A carta de Xavier Dolan à comunidade LGBTQ

A história do realizador fala de medo e culpa, e não é muito diferente de outras que conhecemos.

A publicação foi feita por ocasião do Spirit Day, dia que se assinala nos Estados Unidos a 19 de Outubro, contra o bullying e pelos direitos LGBTQ+. Para celebrar, o país pinta-se de roxo, com base numa ideia da ONG GLAAD – cujo foco é a a monitorização da forma como os media retratam a comunidade – com intuito mostrar solidariedade com os jovens LGBTQ+ e criar a maior e mais visível campanha anti-bullying do mundo.

Xavier Dolan escolheu assinalar a data falando a sua experiência pessoal. Num post de Instagram, que começa com uma fotografia icónica tirada por A. McLellan, conta o seu percurso de descoberta da homossexualidade, que não foi assim tão diferente de outros que conhecemos.

Happy #spiritday ? Please read. Photo by me. Jk. Photo by A. McLellan

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Dolan conta que no colégio interno onde andou a partir dos 11 anos a vida não foi fácil. Diz que nunca se tinha sentido rodeado de uma energia e crueldade tão negativas, com violência física, insultos “todo um novo mundo. Infelizmente também era o meu”, diz.

Revela que esse período coincidiu com a altura em que se apercebeu que não era como os outros rapazes que “gostava mais deles do que se gosta de amigos”Assume que na altura não queria ser gay, “não ali, não naquele momento”, e que, para sobreviver, passou de vítima a agressor e exerceu bullying sobre os “amigos” que também o exerciam sobre ele, numa espécie de cadeia de destruição. Conta que por medo foi cobarde e mau e que em resultado das suas acções um rapaz chegou a abandonar a escola. Desses tempos, Xavier assegura não guardar nada de bom.

Só aos 14 anos, quando convenceu a mãe a voltar a casa para terminar o liceu, Xavier se sentiu aceite – porque se aceitou a si mesmo. Assumiu a sua homossexualidade, fez amigos e o bullying não voltou a fazer parte da sua vida. Ainda assim, mantém-se no subconsciente, e o agora conceituado realizador de filmes como Mommy ou Juste La Fin Du Monde refere que, mesmo passados 15 anos, há coisas que não se esquecem e o fazem sentir uma culpa inexplicável.

No final do post, Dolan pede desculpa às suas vítimas e expressa todo o seu apoio à comunidade LGBTQ+: “O que escolhemos sentir e dar aos outros deixa uma marca permanente no seu coração, seja amor ou ódio. Quando finalmente percebi isso, era tarde demais.” 

Uma lição de aprendizagem de alguém que, alcançado o sucesso, consegue andar atrás na vida para perceber que agora “é tempo de te amares a ti próprio, e aos outros”.

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