Carlo Napoli: “sou uma pessoa independente, preferi viajar aos jogos de poder”

O jornalista italiano que se tornou um jornalista do mundo.

Carlo Napoli é um jornalista italiano licenciado em Literatura, Filosofia e Ciências Políticas. A sua carreira é a personificação exemplar daquelas histórias que ouvíamos quando éramos miúdos como nos livros de “Uma Aventura” ou “Os Cinco” – isto porque a definição de um bom jornalista vem, quase sempre, ancorada à versatilidade, atribulação e quiçá, a um cheirinho de coragem.

Em declarações ao Shifter, Napoli falou sobre o seu percurso jornalístico, alertou-nos para a importância da cultura e do conhecimento numa profissão que consiste em “informar o mundo da realidade”. Falamos de um homem que voltou à estaca zero e escalou tudo de novo, que percorreu os quatro cantos do mundo com o pontífice da Igreja Católica, que testemunhou em primeira mão o terramoto comunista e o clima de guerra fria, e que viu o chefe da revista para onde escrevia fugir de mãos dadas com a amante. Falamos de um homem que com 80 anos ainda se atreve a escalar os Alpes italianos e os Pirenéus. Falamos de Carlo Napoli.

Carlo não foi sempre jornalista. Escreveu para o L’Osservatore Romano  – o jornal papal sob o pseudónimo de Stefano Bossi, foi locutor de rádio na Rai  – onde fazia Personalità, uma emissão dedicada às mulheres, colaborou com a revista Amica, e ainda na Rai trabalhou na Radiocorriere. Apresentou os programas The Nineteen Days of LeningradRoma Capitale, A Constituição Italiana, Carlo Forlanini, Jacques Maritain (um grande sucesso no país), Don Luigi Sturzo, De Gasperi e O Tratado de Paz.

Porém, águas mansas não fazem bons marinheiros e Napoli estava disposto a navegar. Como fuga ao jornalismo sujo, Carlo começou novamente do zero a escrever para La Cronica Negra – “Tinha o pior horário, das 4 às 9 horas da manhã. Como se costuma dizer, passei de cavalo para burro.”

O final da década de 70 até à década de 90 foi o auge da carreira do jornalista italiano. Como correspondente no Vaticano do Telejornal 1 da Rai, começou a viajar com o Papa João Paulo II por todo o mundo. Na década de 80 afirma-se como um jornalista nómada e torna-se correspondente em grande parte dos países da Europa Oriental.
“Apesar do perigo foi uma experiência belíssima!”, recorda Carlo.

No final dos anos 90 regressa ao ocidente europeu e em 2000 abandona a Rai.

Passa a dirigir a comunicação de imprensa e as relações públicas do hospital pediátrico do Vaticano, foi diretor de comunicação da Universidade LUMSA e do Ministério da Saúde.

Escreveu os livros “Os sonetos de GGBelli” (editado pela Babuino), “João Paulo I” (com Eugenio Marcucci – editado por Cappelli), “a Europa nasceu assim” (Europa para crianças, com pseudónimo de Gianni Lagos, S. Paolo), “O pequeno doente do Gianicolo” com Vittorio Alessandro Sironi- edit. Laterza), e publicou o romance “If Remembrance” (Sugarco, Milão).

“Nunca trabalhei para ninguém, fui sempre independente. Multifacetado, sim. Escrevi para imensos jornais, tinha a exclusividade da Rai, mas preferi estar fora de jogos.”

Napoli aconselha os futuros jornalistas a lerem e estudarem afincadamente – estar informado sobre a atualidade, saber política e cultura histórica é a chave para a abertura de um leque de oportunidades profissionais.

Carlo tomou ainda a liberdade de nos transmitir algumas curiosidades históricas sobre o jornalismo em Itália e no mundo em guerra fria:

Antes de Roma, a grande central jornalística era Milão – todos os jornais e transmissões eram feitos a partir da cidade dos Sforza.

Na década de 60, o feminismo protagonizou um grande papel de grande dimensão em Itália. Foram criadas duas revistas italianas para mulheres: Grazie e Amica. O sucesso foi tanto que existiam duas edições diárias (uma matinal e outra noturna).

Em 1976 a Rai foi dividida em 3 grupos políticos – o telejornal 1 (católico, republicano e liberalista), o telejornal 2 (socialista) e o telejornal 3 (comunista).

Em 1980 nasce o jornal Solidarius que provocou um terramoto comunista e a primeira rutura da cortina de ferro. Era um jornal liberal, e o protagonista de enfoque foi Leck Balesa.