Calar Trump com poesia

O poeta foi o Presidente do Irão Hassan Rouhani que respondeu à "soberania" de Trump com "moderação".

Foto de: Eduardo Munoz/Reuters

Aconteceu no segundo dia de trabalhos da Assembleia Geral das Nações Unidas, aquela que foi a primeira de Donald Trump. Depois de durante a campanha à presidência se ter referido à ONU como um clube onde os membros se juntavam para conversar, passar o tempo e divertirem-se, a estreia de Trump no evento-maior da organização pode (a custo) resumir-se em 3 pontos:

  • o tom paternalista com que dirige o seu discurso, tendo usado expressões como “a ONU tem um grande potencial. Vai acontecer” ou “eu acredito que vocês vão fazer coisas épicas”, como se tivesse chegado para salvar uma entidade com mais de 70 anos que até então foi mediana, mas que, tal como a América, com a sua presença vai ser “great”.
  • o reforço de ameaças à Coreia do Norte. Assumindo sem vergonhas uma posição hegemónica, Donald Trump advertiu que destruirá totalmente o país caso Pyongyang continue a ameaçar os Estados Unidos e os seus aliados. Apelou ainda à ONU o reforço de sanções contra o regime de Kim Jong-un, que voltou a apelidar de “rocket man”.
  • ter classificado o acordo nuclear do Irão como “uma vergonha”. Donald Trump ameaçou retirar os EUA do acordo, caso haja a suspeita de que este tem como objetivo “encobrir uma eventual construção de um programa nuclear” iraniano. O Presidente dos EUA disse ter já ter tomado uma decisão sobre o assunto, mas não a revelou. Optou ainda assim por escolher Teerão como um dos principais alvos da sua política externa e por deitar a perder todos os esforços do antecessor.

Todos esperavam que, depois das palavras de Trump, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, usasse o púlpito da Assembleia para responder à letra. E respondeu, mas com classe. Mesmo depois de ter ouvido o presidente dos Estados Unidos a chamar ao seu Governo uma “ditadura corrupta por trás de um falso disfarce de uma democracia”, Rouhani foi contido e defendeu o respeito mútuo.

O Presidente do país que desenvolveu um programa nuclear para se fazer ouvir entre os territórios vizinhos, optou por usar o seu tempo de antena para falar sobre soft power, e fê-lo invocando mestres literários persas dos séculos XII e XIII.

To promote our culture, civilization, religion and revolution, we enter hearts and engage minds. We recite our poetry and engage in discourse on our philosophy.

Our ambassadors are our poets, our mystics and our philosophers. We have reached the shores of this side of the Atlantic through Rumi and spread our influence throughout Asia with Saadi. We have already captured the world with Hafez; we therefore are in no need of new conquests.

Rouhani substituiu a palavra “soberania” predominante no discurso de Trump, por “moderação”. E para repreender Trump por ter dito, por exemplo, que as maiores exportações do Irão eram a “violência, o caos e o derramamento de sangue” e por ter ameaçado abandonar o como o acordo nuclear de 2015, Rouhani recorreu brevemente à poesia. Em baixo mostramos-te um excerto da declaração do Presidente iraniano, que podes consultar na íntegra aqui.

Moderation seeks neither isolation nor hegemony;

It implies neither indifference, nor intransigence.

The path of moderation is the path of peace;

but a just and inclusive peace:

not peace for one nation, and war and turmoil for others;

Moderation is freedom and democracy;

but in an inclusive and comprehensive manner:

not purporting to promote freedom in one place while supporting dictators elsewhere;

Moderation is the synergy of ideas and not the dance of swords;

And finally, the path of moderation nurtures beauty.

Deadly-weapons exports are not beautiful; rather, peace is.

Num tom menos lírico, Rouhani considerou ainda que a “retórica de ódio” e as “acusações ridículas e sem fundamento” do Presidente dos EUA vão contra os princípios das Nações Unidas. Disse que as palavras de Donald Trump na Assembleia Geral foram “ignorantes e absurdas” e que o seu país vai cumprir o acordo nuclear, mas reagirá “com determinação” se este for denunciado.

Posto o floreio literário e referências, Rouhani rematou com mais força. Disse que seria uma pena que o acordo fosse rasgado por “bandidos recém-chegados ao mundo da política”.