“Cogumelos mágicos” podem ajudar a tratar a depressão crónica

Um dos seus compostos pode ser capaz de "reiniciar" o cérebro de pacientes com depressão.

Caixas com os chamados "cogumelos mágicos" no balcão de uma coffee shop em Roterdão, em Novembro de 2008.

É uma solução algo psicadélica mas que pode abrir caminho ao tratamento das depressões mais difíceis de lidar. Uma investigação realizada por uma equipa do Imperial College em Londres, e publicada na revista Scientific Reports, reuniu um grupo de 19 pessoas que sofrem de depressão para que lhes fosse administrada psilocibina, um composto alucinogénio presente nos chamados “cogumelos mágicos”. Todos eles apresentaram alterações na actividade cerebral que duraram cerca de cinco semanas.

“Mostrámos pela primeira vez mudanças claras na actividade cerebral em pessoas deprimidas com a psilocibina depois de os tratamentos convencionais terem falhado”, explica Robin Carhart-Harris, membro da equipa que conduziu a investigação. “Vários pacientes nossos descreveram que sentiram um reiniciar [mental] depois do tratamento.”

Os investigadores concluem que a psilocibina pode “reiniciar” o cérebro do doente, em particular os circuitos neuronais envolvidos na depressão, de forma a pôr fim aos sintomas depressivos. O composto existe naturalmente em cogumelos do género Psilocybe. A equipa de cientistas realizou duas sessões de tratamentos com esta substância nas 19 pessoas, com sete dias de intervalo entre cada uma, e monitorizou a actividade cerebral no dia seguinte à administração do composto, numa altura em que os seus efeitos já tinham passado.

Uma das áreas cerebrais estudadas foi a amígdala, que regula as respostas emocionais e o comportamento agressivo. O que a experiência demonstrou é que esta zona cerebral se tornou menos activa, o que faz com que os sintomas da depressão no doente se tornem também menos activos.

Outra área estudada foi a rede que liga diferentes regiões cerebrais, que se torna mais estável depois da ingestão da psilocibina. Os pacientes relataram de forma quase imediata a melhoria do estado de espírito, que durou cerca de cinco semanas. 

A equipa responsável pelo estudo avisa, no entanto, que as pessoas NÃO DEVEM realizar este tratamento sem acompanhamento, e que para a investigação foi apenas utilizado um pequeno grupo de pessoas sem o chamado “grupo de controlo”, que serve para se comparar os resultados identificados no grupo experimental. Por isso, serão necessárias mais investigações para que a substância possa ser realmente usada em tratamentos.

Ainda assim, a investigação sugere ainda que, além do tratamento da depressão crónica, este composto pode vir a ser utilizado para o tratamento do vício do tabaco e do álcool, da ansiedade e do transtorno obsessivo-compulsivo.

“Estudos maiores são necessários para ver se esses efeitos positivos podem ser reproduzidos em mais pacientes” – alertou David Nutt, co-autor da pesquisa. – “Mas os resultados iniciais são excitantes e fornecem um novo caminho terapêutico a ser explorado.”

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