos os anos, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico invadem os mares. As mortes de aves marinhas devido aos resíduos de semelhante origem sobrevoam o milhão de casos registados. A poluição no oceano Pacífico já foi protagonista de filmes, documentários, capa de jornais e revistas, mas a questão continua por resolver. Se o ritmo se mantiver, por volta de 2050, os plásticos terão ultrapassado a população marinha em termos de peso.

A atual "Ilha de Lixo" ostenta um tamanho semelhante a um dos maiores países da Europa: a França. Créditos: Dezeen
A atual “Ilha de Lixo” ostenta um tamanho semelhante a um dos maiores países da Europa: a França. Créditos: Dezeen

A Plastic Oceans Foundation e o LadBible juntaram-se na tentativa de remar contra a maré, avançando com uma proposta inusitada: elevar a “Ilha de Lixo” a país. Para tal, de acordo com a Convenção de Montevidéu de 1993, a nação deverá ter fronteiras definidas, um governo soberano, ser capaz de interagir e cooperar com outros Estados e uma população permanente. As garrafas e sacos de plástico entrelaçados são capazes de formar a delimitação necessária e o estabelecimento de instituições governamentais é uma questão menor e prevista pela campanha de Michael Hughes e Dalatando Almeida, que contaram ainda com a ajuda de Mario Kerkstra para a criação dos símbolos de soberania nacional, como a bandeira e a moeda, chamada “Debris” (“detritos”, “lixo” e/ou “resíduos” em português).

Passaporte para a "Ilha de Lixo". Autor: Mario Kerkstra.
Passaporte para a “Ilha de Lixo”. Autor: Mario Kerkstra.
Nota de 20 Debris. Autor: Mario Kerkstra.
Nota de 20 Debris. Autor: Mario Kerkstra.
Nota de 20 Debris. Autor: Mario Kerkstra.
Nota de 50 Debris. Autor: Mario Kerkstra.

Contudo, a população é o detalhe a aperfeiçoar. A petição online para que as pessoas de regiões remotas do planeta se pudessem tornar cidadãos das “Trash Isles” foi lançada recentemente, mas já se conhece o primeiro detentor de passaporte da “Ilha de Lixo”: Al Gore, antigo vice-presidente norte-americano, ligado à sensibilização para questões ambientais como o aquecimento global. “O plástico está a prejudicar totalmente os mares e parte dele chega a aparecer no nosso peixe do dia a dia. É nojento”, indigna-se o político americano. “50 biliões de toneladas [de plástico] em 60/70 anos é completamente ridículo”, diz Al Gore.

Bandeira oficial das "Trash Isles". Autor: Mario Kerstka
Bandeira oficial das “Trash Isles”. Autor: Mario Kerkstra

Determinado a apoiar o projeto, Al Gore dá assim a cara a uma campanha que já alcançou as mais altas instâncias internacionais. No passado dia 6 de Setembro, o LadBible anuncia a entrega da candidatura das “Trash Isles” às Nações Unidas, de modo a alcançar o estatuto de 196º país do mundo. Cumprindo as medidas necessárias, a elevação de uma ilha de lixo a nação independente torna-se num caso único na história. Mas a questão não é só sensibilizar a população, mas atingir meios legais para obrigar os Estados poluentes a limpar os oceanos. Ao tornar-se num país, a acumulação de resíduos flutuantes do Pacífico Norte fica ao abrigo da Política Ambiental das Nações Unidas, que preconiza uma série de medidas de cooperação e coordenação internacional na proteção e preservação do ambiente. Em termos práticos, desta feita, as nações de todo o globo são obrigadas a interagir na persecução de uma solução conjunta para este problema de todos nós.

” Todos os membros deverão cooperar num espírito de entreajuda global, de modo a conservar, proteger e restaurar a saúde e integridade do ecossistema mundial”, promulga a Política Ambiental da ONU.

As principais medidas a tomar passam pelo desenvolvimento de materiais biodegradáveis, a introdução da taxa sobre o carbono e a criação de leis de promoção da reciclagem. Com esta candidatura insólita, medidas estruturadas e objetivos ambiciosos, a campanha pela salvação do Pacífico navega na esperança de um planeta mais limpo e respirável para todos os seus habitantes.