O Daesh perdeu o controlo de Raqqa, cidade que foi a sua capital na Síria

Milícias curdas e árabes não esperaram pela declaração de vitória para celebrar aquele que é importante marco no declínio territorial do grupo jihadista.

Foto de: Bulent Kilic/AFP

O feito não é algo que se celebre com orgulho mas neste caso merece uma especial menção. Raqqa, a cidade tida como a capital do Daesh, foi ontem conquistada por uma força de coligação a combater no terreno, formada por milícias curdas e arábes e com o apoio logístico dos Estados Unidos.

A proclamação da vitória ainda está por horas e dependente do desmantelamento de todos os explosivos deixados pelo grupo terrorista mas os resultados dos confrontos dão a vitória à coligação anti-daesh que não esperou pelo decretar oficial para hastear bandeiras.

Foto de: Rodi Said/Reuters

No centro desta coligação, e como uma das figuras de proa da destruição do Daesh por terras sírias, continua o povo Curdo – organizado nas chamadas YPG (Unidades de Proteção Popular). A presença dos curdos na frente de batalha é assinalável de todos os pontos de vista. O povo que vive dividido entre Turquia, Iraque, Síria e a Diáspora está num complexo processo de reclamação de um estado que reconheça a sua identidade (diga-se, aqui assim, auto-determinação). Não vê a indiferença internacional como um sinal contrário e continua a oferecer-se à luta no norte da Síria, enquanto na zona Norte do Iraque continua empenhada no seu processo revolucionário.

Os Curdos são um povo com uma tradição e uma filosofia muito particular que infelizmente passa por vezes indiferente aos olhos do ocidente. Se a sua solidariedade internacional já é um sinal forte da sua posição no mundo, a forma como se auto-organizam pela sua independência e auto-determinação é mais uma lição a que todo o mundo devia assistir atentamente. Uma das fotografias dos confrontos é de resto símbolo disso mesmo com uma mulher a agitar uma bandeira no centro do teatro de guerra (no topo), ilustrando o papel central das mulheres na organização política do Curdistão.

Do conflito, há a lamentar a morte de centenas de populares da cidade de Raqqa que nos últimos 3 anos conviveram com a guerra à porta e a morte de Mehmet Aksoy, um realizador britânico de ascendência curda que estava no terreno a gravar um filme sobre o conflito e que se notabilizou por colaborar como uma espécie de Chefe de Comunicações da Unidade de Proteção Popular.

Apesar dos feitos assinaláveis e da solidariedade internacional exemplar, os curdos vêm-se a braços com uma difícil questão, conforme te demos nota aquando do referendo, a sua auto-determinação é uma questão que tem sido difícil de aceitar por diversos estados, incluíndo aqueles que os suportam no terreno, os EUA. A auto-determinação Curda é, também resultado de um processo com muito para ensinar ao resto do mundo. A organização do poder em comunas permite ao povo apesar da falta de reconhecimento organizar-se e criar estruturas políticas de apoio e legitimação da população.

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