Câmara de São Paulo quer alimentar pobres com “ração”

A autarquia quer transformar restos de comida próximos do fim da validade em composto para a população com baixos rendimentos.

Foto de: Fábio Vieira/Folhapress

Comecemos com um vídeo que mostra o secretário de Assistência e Desenvolvimento Social da Câmara de São Paulo, Filipe Sabará, a experimentar o granulado que a autarquia quer distribuir à população com menos rendimentos.

A caricatura que tem corrido a internet serve apenas para mostrar como custa comer o que queremos pôr no prato dos outros. A Câmara gerida por João Doria – figura importante do PSDB que as sondagens classificam como “presidenciável”, já com um olho nas eleições de 2018 – anunciou na semana passada que iria distribuir um composto alimentar às famílias em situação de carência alimentar e que procurem os equipamentos sociais da cidade de São Paulo. O produto seria doado pela empresa Plataforma Sinergia, que o fabrica a partir de alimentos que estão perto do fim da data de validade e fora do padrão de venda em supermercados, recorrendo a um composto chamado “Farinata”.

Perante a chuva de críticas, Doria defendeu a ideia dizendo que o composto é feito através de produtos de qualidade e que servia dois propósitos: alimentar a população e evitar o desperdício. A polémica durou cerca de 4 dias até que estalou. Centenas de nutricionistas vieram a público criticar a medida, dizendo que alimentação com base em compostos como este deve ocorrer apenas em caso de emergência, e não de maneira permanente e institucionalizada e que o produto não é mais que uma “ração” sem sabor. “Isso descontextualiza totalmente o carácter do que é comer. Comer é um acto que vai além de suprir nutrientes”, afirma o nutricionista Daniel Bandoni, da Universidade Federal de São Paulo, que explica que a alimentação tem também que trabalhar os sentidos e que é uma prática ligada intrinsecamente à cultura: “Nós não colocamos simplesmente a comida na boca, mastigamos e engolimos.”

A polémica passou também – obviamente – para o campo político, com Lula da Silva a assumir o protagonismo da crítica da oposição: “O Presidente da Câmara de São Paulo quer obrigar o pobre a comer ração. Um representante da elite brasileira pegar em restos de comida, fazer ração igual à que damos aos cães e achar que o pobre tem de a comer, é não respeitar as pessoas humildes deste país.”

O barulho foi tal, que depois anunciar a medida, a Câmara voltou atrás (dia 16). A Secretaria de Direitos Humanos veio a público dizer que ainda não há nenhuma parceria oficial assinada e que ainda não se sabe com certezas se os alimentos reprocessados serão ou não distribuídos à população. Diz que o programa Alimento para Todos ainda não tem um plano concreto e que ainda estão na fase de estudos. Isto tudo, depois de Doria ter publicado no seu Facebook (dia 9) oficial um vídeo de apresentação do que chamou de “alimento completo” e “abençoado” que começaria a ser distribuído já em Outubro “em São Paulo inicialmente e depois em todo o Brasil”, com o apoio da Igreja Católica.

A informação sobre a parceria com a empresa Plataforma Sinergia foi entretanto retirada do site da Secretaria de Direitos Humanos da Câmara de São Paulo, que à imprensa disse que não tinha mais informações a dar sobre o assunto de momento e que o vídeo colocado no site do Presidente dia 9 (vídeo acima) estava “descontextualizado.”

Descontextualizado ou não, o que é certo é que o Presidente voltou a falar do assunto ontem (dia 18), recorrendo de novo a um vídeo publicado na sua página. Nele, João Doria anuncia que vai distribuir o granulado no lanche das crianças nas escolas municipais. A Autarquia considera o produto um “suplemento alimentar” e diz que a ideia é que ele sirva de suplemento à alimentação dos alunos. A distribuição vai ter início já este mês. Além das escolas, a Câmara quer que o produto seja utilizado nos centros de acolhimento a moradores de rua. A imprensa brasileira fala de uma conferência de imprensa com pouca informação concreta sobre onde e quando será afinal o produto distribuído. Das muitas contradições entre o primeiro anúncio e o de ontem, conta-se também o momento em que Doria sublinhou que, afinal, a “Farinata” não serve para substituir alimentos naturais. Destaque ainda para o facto de, na conferência mostrada abaixo, terem sido servidos aos jornalistas pães com base de “Farinata”, acompanhado com azeite e sumos integrais, e não o alimento em grão apresentado anteriormente.

Pelo percurso controverso que a medida tem tomado, espera-se que surjam mais novidades nos próximos tempos. Da falta de dados e respostas concretas que os media brasileiros se queixam, destaque para o facto da Câmara de Doria, que se posiciona como candidato a Presidente em 2018, não ter sequer estatísticas de quantas pessoas na cidade de São Paulo vivem em situação de insegurança alimentar. Os últimos dados conhecidos são de 2013 e apontam para 1 milhão e meio de pessoas numa situação considerada grave, num universo de 7,2 milhões em todo o país.