Um ciborgue capaz de “ouvir” cores

"Não temos que ter medo de deixar de ser humanos".

Neil Harbisson foi o primeiro cidadão reconhecido como ciborgue. O artista não conseguia ver além do preto e do branco, mas, com a ajuda da cibernética, é agora capaz de “ouvir” as cores.

“Ciborgue” parece ainda um tema de futuro, mas já por cá está há algum tempo. Neil Harbisson é norte-irlandês de origem, mas foi na Catalunha que deu os primeiros passos e se apercebeu de um problema: não conseguia ver cor. Capaz apenas de visualizar os tons negros, brancos e cinzentos, após diversos diagnósticos e suspeitas de daltonismo, a conclusão apontava para uma acromatopsia.

Em 2003, de forma a resolver o problema, Neil iniciou um projeto com Adam Montandon, cientista de informática e conhecedor das tecnologias cibernéticas. O resultado da colaboração entre ambos foi um olho eletrónico, ou um “eyeborg”, fruto da junção de “eye” (olho) e “-borg” (ciborgue). O aparelho cibernético, que se assemelha a uma antena, encontra-se dotado de um sensor de cores. Implantado no crânio, permite registar a frequência de determinada cor e enviar essa mesma informação através de condução óssea. Deste modo, o implante funciona de maneira natural e funcional como qualquer órgão dos sentidos, enviando constantemente informação acerca do “som” das imagens para o cérebro de Neil.

“Quando era uma criança, vi que demorava muito a identificar as cores. Aos 11 anos, descobri que nunca tinha visto cor”, conta Neil Harbisson.

O britânico confessa que nos primeiros tempos sentiu fortes dores de cabeça. “Havia cores por todo o lado, para qualquer sítio que olhasse. O cérebro demorou meses a habituar-se a este novo input”, afirma Neil. Contudo, os problemas não se limitaram a uma adaptação biológica e pessoal. O implante já foi motivo de mal-entendidos. Numa manifestação em Barcelona, as autoridades confundiram o sensor de cores com uma câmara de registo de imagem e destruíram o dispositivo.

HUMAN HARDWARE: Creators meets Neil Harbisson

El cyborg Neil Harbisson habló de la relación humano-máquina en su conferencia para #MazdaCreators.

Publicado por Creators en Español em Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

 

De modo a evitar futuras complicações, em 2004, Neil conseguiu que o Reino Unido reconhecesse o “eyeborg” como parte integrante do seu corpo. Atribuído o passaporte britânico, o primeiro cidadão ciborgue revelou as justificações que permitiram o aval das autoridades em terras de sua majestade: “Justifiquei que não era equipamento electrónico e que se tinha tornado parte do meu corpo”.

É nesta linha de raciocínio que Neil Harbisson criou uma associação de defesa e promoção dos direitos dos ciborgues: a Cyborg Foundation. A fundação assenta em três pilares essenciais: Identify (auxílio na procura da identidade pessoal e possível conexão com o mundo cibernético), Enhance (ajuda nos estudos e procura de quais os sentidos e aspetos do organismo a melhorar com recurso às tecnologias), Become (ajuda na transformação e adaptação do indivíduo aos aparelhos cibernéticos). Para Neil Harbisson, esta experiência extravasa o ser humano. A noção de transespécie é algo cada vez mais real para o artista. “Os nossos sentido são limitados. Se nos unirmos à tecnologia, podemos quebrar esses limites e perceber melhor a realidade”, defende.

“Não temos que ter medo de deixar de ser humanos. Vamos poder escolher que sentidos e órgãos queremos ter durante a nossa vida. É uma liberdade que acredito que todos deveríamos ter”, defende o artista britânico.

Neil Harbisson formou-se na Dartington College of Arts. O artista aproveita assim as suas capacidades cibernéticas para expor a sua arte, em “concertos de cara”, por exemplo. O britânico “ouve” as várias cores que compõem a pele e vestuário de convidados e decifra quais os acordes “entoados” pelo seu aspeto.